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Revista Museu

Projeto temático "Mobile" reflete sobre produções artísticas

Publicado em 03 fevereiro 2010

A interatividade pode ser vista como marca de grande parte da produção de arte contemporânea. E uso das novas tecnologias tem papel central nesta concepção. Iniciado no ano passado no Departamento de Música da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP, o projeto temático Mobile volta-se justamente para a interatividade propiciada pelo uso destas ferramentas no fazer artístico, com destaque para a música.

A abrangência do tema, porém, permite que ele inclua uma extensa gama de subprojetos - a maior parte ainda em fase de elaboração - e pesquisadores de outras áreas tão diversas como computação, artes cênicas, artes visuais e engenharia.

São quatro as linhas de pesquisa. Uma delas, "Sonologia", aborda o estudo do som, incluindo trabalhos mais voltados à teoria. A linha "Produção artística com sistemas interativos" permite a execução de produtos artísticos ligados à reflexão teórica do projeto. "Desenvolvimento de sistemas interativos" é o terceiro ramo do Mobile, e abarca a parte mais técnica, com o desenvolvimento de softwares e, eventualmente, hardwares, a serem utilizados pelas outras linhas de pesquisa. Finalmente, a linha "Acústica musical, psicoacústica e auralização" trabalha com a percepção do som, e também foi criada com a preocupação de dar continuidade ao projeto Acmus, iniciado em 2007 [leia mais no box].

Já como primeiro resultado do Mobile, em 2009, o evento "Música" 2 (segunda edição do "Música", realizado no ano anterior) levou ao Departamento de Música (CMU) da ECA um espetáculo com performances, instalações e apresentações diversas interativas e com a mediação de computadores.

Tudo isso conectado ao conceito de mobilidade para o qual o nome do projeto remete. "Mobile tem a ver com a nossa preocupação de que os sistemas interativos que forem criados tenham `mobilidade`, quer dizer, não sejam estáticos. Uma das propostas é que os trabalhos e as tecnologias desenvolvidas sejam portáteis, modulares, partindo de pequenos módulos de software ou hardware que possam ser adicionados para criar sistemas maiores e adaptáveis a cada situação", afirma Fernando Iazzetta, professor do CMU e coordenador do projeto.

Acmus

O projeto temático Acmus foi o antecessor do Mobile, e de certa maneira, continua vigente dentro dele. Consistia na reunião de pesquisadores em torno do estudo de questões relativas ao comportamento acústico de ambientes para execução de música. Um dos resultados foi a elaboração de um software de mesmo nome para realizar medições, e que foi utilizado em várias salas de concerto. "O programa compara as ondas sonoras que emite com as ondas geradas no ambiente avaliado, dando uma "radiografia acústica" do local, a partir do cálculo de parâmetros como inteligibilidade, tempo de reverberação, definição, clareza, razão de graves e agudos e sensação espacial", explica Iazzetta.

Existem, segundo o professor, programas similares no mercado, mas o que diferencia o Acmus é o fato de ele ser um software livre: gratuito - os do mercado têm elevado custo - e com o código-fonte aberto a alterações e adaptações, além de ser multiplataforma, funcionado em sistemas operacionais diversos. Para seu uso, basta a instalação em um computador com saída de áudio (alto-falantes) e microfone, o que permite a utilização tanto para fins profissionais - em estúdios, salas de concerto, casas de show e salas de aula - como caseiro, para quem deseja, por exemplo, verificar a acústica de uma garagem onde ensaia uma banda amadora, ou a sala onde instalou seu home theater.

Formação

Na avaliação de Iazzetta, há no país poucos cursos para formação de profissionais que atuem com música e tecnologia. A graduação do CMU inclui algumas disciplinas na área, o que fornece uma formação básica. Mas, conforme relata o professor, quem trabalha de fato neste campo acaba aprendendo sozinho, ou em cursos paralelos e oficinas. Além dos profissionais híbridos, com formação nas duas áreas, como os professores da área de computação Marcelo Queiroz e Fábio Kon, ambos do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP, que é parceiro da ECA na iniciativa. Subcordenadores do projeto, Kon e Queiroz também fizeram faculdade de música.

"No Brasil ainda não se descobriu este filão. Existem alguns cursos voltados à multimídia, mas são poucos, e talvez ainda não muito consistentes. Ainda não acharam, vamos dizer, a "sua cara": se querem formar um profissional para se inserir no mercado ou para ir para a produção artística mais experimental", pondera o professor.

Em 2008 foi aprovada na USP a criação de um curso inédito no país: música com habilitação em sonologia - e que teria início em 2009. Como explica Iazzetta, "seria um curso mais técnico, voltado para o estudo do som, e que oferecesse ao aluno subsídio para lidar com as tecnologias, tanto para a produção voltada ao mercado quanto a experimental, com noções básicas de programação, eletrônica e multimídia, mais as disciplinas normais de formação em música".

A abertura do curso, porém, foi adiada em função da necessidade de contratação de professores, e também de uma reforma prevista no CMU, que interditará parte dos laboratórios. "A intenção é que em 2010 reavaliemos essas perspectivas, da reforma e da chegada de professores, para sabermos quando o curso poderá ser lançado", conclui.

O projeto temático Mobile tem financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Mais informações podem ser encontradas no site www.eca.usp.br/mobile. O software Acmus pode ser baixado gratuitamente no site http://gsd.ime.usp.br/acmus.