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Terra da Gente

Próteses ósseas com açaí

Publicado em 22 junho 2012

O açaí, fruto da palmeira Euterpe oleracea, poderá ser usado na produção de um plástico natural e renovável para compor próteses ósseas, principalmente na região da cabeça. Apenas serão utilizadas as sementes do fruto apreciado em sucos, cremes ou sorvetes. A novidade veio de uma equipe de pesquisadores liderada pelo engenheiro químico Rubens Maciel Filho, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O plástico de açaí, comum na região Norte do País, demonstrou ter as mesmas características do poliuretano feito a partir do petróleo. Testes in vitro indicam que o material é biocompatível e apresenta excelentes propriedades mecânicas e biológicas. “De acordo com pesquisas recentes, esse fruto tem propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e analgésicas, entre outras com interesse em bioaplicações”, explicou Maciel, coordenador do Instituto de Biofabricação (Biofabris), um dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT), sediado na Faculdade de Engenharia Química (FEQ), na Unicamp.

As pesquisas tiveram início em 2009. O novo polímero é resultado do trabalho de mestrado e depois de doutorado da pesquisadora Laís Gabriel, ambos sob orientação do engenheiro.

O engenheiro mecânico André Jardini, pesquisador do Biofabris, diz que o poliuretano é um material muito usado na fabricação de próteses ortopédicas, porque tem compatibilidade com os tecidos vivos. “Além disso, não libera substâncias tóxicas quando implantado. Se for de origem vegetal, tem outra vantagem, que é o baixo custo da matéria-prima.” Comparada a uma prótese craniana de biocerâmica, que custa, em média, R$ 120 mil, a produção de uma similar de açaí custará aproximadamente cinco vezes menos.

O processo de produção do novo material começa com a retirada da polpa do fruto numa máquina apropriada para isso. Na cidade de Belém, por exemplo, o consumo do açaí gera 350 toneladas por dia de despolpados (sementes e bagaço). Sobre uma biomassa úmida, caroços recobertos de fibras e partículas não solúveis. A professora Carmen Gilda Tavares Dias, do Laboratório de Engenharia Mecânica da Universidade Federal do Pará (UFPA), forneceu as amostras de despolpados usadas pelos pesquisadores da Biofabris. “Essa biomassa é colocada numa máquina de secagem para a retirada das sementes secas.”

Só então começa a produção do poliuretano, feito a partir de uma substância chamada poliol, que é retirada das sementes. Depois de adicionar outros compostos, o produto final é o polímero de açaí, uma espuma rígida e porosa, que facilita o crescimento ósseo. De acordo com os pesquisadores, ele é mais indicado para implantes e próteses em regiões do corpo que não exigem grande esforço mecânico, como o crânio e a face.

Se for aprovado nos testes clínicos pelos quais está passando, o biopoliuretano, produzido com o financiamento da Fapesp e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), poderá ser uma alternativa precisa e rápida de criar uma prótese ou implante ósseo. O tratamento poderá ser personalizado de acordo com as necessidades de cada paciente.