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Mulheres na Ciência

“Qquando eu morrer, vocês vão me dar valor!” – A relação entre Ciência e maternidade que só quem é mãe conhece (Completo)

Publicado em 28 dezembro 2018

Por Daniella Pereira Fagundes de França

Vou começar fazendo as devidas apresentações, porque se tem uma coisa que brasileiro adora é título e rótulo! Sou Daniella Pereira Fagundes de França, conhecida no meio acadêmico como Daniella ou Dani França e, em casa, como mamãe. Tenho 30 (quase 31) anos, sou bióloga há 10 anos, licenciada formada pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, mestra em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais pela Universidade Federal do Acre e atualmente sou doutoranda em Zoologia pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Campus Rio Claro. Trabalho desde sempre com Herpetologia (estudo dos répteis e anfíbios) e há pouco tempo com divulgação científica.

Desde que me entendo por gente o maior sentido da minha vida é ajudar, ser útil. Pra conseguir isso, pensei em ser freira e até presidente do Brasil. Eu diria que seria a primeira presidente mulher do país. Também sempre quis ser cientista e professora. Eu não sabia como ser cientista, lá no interior de Goiás, de onde eu vim, não existiam cientistas. Eu achava que mulher nem podia ser essas coisas… Descobri que podia ser professora e ajudar muito dessa forma. Entrei em Biologia pra tentar unir um pouco da paixão por Ciências com a paixão por ajudar. O caminho nunca foi fácil, e todos sabem disso. Nós, brasileiros, aprendemos desde cedo que não podemos chorar, não podemos questionar, não podemos sentar à mesma mesa do patrão, não podemos estudar na mesma escola daquele menino da mansão. Como milhares ou até milhões de brasileiros, passei fome. Passava fome pra guardar dinheiro pra comprar livro, passei fome pra pagar a passagem de ônibus pra chegar no estágio, passei fome pra conseguir ir praquele congresso da faculdade. Passei fome de comer, mas a fome de passar por tudo não passou.

Ser mãe ou não ser, eis a questão!

Essa fase passou. Na faculdade de Biologia descobri que poderia ser cientista. Não sabia direito como. Aos poucos fui descobrindo. Comecei um estágio no Zoológico de Goiânia e saí de casa. Aprendi a ter responsabilidade cedo porque precisava me sustentar. Estudava à noite e durante o dia cheguei a fazer estágios em quatro lugares diferentes em um mesmo semestre. Além disso, colegas e eu montamos um grupo de estudos da fauna de vertebrados terrestres em um parque próximo ao município de Goiânia, onde cursávamos Biologia e morávamos. Toda essa vivência de campo e com outras práticas acadêmicas me fizeram amadurecer cedo em relação à minha carreira. No último semestre da faculdade conheci o pai do meu primeiro filho, hoje meu ex-marido. Eu tinha 21 anos quando me formei e apresentei minha monografia com um mês de uma gestação inesperada. Minha vontade pós-formatura era fazer mestrado e doutorado porque eu queria (e ainda quero) ser professora universitária e continuar pesquisadora. O pai do meu filho morava na Bahia e me mudei para lá. Cheguei a fazer uma prova para o mestrado em Zoologia na Universidade Federal da Bahia, logo depois de apresentar a monografia, mas não passei. Adiei um pouco o sonho do mestrado. Fiquei trabalhando como consultora ambiental até os oito meses de gestação (leia-se: indo pra campo pegar e estudar bichos). Após três meses do nascimento do meu filho eu voltei a ir pra campo; levava ele e uma babá, que ficavam no hotel mais próximo onde eu voltava apenas para almoçar e dormir. Não era fácil, mas eu não queria abandonar meu sonho e nem meu filho. Aprendi a unir as duas coisas e acho que deu certo, de alguma forma. Quando ele tinha pouco mais de um ano achei que seria hora de tentar a seleção de mestrado de novo. Não foi fácil estudar para enfrentar uma seleção com uma criança pequena agarrada, literalmente, nas minhas pernas (as vezes ele ficava em baixo da mesa abraçado às minhas pernas), ainda mais depois de dois anos longe da academia. Eu começava a estudar e ele pedia colo. Éramos só eu e ele em casa, eu dava colo… Mesmo assim passei na seleção com boa colocação. Foi assim que tudo começou. Quando fui mãe, tão nova e inexperiente, eu não tive noção de nada. Era pra ser mãe e eu fui.

Na foto de destaque: Primeiro acampamento do meu filho Ernesto, com apenas sete meses de idade, na minha primeira expedição científica depois de ser mãe.

Extração de veneno de serpente (Bothrops moojeni) no Núcleo de Ofiologia de Goiânia, Goiás.

