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Quais são os maiores problemas da ciência brasileira?

Publicado em 15 julho 2003

1 - Para Luiz Hildebrando, o abismo entre o que se faz no laboratório e do que precisa a sociedade Herton Escobar escreve para 'O Estado de SP'; Luiz Hildebrando Pereira da Silva põe o dedo na ferida: 'A ciência no país tem um caráter predatório do gasto social. Hoje, a sociedade trabalha para satisfazer a curiosidade intelectual dos cientistas. Se não existe o elo entre eles e instituições capazes de captar esse conhecimento, transformando-o em produtos, serviços e processos, ele (o conhecimento) só vai ser destinado para a produção de artigos científicos.' Há um abismo entre o que se produz nos laboratórios e o que necessita a sociedade, já tão carente de recursos. Cientista prestigiado no mundo todo, Hildebrando desenvolve pesquisas no Instituto em Pesquisas de Patologias Tropicais em Rondônia. Tem em Porto Velho um centro tão bem informado quanto outro em Cambridge, na Inglaterra, ou Harvard, nos EUA. De lá, trabalha em colaboração com o Centro Nacional de Epidemiologia, de Brasília, a Fiocruz, no Rio, e grupos de Universidades brasileiras. Faz pesquisa aplicada de Primeiro Mundo, mas sabe que outros enfrentam dificuldades de Terceiro. 'O Brasil é como uma Suécia implantada na África. Algumas pesquisas são equiparadas às melhores do mundo, mas temos outras que trabalham de forma precária, sem informação ou estrutura', diz. Como exemplos da 'Suécia', lembra as pesquisas da Embrapa, a genômica e, voltando ao passado, as do Instituto Oswaldo Cruz, que permitiu o surgimento de cientistas como Carlos Chagas, Gaspar Viana e Adolpho Lutz. Otimista, Hildebrando acredita que o Brasil já tem, relativamente, um diagnóstico claro do que precisa ser feito para a ciência. Alguns caminhos já foram traçados, como ter agências para investir em pesquisa de nível internacional. Há ainda uma preocupação do governo em destinar recursos mais volumosos para a área, os fundos setoriais, mas que faltam ser implementados. 'Temos de superar certas culturas subdesenvolvidas. A formação de uma corrente envolvendo cientistas, técnicos, gestores e empresários ainda vai levar certo tempo', prevê. 2 - Para Aziz Ab'Sáber, a disparidade entre as regiões e a falta de pesquisa nas empresas Evanildo da Silveira escreve para 'O Estado de SP'; Um dos maiores problemas da ciência brasileira é sua disparidade entre as diferentes regiões do país. A opinião é do geógrafo Aziz Ab'Sáber, professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Para o ex-presidente e presidente de honra da SBPC, há um nível de desenvolvimento científico e tecnológico razoável no Sudeste, mas o mesmo não ocorre nas demais regiões. Segundo AB'Sáber, há uma concentração do conhecimento nos Estados do Sul e do Sudeste. 'A fundação da USP espalhou o ideário de Universidade para todo o país, mas ainda falta massa crítica na maioria das regiões', diz. 'Não há gente suficiente que as conheçam, o que dificulta o estabelecimento de políticas públicas. Quem sai prejudicado é o povo, que deve ser prioridade em políticas públicas.' O geógrafo da USP também critica o nível da maioria das faculdades e Universidades brasileiras, principalmente as particulares. 'Muitas são apenas fornecedoras de diploma', diz Ab'Sáber. 'Elas não fazem ciência. Enquanto isso, as instituições verdadeiramente científicas têm sido mal protegidas pelos nossos governantes. Ganha-se mal nas Universidades públicas, o que leva os cientistas a procurar outros caminhos ou a fazer gambiarras, aceitando encargos que prejudicam seu trabalho de pesquisador.' A falta de pesquisa nas empresas também é apontada por Ab'Sáber como um dos fatores que atravancam o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil. 'As empresas investem no aperfeiçoamento de seu produto e não em conhecimento', explica. 'É a ciência com teto. A Universidade, por sua vez, faz a ciência sem teto. Visa o aumento do conhecimento.' A solução seria criar institutos tecnológicos, a exemplo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), e investir nos que já existem. 'Esse tipo de instituição tem o ideário da pesquisa tecnológica, mas infelizmente não pode realizá-las', diz Ab'Sáber. 'Faltam a elas recursos e pessoal qualificado.' 3 - Para Luiz Davidovich, falta uma política abrangente e agressiva de incentivo Herton Escobar escreve para 'O Estado de SP'; Não adianta só formar pesquisadores. Para avançar na ciência, o Brasil precisa de uma política agressiva de financiamento e incentivo à inovação, tanto nas Universidades quanto nas empresas. 'Mais do que iniciativas isoladas, só teremos desenvolvimento tecnológico quando houver uma determinação geral do governo nesse sentido. Não só do MCT, mas de todo o governo', diz o físico Luiz Davidovich, professor da UFRJ e coordenador do Instituto do Milênio de Informação Quântica. Uma das prioridades seria incentivar a pesquisa na indústria e, com isso, criar mercado de trabalho para os 6 mil doutores que estão sendo formados hoje no país. 'Há uma dificuldade muito grande para acomodar esse pessoal', diz Davidovich. 'Vejo jovens bem formados que não conseguem emprego, recebem propostas de outros países e vão embora.' Segundo ele, o governo poderia subsidiar projetos de pesquisa e desenvolvimento no setor privado e, depois, utilizar seu poder de compra para garantir a comercialização dos produtos. A descentralização da pesquisa também é essencial, diz Davidovich. 'Seria muito importante ter um parque de pesquisa nacional.' Para isso, diz o físico, é preciso aumentar os valores das bolsas de doutorado das agências federais, que hoje são muito inferiores aos da Fapesp. E, ao mesmo tempo, criar institutos regionais de pesquisa e outros incentivos para fixação de pesquisadores em suas regiões de origem. O fortalecimento das fundações estaduais de amparo à pesquisa (FAPs) é uma necessidade. Davidovich alerta, entretanto, que a descentralização não deve ser traduzida como uma regionalização do apoio, o que poderia acentuar as desigualdades. A alocação de verbas federais, segundo ele, não pode estar vinculada a contrapartidas estaduais. 'A atividade de pesquisa nos Estados com FAPs inexistentes ou ineficientes seria duplamente prejudicada e o governo federal perderia sua capacidade de intervenção.' (O Estado de SP, 14/7)