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Projeto mapeia interação de instituições de pesquisa com empresas no país

Publicado em 02 outubro 2012

As interações de pesquisadores das universidades e dos institutos de pesquisa, ou da ciência com os profissionais de P&D do setor industrial, não acontecem da noite para o dia no Brasil. Elas requerem persistência, a exemplo de outros relacionamentos. Foi o que apontou pesquisa de fôlego resultante do projeto temático da Fapesp “Interação de universidades e institutos de pesquisa com empresas no Brasil”, que chegou ao fim após quatro anos de investigação. O projeto foi coordenado pelo professor colaborador do Instituto de Geociências (IG) e economista Wilson Suzigan.

Esse projeto teve âmbito nacional, embora desde o início estivesse vinculado a um projeto de cunho internacional encabeçado pelo IDRC (International Development Research Center) do Canadá, que se propôs a financiar vários projetos sobre o processo de catching up tecnológico dos países em desenvolvimento, buscando um emparelhamento com as tecnologias mais avançadas na ordem internacional em vários setores e em várias indústrias.
 
A pesquisa foi desenvolvida no período de 2008 a 2012, do tipo Survey, uma metodologia quantitativa em geral feita por meio da aplicação de questionários. Nela, procurou-se fazer um amplo levantamento, ao qual responderam 1.005 pesquisadores de universidades que figuravam na base de dados do CNPq e 326 profissionais de P&D das empresas. 
O projeto, conforme Suzigan, confirmou a percepção de que a conexão entre a C&T é um fator-chave para o desenvolvimento tecnológico e para o processo de catching up de setores econômicos e do país como um todo, além de implicar o desenvolvimento simultâneo da capacitação na área acadêmica e da capacidade de absorção de novos conhecimentos pelas empresas.
 
Mas o padrão de interação que há no país hoje (entre a área científica e a área tecnológica das empresas) ainda é relativamente pobre, apesar de não ser um desastre. “Notou-se um histórico que é uma espécie de processo coevolutivo, tanto da instituição de pesquisa acadêmica quanto da empresa, no aprendizado de como estabelecer relações entre a ciência e a tecnologia e como desenvolvê-las”, assinala o coordenador da pesquisa.
 
Minas
Ele relata que os questionários sinalizaram fortes evidências de processos interativos entre agronomia e produção agropecuária, florestal e de alimentos; entre a área acadêmica de química e produtos de petróleo; entre engenharia elétrica e fabricação de equipamentos elétricos; entre engenharia mecânica e produção de veículos; e entre engenharia de materiais e metalúrgica, e produtos metalúrgicos.
 
Também colaborador nesse projeto temático, o professor da Escola Politécnica da USP Renato Garcia – ex-aluno do Instituto de Economia (IE) da Unicamp – comenta que a investigação também indicou que, no Brasil, existe um caso curioso relacionado às áreas de engenharia de minas e engenharia metalúrgica com as indústrias de metais básicos e produtos metalúrgicos.
 
“Observou-se uma ampla capacitação tecnológica nesses setores ligada à formação de geólogos e engenheiros de minas, e à criação de departamentos de engenharia mecânica, de engenharia metalúrgica e de engenharia de minas. Exemplo típico é a Escola de Minas de Ouro Preto”, lembra Renato.
 
Essa instituição, criada no século 19, quando a indústria siderúrgica ainda era bastante primitiva, ganhou um grande impulso no século 20, passando a ser exploradas as primeiras jazidas de minério de ferro descobertas por geólogos formados no século 19.
 
As primeiras empresas criadas no Brasil para explorar jazidas de ferro estabeleceram-se aqui em princípios do século 20. Depois, o próprio Estado tomou a iniciativa de formar a Companhia Siderúrgica Nacional, a maior empresa siderúrgica do Brasil e da América Latina, e uma das mais renomadas do mundo.
 
Nesse processo, em que a industrialização e a formação de capacitação científica foram mais ou menos simultâneas, a entrada em cena do Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) foi um marco para a indústria siderúrgica brasileira.
 
Esse departamento passou a cooperar formando pesquisadores para as empresas e fazendo projetos conjuntos de desenvolvimento tecnológico. “Este fato foi capaz de gerar várias inovações”, conta Suzigan. “E esse é um setor exemplar que sugere como a interação é produtiva não só para o desenvolvimento tecnológico e industrial, mas também para a capacitação científica dos pesquisadores acadêmicos. Esse departamento manteve a nota máxima da Capes durante o tempo em que ocorreu o processo de interação entre as duas partes.”
 
“Em todos os produtos nos quais o Brasil apresenta vantagens competitivas no cenário internacional”, avalia Suzigan, “é possível identificar um longo processo histórico de aprendizagem e acumulação de conhecimentos científicos e competência tecnológica envolvendo importantes articulações entre esforço produtivo, governo e instituições de ensino e pesquisa.”
 
O professor Renato realça que, enquanto nos EUA a universidade interage basicamente com setores de alta tecnologia, como a indústria farmacêutica, a de eletrônica e de equipamentos de computação, no Brasil os setores que mais se relacionam são os de média-baixa e baixa tecnologia como papel, celulose, produtos metalúrgicos, produtos siderúrgicos, alimentos, têxtil. Isso ilustra então o fato de o Brasil ter características diferenciadas.
 
Não significa, porém, na análise de Suzigan, que não haja empresas de alta tecnologia no país que também recorram às universidades e aos institutos de pesquisa para adquirir conhecimento, para cooperar, entretanto ainda se trata de um conjunto pouco expressivo que não aparece nos resultados.
 
Ademais, no caso brasileiro, a interação da universidade com as empresas está mais associada a ações de adaptação, melhoramento, mudanças incrementais, produtos e processos nas empresas do que a inovações radicais.
 
Renato afirma que essas constatações, por outro lado, não devem dar margem para entender como fraca a relação universidade-empresa no Brasil, a despeito das empresas investirem pouco em P&D. “É, antes, diferente”, reforça. Ao invés de estar associada a inovações de ruptura e à quebra de paradigmas, a nação não põe ênfase em novos produtos ou novos processos para o mercado mundial, mas sim adaptação e melhoramento. 
 
Outra revelação no estudo resultou de uma pergunta feita aos grupos cujo entrevistado em geral era líder de pesquisa. “Indagamos quais foram os resultados desta interação para o seu grupo”, pontua Suzigan. A resposta foi que produtos tipicamente acadêmicos – como teses, dissertações, publicações e formação de RH nas unidades acadêmicas imbricadas na cooperação – apareceram como principais frutos dessa interação. 
 
Esse achado, salienta ele, desmistifica uma ideia preconcebida contra esse tipo de interação com o setor produtivo, segundo a qual a interação pode prejudicar a atividade científica.
 
Em sua opinião, o projeto temático sugeriu inclusive que os departamentos com maior envolvimento nessas interações ampliaram a sua pauta de pesquisa, incrementaram a formação de pesquisadores e as publicações, abrindo novos campos de interesse para responder às demandas surgidas nas empresas.
 
De acordo com Renato, essa pesquisa revelou igualmente a relevância do contexto histórico. Isso porque no debate brasileiro sempre se relativizou o valor da universidade para a formação de capacitações científicas e tecnológicas da indústria.
 
O conteúdo desse “inquérito” acaba de dar à luz um livro – Em Busca da Inovação: Interação Universidade-Empresa no Brasil – de 463 páginas, que é uma tentativa de mapear o conhecimento científico disponível no país a partir de questionários aplicados.
Fonte: Jornal da Unicamp - 02/10/2012