Notícia

Portal da Enfermagem

Proteína pode aumentar a durabilidade das pontes de safena

Publicado em 16 setembro 2019

Por André Julião, da Agência FAPESP

Um grupo de pesquisadores do Brasil e do Reino Unido busca maneiras de aumentar a durabilidade da ponte de safena, procedimento cirúrgico que consiste em usar parte de uma veia da perna para revascularizar o coração que teve o fluxo de sangue reduzido – condição que pode levar ao infarto se não tratada.

O projeto é financiado pela FAPESP por meio do programa São Paulo Researchers in International Collaboration (SPRINT).

Uma das chaves para evitar que a safena implantada se desgaste, exigindo nova intervenção, pode estar em uma proteína normalmente produzida por artérias, a CRP3 (sigla para cysteine and glycine-rich protein 3). Os pesquisadores do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FM-USP) observaram que, quando implantada no coração, a veia safena passa a expressar a proteína. O efeito seria uma resposta ao aumento do fluxo sanguíneo em seu interior, se comparado ao da perna, contribuindo para que ela suporte a maior pressão mecânica.

A resposta adaptativa, contudo, não é suficiente para que a veia safena suporte o fluxo sanguíneo aumentado por muito tempo. O vaso acaba desenvolvendo lesões em sua parede ao longo do tempo. Na metade dos casos, surgem obstruções entre cinco e 10 anos depois do implante, tornando necessárias novas intervenções cirúrgicas.

“A ideia é que possamos modular a CRP3 ou outras proteínas que se mostrem importantes nesse processo de adaptação, de modo que as pontes de safena tenham uma durabilidade maior”, disse Ayumi Aurea Miyakawa, pesquisadora do InCor que coordena o estudo.

O trabalho foi apresentado nesta quarta-feira (11/9) durante a 34ª Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), que termina nesta sexta-feira (13/9) em Campos do Jordão.

Avanços

O primeiro trabalho do grupo, que mostrou a maior expressão de CRP3 na safena, foi publicado ainda em 2009. Por meio de um projeto financiado pela FAPESP, descobriu-se que, comparados a ratos normais, uma linhagem que não expressava a proteína tinha uma resposta pior quando a veia jugular era colocada em regime arterial – como acontece na ponte de safena. Os dados foram publicados em 2018, na revista Clinical Science.

“Nossa hipótese é que a CRP3 participa da mecanotransdução, processo pelo qual as células percebem e respondem ao estresse mecânico. A safena humana passa a produzir essa proteína para tentar compensar e responder a esse estresse”, explicou a pesquisadora.

Cadeia de proteínas

O grupo coordenado por Miyakawa busca agora entender como a CRP3 atua nas chamadas adesões focais. Constituídas por uma série de proteínas, as adesões focais estão envolvidas em vários processos bioquímicos, inclusive na percepção do estresse mecânico causado pelo fluxo mais intenso de sangue.

Para isso, os brasileiros iniciaram uma parceria com uma equipe da Universidade de Manchester, no Reino Unido, liderada pelo professor Christoph Ballestrem.

Trabalhos realizados pelo grupo de Manchester já haviam mostrado a importância de outras proteínas na resposta ao estresse mecânico. A vinculina e a talina, proteínas presentes nas adesões focais, são essenciais para a resposta de alterações mecânicas. Elas se ligam às integrinas, que conectam o meio extracelular com o intracelular, e desempenham o papel de perceber o estímulo físico e transformá-lo em respostas bioquímicas.

“Estamos mostrando que diversas proteínas presentes nas adesões focais controlam diferentes módulos de resposta ao estresse mecânico. A CRP3 e mesmo outras proteínas da família CRP pertencem a um terceiro módulo, que ainda não tínhamos estudado e é absolutamente crítico para a mecanotransdução”, disse Ballestrem, que apresentou os trabalhos do seu grupo na mesma sessão.

Para os pesquisadores, ainda é cedo para pensar em novos tratamentos. No entanto, entender melhor os mecanismos envolvidos na mecanotransdução é essencial para que novas estratégias terapêuticas sejam desenvolvidas.

“Por meio dessa colaboração, tentamos elucidar esses mecanismos. Se conseguirmos isso, poderemos manipulá-los e, assim, controlar o comportamento das células. Além de aumentar a durabilidade da ponte de safena, isso pode ser importante em novas terapias para fibrose, doenças cardiovasculares, entre outras”, disse Ballestrem.