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Projeto SustenAgro apresenta estudos com cana-de-açúcar

Publicado em 31 outubro 2014

Trabalhos desenvolvidos pelo Projeto SustenAgro foram apresentados entre os dias 20 e 24 de outubro no 2nd Brazilian Bioenergy Science and Technology Conference (BBEST), em Campos de Jordão, SP, com discussões sobre temas relacionados à contribuição da bioenergia nas mudanças climáticas e sustentabilidade. Cientistas, estudantes, organizações não governamentais e representantes da indústria e do governo participam do evento que conta com apoio da Fundação de Apoioa à pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Conforme Katia de Jesus, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente (Jaguariúna, SP) e coordenadora do Projeto, os 5 estudos desenvolvidos e apresentados no evento foram com cana-de-açúcar.

Um dos trabalhos apresentou os impactos das mudanças nos sistemas de produção da cana mecanizada no Estado de São Paulo e práticas de gestão agrícola de avaliação para melhorar esses impactos ambientais e sociais do sistema de produção.

Com o advento do Protocolo Agroambiental, assinado entre o Governo e a Indústria da Cana de Açúcar (Unica e Orplana) sobre as vantagens da mecanização, a indústria da cana começou uma jornada de mudanças de produção da colheita manual para o sistema de produção mecanizada. Este processo trouxe muitas conseqüências e impactos para o setor.

Entre os impactos positivos estão o: fim da queima de palha, redução do consumo de água e redução de emissões de gases de efeito estufa. Dentre os impactos negativos: o aumento de pragas devido à alteração da condição biológica, o aumento da compactação do solo, aumento do consumo de diesel, entre outros.

Também foi possível detectar a mitigação de trabalho extenuante, prestação de trabalho adequado, aumento da remuneração do trabalhador. Com o aumento da mecanização da colheita houve um ganho considerável em melhoria da qualidade do ar com a diminuição de incêndios.

Outro trabalho desenvolvido pelo Projeto Sustentabilidade da Agricultura – SustenAgro tratou dos Indicadores para avaliação da sustentabilidade de sistema de produção de cana de açúcar no Estado de São Paulo.

O cultivo da cana é o terceiro maior em área no Brasil. O maior produtor nacional é o estado de São Paulo com cerca de 54%.

O sistema de produção de cana é complexo. Os produtos álcool, açúcar e combustíveis são divididos aos distribuidores, indústria de alimentos, no atacado e varejo, comércio e destinado para exportação. As preocupações com a equidade ambiental e social foi reforçada nos últimos anos, especialmente devido à globalização dos mercados e cobranças da sociedade.

Os indicadores ambientais para avaliar a sustentabilidade desse sistema de produção no Estado de São Paulo foram validados por meio de consultas e entrevistas com os interessados e especialistas no assunto. No total 248 especialistas foram contatados e 61% retornaram com respostas e contribuições. Esta consulta foi formulada de acordo com a técnica de Delphi de consulta a especialistas e buscava a validação dos indicadores. A partir da análise dos questionários, foram considerados validados os indicadores que tiveram a aceitação superior a 60%.

Os indicadores propostos abordam alguns pontos críticos em relação ao sistema de produção de cana de acordo com a recomendação de especialistas, entre eles: efeitos sobre as variáveis solo, ar e recursos hídricos, descarte de resíduos no meio ambiente, bem como medidas de gestão necessárias para apoiar o setor nessa etapa de mudança nos arranjos produtivos com vista a manter a produtividade mesmo com estresse hídrico e com a introdução de práticas sustentáveis.

Também foi apresentado estudo dobre a caracterização de sistemas de produção de cana de açúcar na Mesorregião de São José do Rio Preto, São Paulo. O objetivo foi analisar o sistema de produção para verificar novas técnicas utilizadas pelos produtores.

Foi utilizada a metodologia de pesquisa de análise de dados fornecida pela Aplacana (Associação dos produtores de cana no região de Monte Aprazível). Esta associação representa fornecedores de 40 cidades da região.

Atualmente na região se concentram 285 produtores, a maioria pequenos produtores, que cultivam as matérias-primas em 48 mil hectares. Cerca de 96% dos produtores da região têm um sistema manual de plantio.

