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Projetos buscam resgatar memórias da Amazônia

Publicado em 21 junho 2010

Por Rafael Carneiro da Cunha

Sinônimo de biodiversidade, a Amazônia também guarda uma rica história cultural, porém pouco conhecida. É com a finalidade de resgatar suas memórias e disseminá-las para a população brasileira, que dois projetos da Universidade de São Paulo (USP) desenvolvem trabalhos na região. Um deles é o "Amazônia em Transformação: História e Perspectiva", realizado pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP.

O projeto busca reunir documentos não publicados, raros ou que estão ameaçados de degradação em um site com uma plataforma interativa. Por meio da ferramenta a população poderá obter diversas informações históricas e atuais. A ideia surgiu após uma análise feita pela coordenadora geral do projeto, a alemã Maritta Koch Wesser, sobre grandes mudanças econômicas e ambientais que a Amazônia passou nos últimos 50 anos. "É um período de transformação que é consequência de um processo de ocupação de imensa proporção", explica Maritta.

Pioneiro na América do Sul, o projeto iniciou seus trabalhos em novembro de 2009 e toda a difusão vem sendo feita por meio de eventos públicos e mesas de debates. Segundo Maritta, a ideia é que futuramente haja uma descentralização do trabalho, que será distribuído entre organizações não governamentais, o próprio IEA e outras instituições especializadas no assunto. "É importante também que universidades nacionais, regionais, internacionais e empresas privadas sejam parceiras, pois podemos ter uma troca maior dos documentos", complementa.

Período pré-colonial

Outro projeto desenvolve trabalhos arqueológicos na região, buscando entender a história da Amazônia antes da chegada dos colonizadores europeus no século XVI. Estudos do "Projeto Amazônia Central" comprovaram, por exemplo, que por volta do ano 1000 a derrubada das árvores era feita com machados de pedra e não de metal, material introduzido provavelmente pelos europeus para região. "Hoje já são mais de 200 sítios arqueológicos descobertos apenas na porção central da Amazônia e com certeza existem muitos outros", afirma o professor Eduardo Neves, pesquisador do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP.

Outra descoberta envolve o uso da terra preta - terra muito fértil e de excelente qualidade para o plantio - pelas comunidades indígenas também no centro amazônico. Arqueólogos chegaram à conclusão de que os povos que ali viviam tinham consciência da alta fertilidade do solo, porém em muitas áreas ele não era usado para agricultura. Neves afirma que a terra preta ainda esconde muitos segredos sobre o modo de vida na Amazônia antes de 1500 e também desmistifica o fato de que o solo da região é pobre.

"Há no Brasil uma necessidade de que se intensifique o trabalho de escavações, mas esbarramos em um problema, o de que há poucos profissionais qualificados no país para a execução dos trabalhos", complementa. Para o professor, uma das alternativas que vem sendo feita para amenizar esse problema é a educação da população local para reconhecer e preservar os sítios arqueológicos. "Isso pode impedir também, por exemplo, que sejam construídas hidrelétricas sem um estudo prévio da área, destruindo um possível sítio ali existente", aponta. Ambos os projetos são financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).