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Extra (Rio de Janeiro, RJ)

Própolis vermelha vira aliada

Publicado em 03 abril 2021

A própolis vermelha, já conhecida por seus poderes contra bactérias e fungos, também é capaz de reduzir o número de ovos e matar os vermes causadores da esquistossomose. Em estudo da Universidade de Guarulhos, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), 400 mg do extrato foram suficientes para reduzir mais de 60% da carga parasitária em camundongos infectados com o verme Schistosoma mansoni.

De acordo com os pesquisadores, a ação foi observada tanto em vermes na fase adulta quanto na imatura (vermes jovens). Os testes mostraram ainda os efeitos da própolis vermelha em inviabilizar o acasalamento e a produção ovos do verme.

— As própolis, em especial a vermelha, já têm ação muito conhecida contra bactérias e fungos. Já era esperado que algumas de suas mais de 20 substâncias atuassem contra agentes infecciosos parasitários. O que nos surpreendeu foi ela atravessar o tegumento do verme e matar tanto vermes adultos quanto imaturos, algo que o tratamento convencional da esquistossomose não faz — afirma Josué de Moraes, professor da Universidade Guarulhos e autor do artigo publicado no Journal of Eth no pharmacology.

Com isso, os resultados obtidos com a própolis vermelha sugerem que o produto natural possa ser mais eficiente para tratamento da doença que o único medicamento existente. Para que a própolis vermelha seja receitada contra a esquistossomose, será necessária a realização de testes em humanos com a verminose.

A esquistossomose é a principal doença parasitária por helmintos, e atinge por ano cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo. A despeito de sua abrangência, um único medicamento tem sido indicado para o tratamento da esquistossomose há cerca de 40 anos.

— Embora efetivo, o praziquantel tem limitações importantes. Diferente do que foi observado no estudo com a própolis vermelha, o medicamento não combate a infecção precoce, causada pelos vermes jovens. Ele tem efeito apenas em vermes adultos, o que exige que o paciente espere o ciclo de crescimento do verme até o estágio adulto (infecção crônica) para iniciar o tratamento — diz Moraes.

O projeto coordenado por Moraes busca novos fármacos para o tratamento.

— Por ser uma doença negligenciada relacionada à pobreza e falta de saneamento básico, estudos de reposicionamento de fármaco se tornam a via única para a descoberta de novos tratamentos.

Descoberta pode auxiliar em outras infecções

O professor Josué de Moraes afirma que o mais provável é que as própolis verde e marrom também apresentem algum efeito sobre a esquistossomose, mas que serão necessários estudos específicos com os outros dois produtos naturais. A descoberta sobre a vermelha pode ter ainda aplicação em outras verminoses.

— O esquistossomo é modelo para o estudo de infecções (em humanos e animais) causadas por outros tipos de vermes do grupo dos platelmintos, chamados de vermes chatos, como as tênias. E uma oportunidade para novos estudos sobre o tratamento de outras doenças que acometem humanos, cães e gatos, e que também são tratadas com o praziquantel.

Ao longo do projeto do estudo, o grupo testou 73 antiinflamatórios não comercializados no Brasil.

Propriedades inibem células cancerígenas

Um estudo preliminar, que envolveu pesquisadores do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP, revelou que substâncias presentes na própolis vermelha foram capazes de inibir o crescimento de células de câncer de mama, próstata, cérebro e ovário. Após descobrirem oito substâncias inéditas da própolis vermelha, extraída de colmeias em Alagoas, os cientistas observaram que duas delas foram capazes de inibir o crescimento de células de câncer de mama, próstata, cérebro (glioma) e ovário, levando 50% delas à morte em testes iniciais realizados no laboratório. O estudo foi publicado no ano passado na revista científica internacional Journal of Natural Products.