Assim, de acordo com os dados coletados, é correto concluir que o sistema de produção manual é predominante para no Centro-Sul e em algumas regiões do estado de São Paulo. É conclusivo que o custo de implantação da tecnologia, especificamente colheitadeiras mecânicas, é proibitivo para alguns produtores em função do tamanho das propriedades. É recomendável que algumas políticas ou estratégias com recomendações técnicas apoiem o produtores para enfrentar o mercado cada vez mais exigente com técnicas sustentáveis.

A produção de energia a custos competitivos e com baixo impacto no meio ambiente é um grande desafio nos dias de hoje. Algumas políticas foram implementadas para este objetivo, nos últimos anos. Destaca-se a iniciativa do governo de São Paulo, em 2002, que promulgou a Lei 11.241, regulamentada pelo Decreto 47.700, que estabelece parâmetros técnicos para a continuidade da gestão agronômica da queima da palha.

Para aumentar o âmbito do protocolo Agroambiental para o açúcar e para a indústria do etanol, o principal objetivo é extinguir a queima da palha, meta quase totalmente alcançada no estado de São Paulo. Há dificuldades na colheita mecanizada, devido ao tamanho da propriedade nesses municípios, onde 85% das áreas tem menos de 100 hectares, onde este padrão impõe um tipo de organização com o objetivo de diminuir o custo de máquinas e equipamentos para a implementalçao da colheita.

A produtividade média por dia trabalhado no corte manual atingiu 7.9 ton/trabalhador.
A suspensão imediata da queima da palha afeta diretamente estes trabalhadores que, sob a execução da proibição devem procurar o seu sustento em outras atividades. Nesta questão reside o dilema social da queima. Por outro lado, o trabalho de corte e montes de cana de açúcar é o mais extenuante na agricultura brasileira, portanto, tecnicamente e humanamente insustentáveis.

O estudo sobre as características dos produtores de cana da Microrregião Nhandeara, SP também foi apresentado. De acordo com a Orplana (Plantadores de Cana da Organização de São Paulo) cerca de 17.000 produtores são responsáveis por 25% a 30% da cana em São Paulo. O processo de compra de matéria-prima é por meio de parcerias entre produtores e usinas que pagam por tonelada de produto. A maioria são associados da Orplana.

A Aplacana (Associação dos produtores de cana da região de Monte Aprazível) é uma da associação que pertence à microrregião de Nhandeara e São José do Rio Preto que também inclui 40 cidades e representa 285 fornecedores de cana. O objetivo foi avaliar as práticas de cultivo realizados nesta região, utilizando dados da associação.

Foi utilizada a metodologia de pesquisa de análise de dados fornecida pela Aplacana, que representa fornecedores de 40 cidades da região. Inicialmente foi montado um questionário para analisar o perfil dos produtores.

Em 2013, a colheita na região produziu mais de 3 milhões de toneladas de cana, em aproximadamente 38.000 hectares. Esse total representa menos de 1% da produção no estado. Do total, em torno de 80% são provenientes de propriedades que fornecem até 10.000 toneladas; 10% são responsáveis pela produção de até 20.000 toneladas e os restantes 10% produzem entre 20.001 a 100.000 toneladas, ou 53% do total regional.

A região predominantemente utiliza sistemas de produção manual (96%). Sobre a colheita, o uso de máquinas tem crescido nos últimos anos e, na safra de 2013, 34% dos fornecedores adotaram o sistema. Nesta região ainda é utilizada a colheita manual com queima e carregamento semi-mecanizado.

Assim, são necessárias novas políticas governamentais que permitem a sustentabilidade de acordo com o critérios recomendados internacionalmente.

A pesquisadora agradece aos coautores que colaboraram com essas pesquisas: Sérgio Torquato (Apta Regional, UPD – Tietê), Catiana Zorzo e Bruno Oliveira (UFSCar/São Carlos e Embrapa Meio Ambiente), Celso Rodrigues Vegro e Rejane Ramos, ambos do Instituto de Economia Agrícola/São Paulo. Agradecimento especial a Aplaca pelo fornecimento dos dados para pesquisa.

Fonte: Embrapa Agroenergia