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Agência C&T (MCTI)

Proteína do Alzheimer é identificada

Publicado em 13 abril 2008

Agência Fapesp - Em apenas 24 horas proteínas comuns no cérebro assumem uma estrutura anômala e se emaranham. Parecem ouriços-do-mar encaixados entre as células cerebrais, que em resposta incham e se retorcem. Uma semana depois essas placas já têm seu tamanho final, flagrado em pacientes com mal de Alzheimer, a causa mais comum de perda de memória e de capacidade intelectual em pessoas com idade avançada. A rapidez surpreendeu os pesquisadores norte-americanos que usaram um microscópio especial — multifotônico — capaz de acompanhar em tempo real a deposição dessas placas em camundongos vivos. As imagens, publicadas na revista Nature, reforçam a idéia de que essa proteína, a beta amilóide, tem papel central no Alzheimer, mas há controvérsia. Há pessoas que morrem com sintomas de Alzheimer e não têm placas no cérebro, e muitas têm placas no cérebro, mas não desenvolvem a doença.

"Na vizinhança das placas há outros agregados de beta amilóide, bem menores e solúveis, que não são visíveis pela maioria das técnicas de análise", explica Sergio Teixeira Ferreira, bioquímico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele acredita que são esses os vilões — as placas na verdade indicam um excesso da proteína nos meandros do cérebro. Em busca de desvendar o mistério dessa doença que no mundo gera um novo caso a cada 7 segundos, de acordo com dados de 2005 da Organização Mundial da Saúde, o grupo do farmacologista Cristoforo Scavone, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), tem esmiuçado a bioquímica do Alzheimer para detectá-lo antes que sintomas se manifestem e, principalmente, encontrar uma forma de contê-lo — até agora a medicina se limita a retardar a perda de cognição. 

Foi por isso que Elisa Kawamoto, do grupo de Scavone, se concentrou em investigar como a beta amilóide altera a bioquímica das células e acaba por matá-las. Com a colaboração de Maria Christina Avellar, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ela descobriu que, em concentração abaixo da tóxica, a beta amilóide estimula uma proteína, o fator de transcrição kappa B (NF-kB), a entrar em ação. 

Demência

O biólogo norte-americano Mark Mattson, um dos líderes mundiais na pesquisa sobre demência ligada ao envelhecimento, acredita que o NF-kB protege o cérebro contra a perda de neurônios que vem com a velhice. Elisa fez parte de seu trabalho no laboratório de Mattson no Instituto Nacional sobre Envelhecimento. Daí saiu uma colaboração produtiva, que ajudou o grupo da USP a mostrar que a relação não é assim tão simples. Em concentrações normais, a proteína induz o cérebro a recrutar substâncias protetoras. Mas no desequilíbrio causado pelo excesso de beta amilóide o NF-kB acaba ativando genes ligados à morte celular.   Já se sabia que a beta amilóide causa danos no cérebro, provocando esquecimentos típicos do Alzheimer como sair de casa e não lembrar o caminho de volta ou deixar de reconhecer parentes próximos. Mas Elisa e Scavone queriam entender mecanismos naturais de resistência contra esses efeitos deletérios. Ela então cultivou em laboratório células cerebrais de ratos, de uma região naturalmente resistente à degeneração por Alzheimer — o cerebelo, centro que controla o equilíbrio e o movimento fino como virar as páginas de uma revista.

"Queríamos saber por que o Alzheimer só ataca algumas regiões", conta Scavone. Ao incubar com beta amilóide essa cultura composta em 90% por neurônios e só 10% de outras células cerebrais, Elisa demonstrou que a proteína de fato age nos neurônios, as células que transmitem informação e são minoria no cérebro. A neuróglia, composta por células dez vezes mais abundantes, dá estrutura ao cérebro e não é afetada da mesma forma pela proteína. Os resultados do trabalho do grupo da USP estão na edição deste mês do Journal of Neuroscience Research. "Provar que a ação acontece nos neurônios é um avanço grande para a área", comemora Scavone.