“Toma que o filho é teu!”

Como o “ser mãe” e “ser cientista” vieram com pouca diferença de tempo, acho que acabei sendo beneficiada pela prática, no começo. Tive que aprender a me adaptar à situação desde sempre, então não tinha opção: tinha que produzir e cuidar do meu filho. Mas só consegui produzir trabalhos mais densos após ele crescer um pouco. Quase no final do mestrado me separei do pai do meu filho e as coisas pioraram, pois fiquei sozinha com ele e precisei terminar minha dissertação e começar a viajar frequentemente fazendo trabalhos como consultora ambiental para conseguir dinheiro para sustentá-lo. Durante esse tempo em que eu viajava ele ficava com meu pai. Fiquei quase um ano e meio trabalhando e não consegui publicar os resultados principais do meu mestrado porque tive que sustentar meu filho com as viagens que fazia. Quando voltava eu só queria ficar com ele. Apenas após começar o doutorado e conseguir ter um pouco de rotina, consegui retomar os antigos trabalhos e publicar um estudo importante que realizei naquela época. Até hoje ainda tenho um artigo sobre o segundo capítulo da minha dissertação para terminar. Veio o doutorado, me casei de novo e tive minha segunda filha, e apesar de ter produzido várias coisas nesse meio tempo, tenho certeza que conseguiria produzir o dobro caso não fosse mãe. Meus colegas ficam até tarde no laboratório trabalhando nos artigos deles… final de semana, se não tiverem nada pra fazer, vem para o laboratório, terminam aquele manuscrito e já submetem para publicação na revista. Eu tenho que ir embora às 16 horas porque hoje é meu dia de buscar minha filha na escola, fazer comida, arrumar a casa, ensinar tarefa… e final de semana tenho que levar criança para o grupo escoteiro, arrumar a casa, fazer comida e levar ao parque. Aquela semana de férias (não remunerada) que o colega tirou para descansar, eu não pude tirar porque perdi uma semana de trabalho com a criança doente em casa. E é mais ou menos por aí… Isso tudo porque ser cientista não é profissão, no nosso país! O cargo pesquisador, salvo exceções (poucas instituições brasileiras possuem cargo exclusivo de pesquisador), não existe no Brasil sem estar atrelado à docência superior, ou seja, para ser pesquisador você necessariamente precisa ter passado em um concurso público para… professor universitário! Acontece, meus caros, que produzimos Ciência desde a graduação e não somos reconhecidos por isso! Nem ao menos somos respeitados como cientistas por alguns dos nossos professores! Enquanto as outras profissões tem carteira assinada com direito a férias remuneradas, décimo terceiro, remuneração por horas extras etc, se naturalizou, no nosso meio, a prática de que o bom cientista é aquele que vira noites escrevendo e que coloca o trabalho antes da própria saúde e… sem receber nada por isso!

Na foto de destaque: Fotografando a paisagem no Deserto de Nasca, Peru.Deserto de Nazca, Peru.

Da esquerda pra direita: Paulinha, com pouco mais de um mês de idade, dorme enquanto trabalho; Eu e Ernesto prontos pra mais uma noite “pegando sapo”, como ele dizia.

Apresentando o projeto de doutorado para alunos e funcionários do Museu Noel Kempff Mercado durante uma visita científica à instituição. Santa Cruz de La Sierra, Bolívia.

Ser mãe cientista/mãe é padecer no paraíso inferno, mesmo!

E quando uma cientista, mulher, decide ter filho? Fui perguntada se “o Brasil oferece as ferramentas necessárias para que as mulheres equilibrem a maternidade com a produção científica”. Vamos supor que você e seu marido façam mestrado, ambos, com bolsas CAPES de 1500 reais por mês… com esse dinheiro você precisa custear sua pesquisa, pagar aluguel, comprar comida, etc. Certo. Mas e se entra uma criança na jogada? Numa cidade como São Paulo, onde moro atualmente, se paga 1800 reais em um apartamento de 2 quartos (e não é em bairro caro, não). Sobram 1200 pra comprar comida para os dois adultos e uma criança, fora gastos com escola, lazer e cultura (partindo do pressuposto que nós não temos apenas que sobreviver, não é?), vestuário, etc. E se a mulher é mãe solo? Vai ter que pedir ajuda dos pais (caso possa) ou se matar trabalhando em outra coisa além do mestrado/doutorado para conseguir sustentar a si e a criança. Assim, como é que essa mãe conseguirá produzir ciência? E eu nem mencionei que quando temos bolsa de pós-graduação não podemos ter outro emprego, ou seja, essa mãe solo e essa criança vão precisar se virar com 1500 reais por mês e a mãe ainda precisará ter equilíbrio mental e físico para produzir artigos científicos, pois precisa mostrar resultados sobre o que pesquisou para a população, que é quem paga sua bolsa. Além disso, se não publicar artigos, não consegue entrar no doutorado e não conseguirá concorrer a uma vaga para professor/pesquisador e todo seu esforço terá sido em vão, pois não poderá continuar sua carreira científica. É uma situação muito crítica.

