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Publicação reúne experiência de resgate cultural popular e práticas na sala de aula, na zona sul de São Paulo

Publicado em 10 maio 2012

Por Susana Sarmiento

"O melhor é que de maneira nenhuma ficou como receita", sinaliza a autoraContar como a cultura juvenil poderia colaborar e repensar a cultura escolar foi um dos pontapés de Maíra Soares Ferreira, autora do livro A rima na escola, o verso na história, pela Boitempo Editorial e apoio do Ministério da Cultura. A psicóloga com mestrado em educação, com estudos sobre realidade brasileira pela Escola Florestan Fernandes, formada em Psicanálise pelo Instituto Sedes Sapientiae, estudou uma escola pública localizada na favela Real Parque, na zona sul da capital paulista.  Ela integrava um grupo da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, chamado Cultura Juvenis X Cultura Escolar, um projeto de pesquisa financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) sob orientação da professora Monica do Amaral. “O tema da pesquisa era melhoria do ensino público, com a ideia de montar uma equipe para ir até a escola. Por que nós fizemos isso? A cultura escolar estava bem distante dos alunos e pouco interessante aos estudantes. A ideia era conhecer e ver o que eles gostam e o que poderia ser feito para o ensino ficar mais interessante”, explica.

O que mais chamou atenção nessa escola foi com 250 estudantes com aulas vagas por dia. Era uma turma do oitavo ano, com jovens de 13 e 14 anos, que cantavam rap, improvisavam rimas, e, em suas letras, mostravam o preconceito, a humilhação e a discriminação vivenciados dentro e fora da escola.Maíra é ainda coorganizadora do livro Capital e trabalho vivo (Expressão Popular, 2004) e atualmente é pesquisadora do Centro Memória Viva da Universidade Federal de Goiás (UFG). Ela conta que ficou impressionada com o que os estudantes faziam durante o tempo vaga. “Fui chegando perto e via eles cantando. Os temas eram fortes, uma crônica da realidade brasileira. Eles falavam que estavam dentro do Morumbi (bairro da zona sul de São Paulo), em volta de prédios luxuosos e da elite, que não podiam entrar na praça. Contaram até sobre um episódio que aconteceu em que alguns seguranças particulares mandaram eles saírem de uma pracinha, eles não podiam passear em seu próprio bairro. Havia uma cerca invisível”, revela.Com essas dificuldades da comunidade local, a jovem autora usou o verso e a poesia popular originários do nordeste do País, com influências misturadas de composição poética e musical contemporâneas, nessa obra ficou entre o tradicional repente e o rap.

Maíra ressalta o potencial crítico e transformador dessa confluência, formas que a seu ver expressam uma reinvenção da cultura popular nordestina ao apropriar-se do novo combinando-o com o velho. Dessa forma, a autora mostrou um método de trabalho na sala de aula e a compreensão da cultura como forma de resistência. Junto com o processo de levantamento de informação sobre os jovens, a localidade e os dados do bairro, Maíra descobriu um estudo do Projeto Casulo sobre os percursos dessa comunidade, a origem daquelas pessoas. “Descobriram que começou por volta de 1950, quando muitos indígenas, sertanejos, migrantes nordestinos foram levados para essa região de São Paulo para construir o estádio do Morumbi. Após a obra, muitos deles não tinham dinheiro para retornar, algumas fábricas da região contrataram essa população. Quando ouvi essa história, eu questionava e eles não sabiam. Nordestinos? Descendentes de indígenas? Muitos me respondiam: não, nada a ver. Negavam fortemente esse passo, essa herança”. O desconhecimento desses jovens abriu uma oportunidade interessante para Maíra trabalhar e propor algo diferenciado. “Quando perguntei que eram eles, respondiam: somos favelados, jovens quaisquer. Pensei nessa negação. Eram vítimas da exclusão. Minha tentativa foi entrar na psicanálise pelo conteúdo manifesto, no momento em que eles diziam racionalmente que não queriam contato. Eles negavam qualquer proximidade com o passado. Pelo lado do conteúdo latente, algo presente, porém inconsciente. Estava toda essa herança, essa cultura oral. Eles estavam ali denunciando as mazelas sociais e seus avós, com suas heranças indígenas, usavam a grande ferramenta da cultura oral. Da negação criei um link”, revela. A ideia de Maíra foi brincar com diferentes linguagens do passado e o presente desses jovens: cordel, repente e rap. Para isso, percorreu algumas cidades de Pernambuco, Sergipe, Alagoas e Bahia. Ela usou mais o material do sertão do Pernambuco, especificamente as cidades de São José do Egito e Aldeia Pankaruru, do sertão do Pankaruru, além de Recife (PE). Antes de partir para conhecer de perto e trocar experiências com essas comunidades, planejou um roteiro e contatou pela internet grupos de pesquisadores sobre culturas populares. “Vários artistas populares responderam suas questões e já indicavam outros. Tinha uma planilha com os lugares que queria conhecer, que gostaria de visitar, mas muitas coisas acontecem durante a viagem”, conta.

Ganhadora do prêmio Patativa do Assaré (MinC, 2010), a publicação é inspirada no diário de viagens de Mario de Andrade pelo norte e nordeste do Brasil, que resultou na preservação da cultura popular afroindígena e sertaneja e sua transmissão às novas gerações, em, integrada por migrantes descendentes da aldeia Pankaruru (PE). A rima na sala As demandas dos jovens sempre foram o eixo principal do estudo de Maíra. “A gente começou com uma brincadeira de rima com pão, discriminação, cidadão, escravidão, ladrão... Daí saíram convites para trabalharmos com contação de histórias, ver uma atividade sobre escravidão”, comenta. A autora explica que nesse movimento os professores de algumas disciplinas que já estavam envolvidos nessa ação desde o início, como o de literatura, o de geografia e o de história, por exemplo, ajudaram na continuidade dessa iniciativa abordando em suas aulas temas, como: desertificação da caatinga, literatura de cordel, poesia e construção de rimas.”A relação do professor com os alunos ficou muito mais próxima, mais forte. Os professores foram se apropriando da forma como eles podiam. Por outro lado, os pais começaram a participar e questionar a gestão da escola”, recorda. 

Esse processo, segundo a psicóloga, ajudou a reforçar a herança cultural, os alunos souberam quem eram seus ancestrais, em que alguns tinham raízes da tradição africana, outros da sertaneja, e uma considerável com descendência indígena. “Nosso trabalho foi de empoderá-los com sua própria história. Eles ganharam voz, um lugar no mundo. A partir daí, a pessoa se sente com mais direitos de cobrar e questionar”, reflete. Em suas 240 páginas, a obra é dividida em três partes: processos sociais entre diásporas e mestiçagens; hibridismos poéticos-musicais e étnico-sociais; copiando e colando na sala de aula. A conclusão e sensações da autora foram registradas nas considerações finais intitulada Travessias peiféricas brasileiras. Essa publicação resultou no mestrado da psicóloga. “Quando estava na escola, caiu essa ficha, quando eles se negavam com o conteúdo manifesto e afirmavam o conteúdo latente. Pensei isso dá um mestrado. Elaborei um projeto de mestrado e prestei para a Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e contou com o apoio da Fapesp”, lembra. Maíra ainda aproveitou a abertura do edital do Ministério da Cultura para financiamento a trabalhos relacionados com cordel e foi selecionado no final de 2010. A premiação do Minc foi financiar toda a obra. Mil livros serão destinados para a venda, e os outros mil serão distribuídos gratuitamente, destinados para Pontos de Cultura, todos os lugares que passou em sua viagem, escolas públicas e instituições com tema relacionado.