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Projeto pode adquirir DNA de espécies florestais para a indústria

Publicado em 26 março 2021

Um projeto aos moldes do que foi o Projeto Genoma Humano (PGH) no qual cientistas de todo mundo se uniram para criar um banco de dados do genoma humana (Sequência completa do DNA de vários indivíduos), deve ser implementado em diversos estados brasileiros em que a Floresta Amazônica está presente. O objetivo é coletar dados da flora amazônica, contribuindo com a preservação da biodiversidade da região e gerando renda aos seus moradores.

A partir de 2022, deve entrar em operação o biobanco da Amazônia, um projeto idealizado pelo Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos (IEEE), organização de profissionais da área que busca criar um banco de dados com o DNA de várias plantas da Amazônia para empresas da indústria farmacêutica, cosmética e alimentícia.

Um dos pesquisadores que está implementando o projeto, o professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) Marcos Simplício, explica que a vantagem de um projeto organizado de fora da indústria é justo para os moradores da região.

"A floresta é um bem público que possui uma biodiversidade incrível. Esse projeto busca coletar dados de forma sustentável e dar renda para os moradores da região por meio de royalties, que deverá ser pago pela empresa interessada nesse DNA".

A Amazônia é um dos biomas mais ricos em biodiversidade do mundo. Um estudo realizado por pesquisadores brasileiros e publicado pela Agência Fapesp revelou que existem 14.003 espécies de plantas com sementes, das quais 52% são arbustos, cipós e ervas. As árvores são representadas por 6.727 espécies. Muitas dessas plantas possuem características bioquímicas ainda desconhecidas pela humanidade, como novas moléculas, enzimas e antibióticos naturais que podem eventualmente ser utilizados pela indústria e promover o desenvolvimento socioeconômico da região.

"A ideia é coletar esse DNA com base no conhecimento popular. Quem vive na Amazônia sabe quais plantas são boas para a febre, para a hidratação da pele por exemplo. Esse conhecimento ajudará na seleção da coleta dos DNAS de interesse de indústrias como a farmacêutica e a cosmética, nos casos citados", conta o pesquisador Marcos Simplício.

Ainda dentro da Amazônia, em vários estados, onde haverá a coleta de dados, serão construídos vários laboratórios de Criação Genômica. O laboratório utilizará um sistema de blockchain colaborativo.

Segundo o profissional em sistemas da informação Juliandson Ferreira, o blockchain ainda é um conceito em desenvolvimento, mas ele poderá se consolidar como uma tecnologia que atenda a todas questões tecnológicas, legais e econômicas.

"Ainda existem muitos desafios para implantação das soluções, porém o blockchain é um tema que a cada dia atrai a atenção de mais pesquisadores, portanto, suas falhas tendem a ser mitigadas à medida que sua aplicação se tornar mais difundida".

O blockchain é um livro contábil compartilhado e imutável que facilita o processo de registro de transações e o rastreamento de ativos em uma rede de negócios. Operando como livro de registro digital, esse sistema garantirá a transparência e a rastreabilidade das contribuições de cada indivíduo ou organização não governamental (ONG) ao biobanco. "Iremos treinar várias pessoas que possam coletar esses dados com um simples aparelho", conta Marcos Simplício.

Segundo o pesquisador, haverá também um sistema de busca de espécies documentadas, um sistema de proteção de dados e mecanismos para entrega de sequenciamento genômico às partes interessadas. "O mecanismo de distribuição de dados para destinatários precisa ser muito robusto, porque estamos falando de muitos gigabytes ou até terabytes por sequência de DNA", explica Marcos Simplício.

A iniciativa faz parte do Projeto Amazônia 4.0, dos irmãos Carlos e Ismael Nobre. Em 2020, em meio ao gritante desmatamento e queimadas na Amazônia, Carlos citou blockchain como uma das formas de preservar a floresta de forma sustentável. "É uma forma de ajudar também a gerar renda".