Então, na prática, a mulher que tem filho durante mestrado ou doutorado é vista como louca ou como imprudente! Essa visão tem sido mudada de uns dois anos pra cá porque os problemas maternidade versus carreira científica tem sido mais debatidos. Então, pararam de me chamar de louca e começaram a me chamar de Mulher Maravilha, porque as pessoas entenderam o ato quase heróico que é ser mãe (ou pai, caso seja um pai presente, como é o pai da minha filha) na pós-graduação. Eu não pensei em nada disso quando engravidei… simplesmente engravidei e não teve “ah, agora vai ser difícil, minha vida acabou”; eu simplesmente fui. Eu sempre quis ser mãe e acho que isso ajudou. Também queria muito ser cientista. Quero! Sou! Quando a gente quer muito algo, se esquece um pouco as dificuldades. Hoje comecei a me dar conta de que não é comum ser mãe e cientista porque isso tem sido mais discutido. Antes eu achava que estava apenas fazendo minha obrigação porque “ninguém me mandou ter filho”. Hoje sei que não é assim! Precisamos ter direito de escolha e condições de sermos o que quisermos sem sermos penalizadas por isso! Tenho que ter as mesmas condições de concorrer a uma vaga de emprego com uma mulher sem filhos ou um homem, sem me sentir menos por ser mãe.

Atualmente ainda é raro você ver mães no nosso meio. As mulheres geralmente tem filho mais tarde, depois de ter passado num concurso ou após abandonar a carreira (o que não é incomum diante de tudo isso). Veja o que aconteceu comigo durante o doutorado: assim que comecei minha pesquisa, tinha bolsa CAPES. Na época era pouco mais de dois mil reais por mês. Engravidei, bem no comecinho, e quando minha filha nasceu eu ainda tinha essa bolsa. Meses depois do nascimento, meu projeto foi aprovado pela FAPESP e comecei a ganhar uma bolsa um pouco melhor. Recentemente foi aprovado o direito de licença maternidade remunerado para bolsistas de pós-graduação. Funciona assim: você tem seu filho durante a pós, tira os quatro meses de licença e, após o término da sua bolsa, você tem mais quatro meses com bolsa para terminar sua dissertação/tese. Na prática, seria assim comigo. Apesar do desespero inicial de uma segunda gravidez surpresa (e logo no início de um doutorado), fiquei mais tranquila ao saber que teria a licença remunerada. Apesar disso não fiquei afastada quatro meses após o nascimento. Voltei pouco depois de um mês porque, como já era mãe, sabia que teria que diluir essa licença durante os quatro anos, pra cuidar de viroses, dores de barriga, braços quebrados, festinhas na escola, férias escolares, etc. Quando no começo do quarto e último ano do doutorado eu soube que teria os quatro meses de prorrogação, mas não teria bolsa. Motivo: troquei de agência financiadora. Ninguém previu minha situação e agora estou “correndo” para conseguir terminar a tese a tempo de não precisar estender o desenvolvimento da minha pesquisa além do término da bolsa. Perdi quatro meses, pois não posso usufruir dessa prorrogação sem ter dinheiro pra sustentar meus dois filhos. Tenho feito “bicos” como cozinheira pelo menos três vezes por mês para conseguir poupar dinheiro caso precise ultrapassar esse tempo. Ainda tenho que ser mãe, produzir artigos e ter uma vida.

