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Gazeta do Povo

Projeto inédito avalia qualidade dos gramados

Publicado em 29 outubro 2012

Ao assistir a transmissões de partidas de futebol, não é raro ver jogadores, técnicos e narradores esportivos reclamando da qualidade dos gramados. “Uma vergonha esse campo”, “nosso toque de bola foi prejudicado” e “a bola estava quicando muito” são algumas das queixas constantes. Mas, afinal, quão vergonhosos, prejudiciais ao toque de bola e favorecedores do quique estão nossos gramados de futebol?

Fã do esporte, o professor Leandro Grava de Godoy, do departamento de Agronomia do campus de Registro da Universidade Estadual Paulista (Unesp), está desenvolvendo um projeto para aferir cientificamente a qualidade dos gramados de futebol no Brasil. Os estudos, em parceria com o professor Roberto Lyra Villas Boas, do campus de Botucatu da Unesp, serão financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Depois de uma fase inicial, a ideia é expandir a pesquisa para outros estados do Brasil.

Situação atual

Na análise preliminar do professor Leandro Grava de Godoy, do departamento de Agronomia da Unesp, a maioria dos campos de futebol do Brasil deixa a desejar. Para o professor, mes­­mo gramados que deveriam ser de elite, como os usados no Campeonato Brasileiro, apre­­sentam notórias deficiências. Entre os melhores campos, aponta o Pacaembu e a Vi­­la Belmiro, que passaram por re­­centes reformas. Godoy disse não acompanhar a situação dos gramados de estádios paranaenses.

Entre os fatores que contribuem para a baixa qualidade média, o professor aponta o direcionamento dos cuidados restrito à grama em si, com a negligência da base (que deve ser composta por uma mistura de areia, argila e fertilizante) e da sub-base do gramado. “A situação geral da grama é melhorzinha, mas a principal preocupação a ser tomada é com o sistema de drenagem da sub-base”, diz.

O professor ainda ressalta que, mesmo se todas as precauções forem tomadas, o gramado não resiste a um uso excessivo. “Há times que não têm Centro de Trei­­namento e utilizam o mesmo campo para treinos e jogos. Assim não há gramado que resista.”

Tabela

A intenção de Godoy é, ao final do projeto, apresentar uma tabela que avalie campos de acordo com a resposta a diferentes critérios: rolagem, quique de bola, resistência, dureza, infiltração de água e uniformidade, entre outros. A análise técnica é especialmente importante para um país que se prepara para abrigar a Copa do Mundo em 2014. “Queremos uma classificação rigorosa para chegar a determinações. Poder dizer que um gramado está adequado, que outro não apresenta condições ou que aquele tem de melhorar em tais fatores”, diz.

Paisagismo

A pesquisa foi incentivada pelo fato de faltarem estudos no Brasil relacionando grama ao jogo de futebol – a maioria das pesquisas da área está voltada ao paisagismo e à jardinagem.

Segundo o professor, os novos estudos devem atentar particularmente para o fato de que, com a demanda da Fifa de estádios mais confortáveis para atender o público, a tendência é que haja cobertura nas construções. A sombra projetada sobre o campo dificulta o crescimento das espécies de grama de verão, mas a grama de inverno não suporta o clima quente da maior parte do ano no país. Alguns estádios buscam, como solução, iluminação artificial específica para a grama.

Curitiba tem as piores condições para conservação

Para o engenheiro agrônomo Denis Renaux, Curitiba tem as mais difíceis condições do país para manter bons gramados de futebol pela altitude e pelo tempo frio. Renaux trabalha na Grasstecno, empresa que reformou e mantém os gramados dos estádios Couto Pereira e Vila Capanema.

A solução para não deixar a grama com aspecto amarronzado no inverno é fazer uma mistura de duas espécies, a bermuda e a rey-grass. “Com as geadas, o gramado sofre muito. Só com muito trabalho se consegue manter os campos”, diz. As atividades de manutenção de um gramado de futebol incluem corte, controle de pragas, adubação e descompactação da base.