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Proteína TOR pode ser a chave para controlar o crescimento de plantas (1 notícias)

Publicado em 21 de julho de 2016

Por José Tadeu Arantes, da Agência FAPESP

As moléculas de açúcares, resultantes da fixação do CO2 pela fotossíntese, constituem a fonte primária de energia bioquímica que sustenta o crescimento e o desenvolvimento das plantas. Em condições ambientais adequadas, quanto mais energia disponível maior a eficiência do crescimento e, consequentemente, maior o acúmulo de biomassa. Esta inclui a celulose como a principal fonte de carbono para produção da chamada bioenergia de segunda geração. E a proteína TOR pode ser uma chave para otimizar o processo.

Esta enzima do tipo quinase, cuja sigla deriva da expressão em língua inglesa Target of Rapamycin, foi descoberta graças ao antibiótico rapamicina, que é capaz de bloquear sua ação. Desde a descoberta, diversos estudos indicam um papel fundamental da TOR no processo de crescimento e divisão celular de todos os seres eucariotos – ou seja, aqueles constituídos por células dotadas de núcleo. Assim, a TOR é quase onipresente no mundo vivo, regulando o crescimento de uma gama de seres que vai dos fungos aos humanos.

Um artigo de revisão – do qual participaram os brasileiros Camila Caldana e Michel Vincentz –, publicado na Annual Review of Plant Biology, destacou o papel dessa quinase na regulação dos processos vitais: “TOR Signaling and Nutrient Sensing”.

Camila Caldana é pesquisadora do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), e Michel Vincentz é professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp). Ambos têm apoio da FAPESP para suas pesquisas.

Caldana é apoiada pela FAPESP por meio do programa Jovens Pesquisadores (Apoio a Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes), com a pesquisa “Regulação do crescimento pela via ‘target of rapamycin’ (TOR) em plantas”.

Vincentz recebe auxílio à pesquisa regular da FAPESP para desenvolvimento da pesquisa “Definir a arquitetura da rede de regulação gênica de AtbZIP63: um fator de transcrição do tipo bZIP de Arabidopsisthaliana envolvido no controle da homeostase energética”.

“A integração entre sinais ambientais, como água, nutrientes, temperatura e luz, e os processos intracelulares, como crescimento celular e metabolismo, é condição para a vida. Para poderem sobreviver e se multiplicar, as células precisam responder de forma adequada ao ambiente. Uma das vias de sinalização que garantem essa integração envolve a quinase TOR”, disse Vincentz à Agência FAPESP.

“Se os fatores ambientais são favoráveis, essa via é disparada para que a multiplicação e o crescimento celular ocorram. Quando os fatores ambientais se tornam desfavoráveis, ela é interrompida, e outras vias, entre elas a comandada pela quinase SnRK1, de função antagônica, passam a ser ativadas, assegurando a preservação do metabolismo energético até que a condição propícia se restabeleça”, prosseguiu.

Considerando apenas dois entre muitos exemplos possíveis, a TOR participa tanto do crescimento das plantas quanto de carcinomas. Nas plantas, esse crescimento pode ter grande interesse, pois promove a produtividade e a produção de biomassa. No câncer, ao contrário, busca-se o desenvolvimento de drogas que suscitem a inibição da multiplicação celular. Daí a importância de se estudar em profundidade a atuação dessa proteína, seus alvos e antagonistas.

“Enquanto a TOR promove o crescimento, a SnRK1 o limita, fazendo com que a planta redirecione seu metabolismo e passe a utilizar suas reservas. Nossos estudos mostraram que essas duas quinases antagônicas desempenham papéis centrais no uso balanceado de carbono e no metabolismo energético, entre outros processos. Então, há um grande interesse em entender como as duas vias interagem”, afirmou Caldana.

Em experimentos recentes, os dois pesquisadores obtiveram mutantes da planta-modelo Arabidopsis thaliana por meio do “silenciamento condicional” da TOR. O “silenciamento condicional” é um procedimento que permite o controle temporal e quantitativo da expressão gênica. A inibição da atividade de TOR resultou em alterações no metabolismo de energia, lipídios e carbono, com o acúmulo de aminoácidos, amido e triacilglicerídeos.

“Por meio desse sistema, é possível controlar o crescimento da planta até que ela atinja uma determinada biomassa. Uma vez que esse estágio tenha sido alcançado, o silenciamento, seguido de uma reprogramação metabólica, poderia resultar na produção e no acúmulo de fontes de açúcares, potencialmente envolvidos em vários aspectos da produtividade”, ponderou Caldana.

“A compreensão dos mecanismos que controlam o direcionamento adequado do carbono para otimização do crescimento em um ambiente flutuante pode abrir perspectivas para a manipulação de rotas de conversão e manipulação dos carboidratos para desenvolver uma agricultura mais eficiente e respeitosa ao meio ambiente, no contexto das mudanças climáticas”, concluiu a pesquisadora.