Por essas e outras coisas ainda me perguntam se a maternidade teve (e tem) impacto negativo na minha saúde mental. Sei que a resposta que esperam, principalmente depois de tudo que eu disse, é “sim”. Mas a resposta para esta pergunta é outra: NÃO! A maternidade não teve impacto negativo na minha saúde mental. A maternidade só me trouxe benefícios! Consigo ver claramente quem eu era antes e depois de ser mãe e gosto infinitamente mais de quem sou após a maternidade. Observo mudanças como melhor concentração, raciocínio mais rápido, aumento na empatia, maior facilidade na resolução de conflitos e problemas, mais plasticidade em diferentes situações, inclusive as de estresse, entre outras coisas. Como bióloga me arrisco a dizer que há até questões instintivas evolutivas envolvidas nisso tudo. Mas, por causa de problemas relacionados à maternidade passei por situações de estresse complicadas. Como eu disse, o ambiente acadêmico não é para mães. Frequentemente enfrento situações que já me levaram à elevados níveis de esgotamento mental e físico, não por causa da maternidade em si, mas porque não temos (nós, mães pós-graduandas) direitos básicos de uma mãe que trabalha com carteira assinada. Tenho que trazer meu filho pro laboratório todos os dias (e ainda me considero com sorte de ter essa opção) porque o que sobra da bolsa após pagar as contas é insuficiente para colocá-lo em uma escola integral (e ainda são pouquíssimas as escolas públicas que disponibilizam educação em tempo integral). Tenho precisado “fazer bicos” porque um direito básico me foi negado, que é a licença maternidade remunerada. Quando levo meus filhos em uma palestra (pois não tenho com quem deixar) muita gente fica me olhando feio “porque ali não é lugar pra criança”. Não existe nenhum tipo de apoio para alunas mães (nem para pais!) na instituição onde desenvolvo minha pesquisa (apesar de terem permitido que eu traga meu filho para o laboratório), assim como na maioria das outras. Não posso ficar com meus filhos durante as férias deles, pois um mês de férias é um mês de doutorado perdido. Tenho que escolher entre terminar um artigo ou assistir um filme à noite com meus filhos. Preciso disputar com meu marido quem vai fazer uma disciplina importante para o desenvolvimento da tese de ambos, porque se os dois forem, não terá ninguém pra ficar com as crianças. Então, a pergunta que deveria ser feita é “O que afeta sua saúde mental sendo mãe/pós-graduanda?”. Respondo que é a falta de empatia diante da situação das mães pós-graduandas no nosso país de quem está à frente das instituições brasileiras! Não a maternidade! É a falta de empatia da sociedade que vê como obrigação exclusiva da mãe os cuidados e criação dos filhos e exalta o pai que cumpre sua tarefa como pai, reforçando a máxima de que a mãe que troca fraldas e lê histórias está cumprindo seu dever e o pai que faz as mesmas coisas está sendo excepcional! É a falta de reconhecimento dos cientistas brasileiros como profissionais extremamente necessários para o crescimento do país! É a desvalorização da educação, a ponto de acharem mais importante isentar pagamentos de impostos de igrejas, que faturam milhões de dólares, que financiar jovens pesquisadores!

Com o aumento do ativismo feminista nos últimos anos, assuntos como este e histórias como a minha tem sido cada vez mais discutidos, mas existe um viés: mulheres ainda tem menos representatividade que homens na política e em cargos de chefia. E quem dita as regras e fazem as leis? Quem ocupa esses cargos: homens! Então, além de incentivar a ocupação desses cargos por mulheres, precisamos entender que mulheres de carreira podem ou não querer ser mães! Precisamos dar condições para que uma mulher possa ser boa profissional e boa mãe e que não tenha que escolher se dedicar a apenas uma das opções. Isso é injusto e ingrato pois isso não é (e nunca foi) cobrado dos homens, apenas das mulheres.

“Nem só de pão vive o homem…”

Por último, quero fazer uma pergunta às agências financiadoras, às instituições de ensino e pesquisa brasileiras, aos nossos políticos e à toda a sociedade: vocês acham justo que me seja negado a remuneração nos quatro meses de prorrogação do tempo do doutorado? Acham justo que eu trabalhe quatro meses “de graça” por ter perdido (por pura burocracia) um direito BÁSICO adquirido? Acham justo que por causa de uma deficiência no sistema, que não previu uma situação como a minha (que pode voltar a se repetir com várias outras mulheres), eu tenha que ficar quatro meses sem dinheiro pra comprar comida pros meus filhos? O que sugerem que eu e mulheres que venham a ter o mesmo problema, façamos: que acabemos com o que nos resta de saúde tentando terminar nossas pesquisas e pensando em como conseguir dinheiro para pagar o aluguel; que infrinjamos a lei e arrumemos outro emprego nesses quatro meses, prejudicando o desenvolvimento da pesquisa, nosso desempenho como mãe e dormindo três horas por noite; ou que desistamos de tudo por não conseguir entregar a tese antes de acabar a bolsa? Eu gostaria muito de sugestões, porque “nem só de pão vive o homem”, mas também de políticas públicas que tragam oportunidades e direitos iguais à população! Não tirem de mim e de milhares de outras mulheres com os mesmos anseios que eu, que lutamos tanto na vida, que passamos por tantas barreiras para chegar até aqui, a vontade de fazer a diferença no futuro desse país tão surrado e sofrido!