Notícia

Jornal da USP

PSIQUIATRIA: Em busca dos segredos do cérebro

Publicado em 01 novembro 1998

Por MORGANA CAMPOS
O Brasil é o primeiro país da América Latina a possuir o Neuro Scan, um equipamento de última geração que "filma" o cérebro enquanto o indivíduo memoriza um texto ou joga xadrez, na mesma fração de tempo em que ocorrem os eventos cerebrais. Dessa forma, já se pode ter uma idéia mais exata de como e quando se processam funções como memória, linguagem e vontade no córtex cerebral. "Essa tecnologia não é perfeita, mas começa a aproximar localização no espaço de localização no tempo. É uma visão mais precisa de onde e quando está ocorrendo o fenômeno", explica Cláudio L. N. Guimarães, um dos coordenadores do Setor de Eletroencefalografia Digital de Alta Resolução, onde ficará o Neuro Scan, do Instituto de Psiquiatria da USP. O Neuro Scan é um aparelho de eletroencefalograma que, através de 128 eletrodos encostados no couro cabeludo, capta a atividade elétrica cerebral concentrada nessa região. Tal natureza elétrica decorre da comunicação entre os neurônios que, através de substâncias, provocam, um no outro, fenômenos elétricos. "O impulso nervoso nada mais é do que uma espécie de corrente elétrica", assinala Guimarães. É justamente o somatório dessas correntes que será medido por essa técnica. Uma das grandes vantagens do novo equipamento é sua capacidade de registrar os fenômenos em milissegundos (a milésima parte do segundo), ou seja, no mesmo instante em que ocorrem. Até então, dispunha-se somente de tecnologias como a ressonância funcional, que necessitava de um segundo para fazer uma imagem do cérebro. O problema é que em 600 milissegundos um indivíduo já leu uma palavra, pulou para a segunda e já começa a somar o sentido da primeira com o da segunda. Portanto, "se desejo acompanhar o desenrolar temporal de uma atividade cerebral, preciso de uma técnica que meça em intervalos de milissegundo, para não perder nenhuma fase", destaca Guimarães. Associado ao novo aparelho será utilizado o Curry, um software que une o registro elétrico captado pelo Neuro Scan - durante a realização de atividades escolhidas pelo médico, como cantar, ver um filme ou resolver problemas matemáticos - à imagem de ressonância magnética do indivíduo. A partir dessa imagem, ele cria um modelo de cérebro com as indicações de onde e quando ocorreu o fenômeno, dentro de uma determinada probabilidade. Para o pesquisador, busca-se assim compreender a chamada "música do cérebro". As regiões cerebrais formam uma orquestra, que pode tocar uma sinfonia, uma marcha militar ou mesmo MPB. O problema não está em dizer onde ficam os violinos, nem os trompetes, mas sim saber quando cada um entra. "Queremos descobrir como se alternam as variações cerebrais ao longo do tempo, como se articulam num todo unificado: quando toca o cerebelo? Quando entra o córtex cerebral? Só a partir de tecnologias desse tipo poderemos saber mais sobre isso." REABILITAÇÃO CEREBRAL O Neuro Scan e o Curry abrem também novos horizontes no campo da pesquisa e diagnóstico das disfunções cognitivas (problemas de memória, de linguagem, de percepção sensorial, de raciocínio), causadas por lesões cerebrais após acidentes, cirurgias ou derrames. Apesar do Brasil possuir uma bem estruturada rede de atendimento populacional para reabilitação motora (caso das amputações), não se pode dizer o mesmo para a área de neuropsicologia. Ainda são poucos os profissionais e hospitais capazes de prestar tais serviços. "Isso é um grave problema de saúde pública, porque se eu perco minha memória deixo de ser quem eu sou. Se perco minha perna, vou sofrer muito mas não perdi minha identidade", ressalta Guimarães, que também trabalha com reabilitação cognitiva. Um dos motivos para essa precariedade no atendimento neuropsicológico deve-se ao consenso científico, que predominou até uns 30 anos atrás, segundo o qual nada se podia fazer por pacientes com lesões cerebrais. Hoje, com o avanço das pesquisas e das novas tecnologias, já se sabe que o cérebro adulto é dotado de uma grande capacidade de reorganização funcional de suas atividades. Em outras palavras, os neurônios mortos não serão recuperados, mas as funções desempenhadas pelo tecido necrosado podem passar a ser realizadas por um outro