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São Carlos Dia e Noite

Projeto internacional visa desenvolver fármacos inéditos

Publicado em 19 junho 2015

A fim de oferecer suporte aos grupos de pesquisa com foco no estudo de compostos naturais que podem atuar como agentes terapêuticos contra diversas doenças, incluindo Malária, Doença de Chagas, ou Leishmaniose, o National Institutes of Health (NIH), instituição norte-americana, criou o projeto International Cooperative Biodiversity Groups (ICBG), no qual se inclui o Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar*), alocado no Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP). Em síntese, o objetivo da iniciativa é encontrar compostos com potenciais aplicações terapêuticas, a partir de bactérias que são simbiontes das formigas, incentivando o uso de recursos sustentáveis e reunindo especialistas de vários países em torno do tema.

Entendendo melhor os objetivos

Nos formigueiros, existem jardins de fungos cultivados para o consumo de sua população - as formigas -, mas esses ninhos estão sempre sujeitos a inúmeras contaminações por outros microorganismos, sendo que existem patógenos - organismos causadores de doenças - que podem atacar esses fungos. Com isso, há mais de 50 milhões de anos que as formigas se associaram às bactérias capazes de produzir anti-fungos - produtos naturais -, protegendo os formigueiros contra esses organismos. Esses produtos intrigaram os cientistas, nomeadamente os pesquisadores que atuam no IFSC/USP, que desde há algum tempo têm estudado os citados compostos.

No âmbito do ICBG, o IFSC/USP recebeu, recentemente, a visita do Prof. Jon Clardy, da Harvard University (USA) e da Dra. Flora Katz, diretora da Division International Training and Research, do NIH (USA), que participaram de diversas reuniões com docentes e pesquisadores membros do CIBFar, com o objetivo de consolidar a cooperação entre as três instituições.

Segundo a Profa. Dra. Mônica Tallarico Pupo, que é docente da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP/USP) e coordenadora do CIBFar, a parceria entre a Universidade e essas duas instituições internacionais irá se consolidar através do citado projeto. "Nós já tínhamos uma parceria informal com Jon Clardy e Flora Katz, mas, com o desenvolvimento deste projeto, essa colaboração deverá se consolidar de forma muito mais intensa e próxima", disse ela.

Por outro lado, segundo o Prof. Dr. Adriano Andricopulo**, docente do IFSC/USP e pesquisador do CIBFar, que acompanhou os visitantes durante todo o encontro, a inserção do Instituto nessa rede de cooperação é de suma importância, tendo em vista que a Unidade tem grande interesse por pesquisas que visam ao desenvolvimento de fármacos para o combate de doenças como a Doença de Chagas e Leishmaniose. "Através desse projeto financiado pela FAPESP*** e o NIH, pesquisaremos moléculas que tenham uma diversidade química inédita, para desenvolvermos possíveis novos candidatos a fármacos", afirmou ele, tendo acrescentado que os mais de mil substratos já encontrados serão analisados nos laboratórios do IFSC/USP, o que eleva muito o grau de responsabilidade.

A pesquisadora Flora Katz afirmou que esse projeto nasceu através do interesse em buscar novos caminhos para descobrir agentes terapêuticos, uma vez que há plena convicção de que existem milhares de moléculas capazes de solucionar doenças que ainda não têm cura. "Para que possamos tentar desenvolver fármacos efetivos, precisamos entender como funciona o sistema biológico desses microorganismos", explicou ela, que ressaltou a importância da cooperação entre as universidades e institutos de pesquisa, para possibilitar o melhor avanço das investigações referentes à área de saúde.

O Prof. Jon Clardy, que atua no Department of Biological Chemistry & Molecular Pharmacology, da Harvard University, ressaltou a importância dos estudos envolvendo as pequenas moléculas biologicamente ativas, que exibem notável diversidade. Além disso, Clardy disse que, através de estudos, já foi possível compreender alguns dos mecanismos genéticos dessas bactérias. O pesquisador norte-americano também destacou a importância da colaboração que existe entre especialistas de diversos países que, mesmo atuando em diferentes áreas, têm como objetivo desenvolver novos fármacos, bem como estudar os produtos naturais liberados pelas bactérias antifúngicas. "Com o desenvolvimento desse projeto, vamos cooperar com a área da saúde e tentar desenvolver possíveis fármacos, inclusive, para o tratamento de câncer", completou. Para ele, também é preciso reconhecer a importância da existência desses microorganismos, pois embora sejam responsáveis por muitas de nossas doenças, as bactérias também podem ter um duplo-papel, podendo combater muitas patologias cujas soluções ainda não foram descobertas.

*O CIBFar é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID's) apoiados pela FAPESP;

**Coordenador do Laboratório de Química Medicinal e Computacional do Centro de Biotecnologia Molecular Estrutural, Coordenador do Centro de Referência em Química Medicinal da Organização Mundial da Saúde para Doença de Chagas;

***Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.