Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

Proposta de repatriar cientistas gera debate

Publicado em 16 janeiro 2011

A declaração do ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, sobre a criação de medidas para repatriar cientistas brasileiros que atuam em instituições no Exterior tem causado polêmica entre representantes da comunidade científica. "Essa declaração está um pouco fora de época", afirma Carlos Roberto de Souza Filho, professor titular do Departamento de Geologia do Instituto de Geociências da Universidades Estadual de Campinas (Unicamp). Para ele, a produção dos pesquisadores brasileiros tem beneficiado a área científica do País, mesmo que esses especialistas tenham criado suas carreiras no Exterior.

O assunto foi tratado por Mercadante em seu primeiro compromisso oficial como ministro, quando visitou o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos, no último dia 10. A preocupação é com o déficit brasileiro de profissionais dedicados à ciência e tecnologia, especialmente no que se refere à área espacial. Segundo dados do governo, só nos Estados Unidos há mais de 3 mil cientistas brasileiros em universidades. O ministério não detalhou quais medidas devem ser tomadas, mas informou que a solução envolve outros órgãos nacionais, como os ministérios do Trabalho, Previdência e Educação, e que a questão está sendo estudada desde a gestão passada.

"Não acho que se deva falar em déficit brasileiro. O que acontece é que essas áreas de pesquisa são muito novas no País em relação a outros locais, como Estados Unidos, por isso não se pode comparar. Essa declaração está um pouco fora de época", afirma Souza Filho. Para o especialista, os esforços governamentais deveriam se concentrar na atração e retenção de talentos de diferentes partes do mundo, não apenas na repatriação de brasileiros. "Até porque é muito importante que haja representantes nacionais espalhados pelo mundo para haver facilidade na formação de convênios internacionais. Trazer de volta especialistas que já estão bem colocados em outros países, com uma carreira consolidada, e que abrem portas para outros pesquisadores brasileiros mundo afora, pode não ser uma boa ideia", diz Souza Filho.

O professor lidera um grupo de cientistas que realizam estudos de planetologia comparada, sob patrocínio da Nasa (sigla em inglês de National Aeronautics and Space Administrafinn - Administração Nacional do Espaço e da Aeronáutica), com integrantes de diversas nacionalidades. "Nos últimos dez anos, as condições de financiamento a pesquisas melhoraram muito, seja por iniciativas governamentais ou mesmo pela iniciativa privada. Não temos mais perdido tanta gente. Pelo contrário, temos nos tornado polo de atração."

Da mesma forma, o professor Ronaldo Aloise Pilli, pró-reitor de Pesquisa da Unicamp, acredita que as medidas para ampliar o contingente de pesquisadores no Brasil não devem se restringir em trazer de volta os brasileiros que atuam em outros países. Antes disso, diz, é preciso garantir que as condições de trabalho no Brasil sejam equivalentes, investir em ações estruturais e concentrar esforços nos jovens pesquisadores, doutorandos recém-formados.

O Brasil investe apenas 1% do Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisas, quando o ideal são 2%. "Ainda assim/a migração não é mais tão significativa. Mas é preciso garantir que os pesquisadores em início de carreira tenham condições de desenvolver plenamente suas capacidades." O especialista lembra que o momento no Brasil é favorável aos incentivos na área, já que países como os EUA e outros da Europa têm enfrentado períodos de crises. "E o Brasil, a despeito de tantos problemas, tem alcançado bons índices de desenvolvimento e sido capaz de oferecer benefícios atrativos."

Ainda segundo Pilli, a multinacionalidade intelectual é sempre positiva, em qualquer área do conhecimento. "Nosso interesse é fazer da Unicamp uma universidade sem fronteiras. Temos investido em trazer cientistas de todas as partes do mundo. A homogeneidade de nacionalidades pode trazer também a igualdade entre as capacidades intelectuais. Sempre é mais interessante ter diferentes pontos de vistas, experiências e culturas."

Desde 2009, a Unicamp tem investido esforços e recursos para recrutar professores estrangeiros. Nesse período, mais de 200 currículos foram recebidos e, em março, quatro profissionais devem iniciar suas atividades na universidade. Até o final do ano, deverão ser pelo menos dez. Uma das formas de atrair docentes de outros países é a publicação de anúncios de oportunidades de emprego em veículos de comunicação de grande importância e circulação no meio científico. Os primeiros foram feitos nas revistas Nature e Science.

Metas

1 - Plano de carreira que estimule a formação continuada dos pesquisadores/cientistas

2 - Salários atrativos, plano de aposentadoria e benefícios

3 - Local de trabalho apropriado e com massa crítica no principal campo de pesquisa

4 - Fortalecimento de revistas e sociedades científicas nacionais

5 - Criação de museus, bibliotecas e institutos de pesquisa de alto nível, além do equipamento de laboratórios, principalmente em regiões não tradicionais

6- Valorização dos institutos já existentes e instituição de novos prêmios pelo desempenho científico nos vários níveis (de olimpíadas de matemática ao Nobel)

Saiba Mais

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) é uma das mais importantes financiadoras de projetos científicos no Brasil. Um desses programas de financiamento, o Auxílio à Pesquisa - Regular, oferece recursos para projetos de pesquisa individuais, desenvolvidos sob a responsabilidade de um pesquisador com título de doutor, vinculado a uma entidade de Ensino Superior e pesquisa, pública ou privada, no Estado. Para mais informações: http://www. fapesp.br