Notícia

Jornal da USP

Promessas do mar

Publicado em 26 setembro 2010

Por Sylvia Miguel

Após dez anos de pesquisas e um balanço altamente positivo no que diz respeito ao conhecimento da biodiversidade brasileira, o programa Biota-Fapesp entra numa fase de modernização de métodos e técnicas. O planejamento para o próximo decênio prevê, inclusive, o apoio a áreas pouco privilegiadas na primeira etapa, entre elas os estudos sobre o mar. Se na maioria dos países é grande o gargalo de pesquisas na área marinha, no Brasil um número ínfimo de grupos de estudos está consolidado e as pesquisas são incipientes. Além de um edital lançado no ano passado para captação de projetos, um workshop internacional foi uma das estratégias do novo Biota-Fapesp para reunir conhecimento, buscar visibilidade e aumentar a massa crítica de especialistas na área.

Realizado nos dias 9 e 10 de setembro, o Workshop Biodiversidade Marinha: Avanços Recentes em Bioprospecção, Biogeografia e Filogeografia lotou o auditório da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) com estudantes e pesquisadores de todo o Brasil, interessados em ver o estado da arte do que vem sendo feito no exterior.

Bioprospecção foi o assunto do primeiro dia do encontro. Mariana Cabral de Oliveira, professora do Instituto de Biociências da USP e uma das coordenadoras do Biota-Fapesp, diz que o mundo está empenhado em procurar substâncias de interesse no ambiente marinho porque a ampla biodiversidade do mar permite vislumbrar a possibilidade de isolar um grande número de substâncias. Essas substâncias podem ter aplicações que vão desde fármacos até tinta an-tiencrustrante para casco de navio, por exemplo.

Segundo Roberto Berlin-ck, professor do Instituto de Química de São Carlos e um dos coordenadores do evento, atualmente a ciência conhece 25 moléculas isoladas a partir do ambiente marinho, com potencial para uso comercial e em fase de testes clínicos. Em todo o mundo, estão sendo utilizadas comercialmente apenas quatro moléculas de origem marinha, com aplicações anticâncer, antiinflamatória e contra a dor, afirma. "Isso é muito pouco em relação ao que existe e o que pode ser explorado", afirma.

Um levantamento feito por Berlinck calcula em cerca de 650 o número de pesquisadores no Brasil realizando estudos sobre o mar. "Esse total envolve tudo, desde oceanografia, passando por biologia e química, até meteorologia", afirma.

"Nunca houve no Brasil um evento com este espectro de especialistas e de conhecimento. A esperança é que este workshop crie oportunidades, desperte interesse da comunidade acadêmica e traga investimentos de empresas e governos", diz Berlinck.

"A descoberta de novas substâncias passa pela formação de massa crítica. Também é preciso apostar tempo para que as pessoas possam provar que são capazes de explorar esse bioma. Além disso, precisamos desse olhar nos gestores de ciências e tecnologia", diz a professora Vanderlan Bolzani, do Departamento de Química Orgânica da Unesp de Araraquara.

Segundo a professora, a consciência política para a exploração da biodiversidade marinha está presente no documento da 4ª Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia, realizada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia em março. "O documento é bem elaborado e oportuno. Precisa agora sair do papel", diz Vanderlan.

Na área de produtos naturais marinhos, existem no Brasil apenas dez grupos de pesquisa, afirma Vanderlan. "Mas apenas o grupo do professor Berlinck e outro da Universidade Federal Fluminense estão consolidados", afirma. Segundo a professora, as pesquisas na área marinha são caras e vão demandar investimentos e ações governamentais muito bem concatenadas.

Algas e vida - As algas marinhas estão na base da cadeia alimentar marinha. Sua importância ao ambiente também é fundamental. Quase a metade do oxigênio da atmosfera terrestre é sintetizada por elas.

Também respondem pela liberação do dimetil sulfeto, gás que forma as nuvens. Possuem a capacidade de recuperar águas poluídas e podem ser utilizadas como biomarcadores de poluição.

Na superfície, fora do mundo marinho, as algas estão mais associadas à alimentação, especialmente na culinária japonesa. Porém, elas podem ser a chave para o desenvolvimento não só de novos fármacos, como também de bioativos capazes de restaurar áreas marinhas impactadas, afirmou o professor Pio Colepicolo Neto, do Instituto de Química da USP, durante o workshop.

As algas marinhas podem ser fonte de compostos complexos de ampla aplicação na indústria farmacêutica e na agricultura, disse Colepicolo. Das macroalgas, por exemplo, podem ser extraídos antifúngicos que aumentam o tempo de vida útil de algumas frutas após retiradas do pé, como mamão, morango e figo, disse.

Por outro lado, as esponjas podem ser os seres mais promissores no que diz respeito à bioprospecção de animais marinhos, disse o professor Raymond Andersen, do Departamento de Química e Ciências da Terra e do Oceano da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, também presente no workshop.

Uma vez que não possuem defesas físicas, para afastar predadores as esponjas produzem inúmeros compostos químicos, alguns deles "especialmente exóticos", disse Andersen.

Seu grupo de pesquisa isolou compostos a partir de esponjas coletadas em Papua-Nova Guiné e na costa canadense. As substâncias demonstraram capacidade de deter o processo de divisão celular, o que faz vislumbrar a possibilidade de desenvolver drogas contra o câncer, por exemplo.