conjunto de células nervosas. Experiências feitas em várias partes do mundo têm sido fundamentais para tais conclusões. Em uma delas, analisou-se a região cerebral de um macaco adulto, relacionada com os cinco dedos da mão. Viu-se que para cada um deles havia uma certa região delimitada. Em seguida, costurou-se dois dedos, obrigando o animal a usá-los como se fossem um só. Novos estudos no cérebro mostraram que as áreas responsáveis pelos dedos não costurados não sofriam alterações, enquanto as dos costurados se fundiram, ou seja, o cérebro também passou a reconhecê-los como um só dedo. "Isso mostra que um cérebro adulto de mamífero pode se modificar estruturalmente no caso de uma situação de lesão, mesmo que induzida", diz Guimarães. Um outro experimento bastante ilustrativo apareceu em 1993, realizado pelo médico indiano Ramachandran. Com um cotonete, ele estimulava a face de seu paciente que lhe dava as seguintes respostas: "Estou sentindo o polegar esquerdo; agora, o anular". O mais interessante é que se tratava de um paciente que não possuía a mão esquerda. Isso acontece porque as regiões responsáveis pelo recebimento das informações sensoriais da mão e da face estão muito próximas, permitindo que as da face "invadam" as da mão, quando esta não mais existe. "Membro fantasma é algo que todo mundo conhece, desde que a primeira amputação foi feita. Mas só agora estamos entendendo como isso funciona em termos cerebrais", explica Guimarães. O LABORATÓRIO DE NEUROCIÊNCIAS Está prevista para novembro a inauguração do Laboratório de Investigações Médicas em Neurociências, que engloba o Setor de Eletroencefalografia Digital de Alta Resolução, totalmente construído e equipado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). "É uma das mais organizadas e ágeis instituições de apoio à pesquisa do mundo. Trata-se de um projeto de quase dois milhões de dólares e que só precisou de oito meses para ser aprovado", ressalta Wagner Gattaz, coordenador do projeto. Nesse laboratório serão estudados os aspectos neuroquímicos, neurofisiológicos, genéticos e da biologia molecular de duas doenças em especial: o mal de Alzheimer e a esquizofrenia. Esse projeto dará continuidade ao trabalho iniciado em 1984 por Gattaz na Universidade alemã de Heidelberg, um dos berços da psiquiatria. A construção desse novo espaço simboliza o primeiro passo para o desenvolvimento da psiquiatria no Brasil. Tanto no que se refere à pesquisa científica quanto ao atendimento populacional. "Esse laboratório será um campo fértil para o desenvolvimento de uma nova geração de cientistas. Suas portas estarão abertas para orientar alunos em iniciação científica, assim como pós-graduandos. Com isso queremos contribuir para o fortalecimento da pesquisa em neurociências com qualidade competitiva, em nível internacional", finaliza Gattaz. CORRIGINDO FALÁCIAS Até dezembro de 1999, o evento "Cérebro x Mente: uma visão contemporânea" estará realizando encontros mensais no Sesc Vila Mariana. São aulas seguidas de debates, que visam passar informações atualizadas nas áreas de Neuropsiquiatria, Neuropsicologia e Neurociência Clínica, para estudantes e profissionais desses campos e leigos interessados. "Queremos assim tentar diminuir o número de falácias que são ditas, como a de que o homem é mais inteligente que a mulher porque tem mais neurônios, que usamos somente 10% de nossa capacidade cerebral ou que não há reorganização funcional do cérebro adulto", destaca Cláudio Guimarães. Dentro dessa mesma perspectiva, Guimarães está lançando o livro Tópicos em Neurociência Cognitiva e Reabilitação Neuropsicológica. Trata-se de uma coletânea de textos, nos quais o médico e pesquisador conta sobre sua experiência em reabilitação de pacientes com lesões cerebrais. "Cérebro x Mente: uma visão contemporânea": Teatro do Sesc Vila Mariana (645 lugares), rua Pelotas, 141. Fone: 5080-8096. Inscrições no local: R$ 30,00, R$ 20,00 (associados da ABMP-SP e Comitê Multidisciplinar de Dor- APM) e R$ 15,00 (estudantes e comerciários matriculados) Tópicos em Neurociência Cognitiva e Reabilitação Neuropsicológica, R$ 30,00. A aquisição pode ser feita na Av. Pavão, 955 - Cj. 56, CEP 04516-012 - Moema - São Paulo/SP; pelo telefone/fax: 55-11-533-4414; ou pelo e-mail: claudiogs@uol.com.br