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Jornal da Unicamp online

Projeto mapeia interação de universidades e institutos de pesquisa com empresas no país

Publicado em 01 outubro 2012

Por Isabel Gardenal

As interações de pesquisadores das universidades e dos institutos de pesquisa, ou da ciência com os profissionais de P&D do setor industrial, não acontecem da noite para o dia no Brasil. Elas requerem persistência, a exemplo de outros relacionamentos. Foi o que apontou pesquisa de fôlego resultante do projeto temático da Fapesp “Interação de universidades e institutos de pesquisa com empresas no Brasil”, que chegou ao fim após quatro anos de investigação. O projeto foi coordenado pelo professor colaborador do Instituto de Geociências (IG) e economista Wilson Suzigan.

Esse projeto teve âmbito nacional, embora desde o início estivesse vinculado a um projeto de cunho internacional encabeçado pelo IDRC (International Development Research Center) do Canadá, que se propôs a financiar vários projetos sobre o processo de catching up tecnológico dos países em desenvolvimento, buscando um emparelhamento com as tecnologias mais avançadas na ordem internacional em vários setores e em várias indústrias.

Trata-se de uma pesquisa inédita, desenvolvida no período de 2008 a 2012, do tipo Survey, uma metodologia quantitativa em geral feita por meio da aplicação de questionários. Nela, procurou-se fazer um amplo levantamento, ao qual responderam 1.005 pesquisadores de universidades que figuravam na base de dados do CNPq e 326 profissionais de P&D das empresas. 

O projeto, conforme Suzigan, confirmou a percepção de que a conexão entre a C&T é um fator-chave para o desenvolvimento tecnológico e para o processo de catching up de setores econômicos e do país como um todo, além de implicar o desenvolvimento simultâneo da capacitação na área acadêmica e da capacidade de absorção de novos conhecimentos pelas empresas.

Mas o padrão de interação que há no país hoje (entre a área científica e a área tecnológica das empresas) ainda é relativamente pobre, apesar de não ser um desastre. “Notou-se um histórico que é uma espécie de processo coevolutivo, tanto da instituição de pesquisa acadêmica quanto da empresa, no aprendizado de como estabelecer relações entre a ciência e a tecnologia e como desenvolvê-las”, assinala o coordenador da pesquisa.

Minas

Ele relata que os questionários sinalizaram fortes evidências de processos interativos entre agronomia e produção agropecuária, florestal e de alimentos; entre a área acadêmica de química e produtos de petróleo; entre engenharia elétrica e fabricação de equipamentos elétricos; entre engenharia mecânica e produção de veículos; e entre engenharia de materiais e metalúrgica, e produtos metalúrgicos.

Também colaborador nesse projeto temático, o professor da Escola Politécnica da USP Renato Garcia – ex-aluno do Instituto de Economia (IE) da Unicamp – comenta que a investigação também indicou que, no Brasil, existe um caso curioso relacionado às áreas de engenharia de minas e engenharia metalúrgica com as indústrias de metais básicos e produtos metalúrgicos.

“Observou-se uma ampla capacitação tecnológica nesses setores ligada à formação de geólogos e engenheiros de minas, e à criação de departamentos de engenharia mecânica, de engenharia metalúrgica e de engenharia de minas. Exemplo típico é a Escola de Minas de Ouro Preto”, lembra Renato.

Essa instituição, criada no século 19, quando a indústria siderúrgica ainda era bastante primitiva, ganhou um grande impulso no século 20, passando a ser exploradas as primeiras jazidas de minério de ferro descobertas por geólogos formados no século 19.

As primeiras empresas criadas no Brasil para explorar jazidas de ferro estabeleceram-se aqui em princípios do século 20. Depois, o próprio Estado tomou a iniciativa de formar a Companhia Siderúrgica Nacional, a maior empresa siderúrgica do Brasil e da América Latina, e uma das mais renomadas do mundo.

Nesse processo, em que a industrialização e a formação de capacitação científica foram mais ou menos simultâneas, a entrada em cena do Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) foi um marco para a indústria siderúrgica brasileira.

Esse departamento passou a cooperar formando pesquisadores para as empresas e fazendo projetos conjuntos de desenvolvimento tecnológico. “Este fato foi capaz de gerar várias inovações”, conta Suzigan. E esse é um setor exemplar que sugere como a interação é produtiva não só para o desenvolvimento tecnológico e industrial, mas também para a capacitação científica dos pesquisadores acadêmicos. Esse departamento manteve a nota máxima da Capes durante o tempo em que ocorreu o processo de interação entre as duas partes.”

“Em todos os produtos nos quais o Brasil apresenta vantagens competitivas no cenário internacional”, avalia Suzigan, “é possível identificar um longo processo histórico de aprendizagem e acumulação de conhecimentos científicos e competência tecnológica envolvendo importantes articulações entre esforço produtivo, governo e instituições de ensino e pesquisa.”

