Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Projeto Genoma deu início ao desafio

Publicado em 22 agosto 2010

Um dos principais desafios para a atual ciência médica é encontrar um tratamento eficaz para o câncer. Atualmente, a enfermidade é a segunda maior causadora de mortes no Brasil, ficando atrás, apenas, das doenças cardiovasculares. A tendência, aliás, é de que essas posições se invertam, porque as taxas de sobrevivência aos tumores cancerígenos não apresentaram significativa queda ao longo dos últimos 50 anos. Anualmente, 6 milhões de pessoas são vítimas fatais desse mal no mundo. Além das terapias tradicionais (cirurgias, quimioterapia e radioterapia), pesquisadores estudam novas e melhores formas para combater o câncer.

O santista José Fernando Perez é um dos soldados que estão na luta para encontrar uma solução ao problema e dar esperança a milhares de pacientes. Ao contrário do que sugere a sua tarefa, Perez não é médico, nem biólogo. Na verdade, o santista é formado em Engenharia Eletrônica e doutor em Física pela Escola Politécnica de Zurique (Suíça). Também atuou como professor do Departamento de Físico Matemática da Universidade de São Paulo (USP) e foi diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O Projeto Genoma foi lançado durante a sua gestão na agência de fomento. E alcançou um sucesso inconteste: os primeiros resultados obtidos ganharam o reconhecimento da comunidade científica internacional.

Atualmente, Perez preside a Recepta Biopharma, empresa de biotecnologia dedicada à pesquisa e ao desenvolvimento de anticorpos monoclonais a serem utilizados no tratamento do câncer. Essas moléculas reconhecem os antígenos específicos dos tumores chamado de alvo e estimula o organismo a produzir defesas para conter o avanço das células tumorais. Assim, a metástase é evitada, assegurando o aumento da expectativa de vida dos pacientes. Normalmente, de 80% a 90% dos óbitos por câncer não são causados pelo tumor primário e sim pela metástase.

A empresa realiza estudos acadêmicos sobre o desenvolvimento de novos anticorpos monoclonais, bem como realiza ensaios pré-clínicos in vitro e em animais de laboratório. A Recepta possui ainda autorização para a execução de ensaios clínicos em pacientes para avaliar a eficácia de novas terapias. Hoje,realiza testesclínicos com 23 pacientes com câncer no ovário com prognóstico muito ruim. Foram mulheres que tiraram o ovário e passaram pela segunda quimioterapia, mas o tratamento não teve efeito. Elas receberam o anticorpo produzido pela empresa, o Rebmab 100, e estão sendo acompanhadas por profissionais de hospitais de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Até o final do ano, os primeiros resultados devem estar disponíveis. Em breve, um novo grupo será avaliado.

Entretanto, a característica dessas pacientes será diferente, pois responderam à segunda quimioterapia. "Estamos diante de um grande desafio e muito empenhados nisso. Temos competência técnica e científica para inovar e exportar tecnologia com grande valor agregado para beneficiar pacientes de todo o mundo",ressalta Perez. No total, estão envolvidos no projeto 32 pesquisadores e técnicos da Recepta, institutos Butantan e Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer e da Faculdade de Medicina da USP, além de profissionais de hospitais como Sírio-Libanês e do Instituto Nacional do Câncer (Inca). A equipe numerosa resulta em maior troca de informações e a transferência de conhecimento é constante. Devido à excelência do trabalho, a empresa de biotecnologia conseguiu obter financiamentos em programas dos ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia. "O câncer será um dos grandes problemas da balança comercial do Brasil. Por esse motivo, o investimento público em novas tecnologias vai se traduzir em medicamentos eficientes e tratamentos mais baratos contra a doença. Estamos diante de uma questão estratégica para o País",disse.

Parceria inédita

Em 2004, Perez foi à sede do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, em Nova York (Estados Unidos), para fazer uma visita de cortesia. A organização foi uma das financiadoras do Projeto Genoma. No encontro, surgiu a ideia de criar uma empresa de biotecnologia brasileira. O projeto precisava de alguém com experiência e credibilidade para desenvolver um bom projeto para obter financiamento. Depois de se desligar do cargo público, em agosto de 2004, o santista começou a tocar o novo desafio. "Estava ciente de que a biotecnologia voltada para a saúde humana assusta o investidor. Leva tempo para um produto chegar ao mercado e a incerteza do retorno é grande. Somente com o último teste clínico saberemos se tudo dará certo", explica.

Apesar disso, ele conseguiu o apoio de dois empresários importantes para constituir a nova empresa: o pecuarista Jovelino Carvalho Mineiro Filho e Emílio Alves Odebrecht, presidente do Conselho de Administração do Grupo OdebrechtS/A. O Instituto Ludwig já detinha a patente de quatro anticorpos monoclonais e cedeu os direitos de propriedade deles aos brasileiros,tornando-se sócio da Recepta Biopharma, criada em outubro de 2006. Foia sua primeira iniciativa do gênero em um país emergente. A empresa, no entanto, é controlada pelos sócios brasileiros, que detêm 64% do capital.

Entrevista

O ex-diretor científico da Fapesp e presidente da Recepta Biopharma, José Fernando Perez, afirma que o Brasil é um dos países do mundo que mais investem em pesquisas. No entanto, destaca que a competitividade para financiar bons projetos poderia ser maior, caso houvesse mais profissionais capacitados. Ele acredita que um dos reflexos da falta de especialização é o processo de desenvolvimento da economia brasileira adotado no passado. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Como o senhor vê o investimento em pesquisa hoje no Brasil? Está muito diferente do período quando começou na Fapesp, em 1993?

