Notícia

Alimento Seguro

Proteção que vem do arroz com feijão

Publicado em 02 abril 2007

Por Thiago Romero, Agência FAPESP

Estudo avalia fatores dietéticos associados com câncer oral e aponta que dupla de alimentos pode atuar na redução no risco de adquirir a doença, que responde por quase 3% dos tumores malignos no país.

Alimento Seguro (02/04/2007) -- Principal combinação nas refeições brasileiras, o bom e velho arroz com feijão pode ter associação com a redução no risco de adquirir câncer oral, doença que responde por quase 3% de todos os tumores malignos no Brasil, de acordo com estudo conduzido na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

O trabalho, publicado na edição de março da revista Cadernos de Saúde Pública, investigou as associações entre a doença e a dieta de 835 habitantes da capital paulista, sendo 366 pacientes com câncer oral e 469 indivíduos sem histórico da doença.

Os dados do trabalho foram extraídos de um inquérito de hábitos alimentares para investigação do câncer oral, realizado no Brasil pela International Agency for Research on Cancer (Iarc) entre 1998 e 2002. O questionário foi composto por 27 alimentos, sendo que para cada um foi estabelecida uma porção usual de consumo. Os dados do inquérito foram trabalhados levando em conta medidas de probabilidade e risco da doença. Segundo a coordenadora do trabalho, a nutricionista Dirce Maria Marchioni, a pesquisa constatou uma tendência significativa de diminuição do risco de câncer oral com o aumento do consumo de arroz e feijão.

"Quanto mais as pessoas do estudo consumiram arroz e feijão, menor foi a probabilidade de elas pertencerem ao grupo dos indivíduos com a doença. Os indivíduos que consumiram mais de 14 porções de feijão por semana apresentaram um risco 60% menor de ter a doença. Para o arroz, esse índice foi de 40%", disse Dirce à Agência FAPESP.

Apesar de os pesquisadores desconhecerem as causas que poderiam explicar a proteção contra o câncer oral, uma suspeita são os baixos teores de gorduras saturadas e de colesterol desses alimentos. Quando consumidos juntos, o arroz e o feijão fornecem altos índices de proteínas, fibras e açúcares que poderiam contribuir para a redução do risco.

Quando comparados às pessoas do grupo controle, sem câncer oral, os indivíduos com a doença relataram, em geral, consumo menor de arroz, feijão, massas, vegetais crus e saladas.

Resultados específicos -- A professora da Faculdade de Saúde Pública da USP ressalta que os resultados do trabalho devem ser encarados como hipóteses que representam a situação específica das 835 pessoas analisadas.

"Não há como afirmar que esses dados valem para a população brasileira em geral. Ainda que, desde a década de 1970, o conjunto de evidências de vários estudos internacionais tenha indicado o papel importante da dieta no desenvolvimento de diversos tipos de cânceres", destacou.

Segundo Dirce, o trabalho não verificou associações entre o câncer oral e o consumo de carne vermelha ou branca. Por outro lado, o consumo de ovos e batata teve associação estatisticamente significativa com a prevalência da doença. O inquérito da Iarc incluiu também perguntas sobre cigarros e bebidas alcoólicas, cujo consumo foi mais freqüente entre os pacientes com câncer oral. "O fumo e álcool são os fatores de risco mais reconhecidos em todo o mundo para a doença", lembrou Dirce.

Também participaram do trabalho pesquisadores e docentes do Hospital São Paulo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), do Instituto do Câncer Arnaldo Vieira de Carvalho e do Departamento de Cabeça e Pescoço do Hospital Heliópolis. Leio o artigo Fatores dietéticos e câncer oral: estudo caso-controle na região metropolitana de São Paulo, que está disponível na biblioteca eletrônica SciELO (FAPESP/Bireme).