Outra coisa: a área de Agronomia também se apresentou mais destacada em sua interação com institutos de pesquisa, produtores agrícolas, empresas produtoras de sementes e formação de pesquisadores com expertise para selecionar sementes.

 Os institutos de pesquisa e as universidades que se destacaram nessa linha foram o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), a Esalq da USP e a Universidade Federal de Viçosa, isso antes mesmo do surgimento da Embrapa, na década de 1970, que já encontrou um conhecimento científico encorpado e uma desenvolvida produção brasileira de soja e derivados.

Por outro lado, o professor Renato realça que, enquanto nos EUA a universidade interage basicamente com setores de alta tecnologia, como a indústria farmacêutica, a de eletrônica e de equipamentos de computação, no Brasil os setores que mais se relacionam são os de média-baixa e baixa tecnologia como papel, celulose, produtos metalúrgicos, produtos siderúrgicos, alimentos, têxtil. Isso ilustra então o fato de o Brasil ter características diferenciadas.

Não significa, porém, na análise de Suzigan, que não haja empresas de alta tecnologia no país que também recorram às universidades e aos institutos de pesquisa para adquirir conhecimento, para cooperar, entretanto ainda se trata de um conjunto pouco expressivo que não aparece nos resultados.

Ademais, no caso brasileiro, a interação da universidade com as empresas está mais associada a ações de adaptação, melhoramento, mudanças incrementais, produtos e processos nas empresas do que a inovações radicais.

Renato afirma que essas constatações, por outro lado, não devem dar margem para entender como fraca a relação universidade-empresa no Brasil, a despeito das empresas investirem pouco em P&D. “É, antes, diferente”, reforça. Ao invés de estar associada a inovações de ruptura e à quebra de paradigmas, a nação não põe ênfase em novos produtos ou novos processos para o mercado mundial, mas sim adaptação e melhoramento. 

Outra revelação no estudo resultou de uma pergunta feita aos grupos cujo entrevistado em geral era líder de pesquisa. “Indagamos quais foram os resultados desta interação para o seu grupo”, pontua Suzigan. A resposta foi que produtos tipicamente acadêmicos – como teses, dissertações, publicações e formação de RH nas unidades acadêmicas imbricadas na cooperação – apareceram como principais frutos dessa interação.
Esse achado, salienta ele, desmistifica uma ideia preconcebida contra esse tipo de interação com o setor produtivo, segundo a qual a interação pode prejudicar a atividade científica.

Em sua opinião, o projeto temático sugeriu inclusive que os departamentos com maior envolvimento nessas interações ampliaram a sua pauta de pesquisa, incrementaram a formação de pesquisadores e as publicações, abrindo novos campos de interesse para responder às demandas surgidas nas empresas.

De acordo com Renato, essa pesquisa revelou igualmente a relevância do contexto histórico. Isso porque no debate brasileiro sempre se relativizou o valor da universidade para a formação de capacitações científicas e tecnológicas da indústria.

Frutos

O conteúdo desse “inquérito” acaba de dar à luz um livro – Em Busca da Inovação: Interação Universidade-Empresa no Brasil – de 463 páginas, que é uma tentativa de mapear o conhecimento científico disponível no país a partir de questionários aplicados.

O passo seguinte foi conjugar as respostas dos pesquisadores acadêmicos e das empresas para avaliar canais de relacionamento, diferenças setoriais, padrões regionais, etc. Isso foi feito em artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais e num livro internacional em fase de preparo envolvendo a rede de pesquisadores criada no projeto. “Essa rede é bastante atuante e soma cerca de 50 pesquisadores de universidades de todas as regiões do país”, comemora Suzigan.

Além disso, o projeto colaborou para a formação de jovens pesquisadores, tanto que foram defendidos, ou estão em andamento, mais de 70 trabalhos acadêmicos incluindo teses, dissertações e projetos de iniciação científica.

Na Unicamp, juntamente com o Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do IG, o projeto reuniu estudantes do Instituto de Economia (IE), que participaram como pesquisadores juniores. O projeto abrangeu ainda, no Estado de São Paulo, instituições de ensino superior como a USP e a UFSCar, que receberam financiamento da Fapesp e do CNPq.

Suzigan acredita que essa pesquisa produziu conhecimentos sistematizados que serão bastante úteis à formulação de políticas públicas na área de C&T, sobretudo porque indicam as áreas do conhecimento científico mais demandadas pelas empresas. Dentre todas as áreas, as engenharias se mostraram as mais importantes. “E são elas justamente o ponto fraco do Brasil no momento atual”, constata ele.

Publicação

Projeto temático: “Interação de universidades e institutos de pesquisa com empresas no Brasil”
Coordenador: Wilson Suzigan
Financiamento: Fapesp e CNPq