O Brasil tem um investimento significativo em pesquisa hoje. Está chegando ao oitavo lugar em publicações internacionais. Isso é uma coisa extraordinária. O Brasil ainda tem muito o que progredir, mas a pesquisa brasileira não padece de financiamento. Em São Paulo, não existe demanda de pesquisa que não esteja financiada. O investimento em pesquisas tecnológicas cresceu muito nos últimos anos. Em todo o Brasil, a pesquisa científica recebe apoio em diversos estados.

Atualmente, qual a principal dificuldade do pesquisador no Brasil?

Um dos problemas que enfrentamos é que a competitividade não é alta para financiar os projetos. Se fosse mais alta, isso poderia resultar em projetos de maior impacto. Os recursos são abundantes, mas entendo que a qualidade da demanda ainda tem um espaço muito grande para crescer. Muitos acham que os projetos são recusados por falta de dinheiro, o que não é verdade.

Isso é reflexo da falta de profissionais qualificados?

Sim. Temos um déficit de profissionais qualificados. Estamos formando mais de 11 mil doutores por ano, mas 50% atuam na área de ciências humanas. Falta gente para atuar na chamada Hard Science, como Física, Química e Biologia. Há uma carência de pessoal nestas áreas. Quase não temos engenheiro. Por exemplo, em Tecnologia da Informação há muitas vagas disponíveis.

E qual a origem dessa distorção?

Na minha opinião, isso é reflexo de um processo de desenvolvimento de economia do Brasil. No passado, tínhamos uma economia fechada, que não via a necessidade de competir. As empresas não pensavam em inovar para garantir lucro. Com a abertura da economia, elas perceberam que tinham que inovar, ter muita competência até para se manter no mercado interno. Nada é garantido hoje em dia.

O senhor é otimista em relação à mudança de pensamento?

Sou otimista nessa mudança que já começou. Não é algo que muda do dia para noite, mas já começou a haver uma mudança cultural desta necessidade. Nosso país tem uma consciência muito clara disso. Nós até podemos importar mão de obra como se fosse uma solução temporária para o problema, como ocorre nos Estados Unidos, mas precisamos pensar numa resposta a longo prazo.

Projeto Genoma deu início ao desafio

A Recepta Biopharma realizará até o fim do ano testes clínicos de fase 2 para pacientes que sofrem de câncer de mama. O projeto é uma parceria com o Ministério da Saúde e conta com o apoio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). José Fernando Perez, da Recepta Biopharma, afirma que, possivelmente, as mulheres tratadas em hospitais da Baixada Santista sejam acompanhadas, desde que tenham o antígeno que provoca a doença. "O número de testes está crescendo. Para nós, seria muito interessante fazer esse trabalho na região de Santos, devido à proximidade com São Paulo", destaca. Pesquisas apontam que o coeficiente de mortalidade por câncer de mama na Baixada Santista é maior do que a média do Estado e do Brasil. A alta incidência foi comprovada num trabalho da Universidade Católica de Santos (UniSantos) publicado em 2005eelaboradopelosmédicosAugustoZago, LuizAlberto Amador Pereira, Aylene Bosquate Alfésio Braga. Perez explica que, antes de realizar os testes, os hospitais devem informar quantos pacientes possuem determinado perfil, dispor de uma infraestrutura física e de recursos humanos qualificados e treinados para fazer os testes clínicos. Segundo ele, a Anvisa tem um documento de 150 páginas que explica detalhadamente os critérios para a pessoa participar da iniciativa, bem como os procedimentos aos quais será submetida. "Esse processo precisa ser muito bem controlado para evitar que as pessoas sejam transformadas em verdadeiras cobaias. O controle é necessário para que se tenha um trabalho adequado e um resultado confiável", assinala Perez.

Perez lamenta que não vem a Santos com a frequência que gostaria

Filho de Rosa La Scala Perez e do engenheiro civil José Demar Perez, José Fernando Perez viveu em Santos até 1963, quando ingressou em Engenharia Eletrônica na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). O pesquisador pertence às famílias de Luiz La Scala (avô), ex-provedor da Santa Casa de Santos, e do prefeito eleito em 1961, Luiz La Scala Júnior, que morreu num acidente antes de assumir o cargo. "Minha família fez história em Santos. Infelizmente, não volto com a frequência que gostaria para onde nasci, devido aos compromissos profissionais. Me instalei em São Paulo e com o tempo meus laços de amizade foram se diluindo". Ex-aluno do antigo Colégio Santista, Perez afirma que ficou muito "frustrado" ao receber a notícia, por intermédio de um primo, de que a escola iria fechar as portas. "Tenho muito orgulho da educação que recebi na época. Tive uma formação completa, de excelência. Era o melhor colégio de Santos, ao lado do Canadá. Ingressei na Poli assim que terminei o colegial".

FUTEBOL

Uma das paixões do presidente da Recepta Biopharma é o Santos Futebol Clube. Perez brinca ao dizer que é "uma obrigação" os familiares torcerem para o Peixe. Os dois filhos e os dois netos seguiram a tradição. Sempre que possível, deixa de lado os compromissos para assistir aos jogos do clube na Vila Belmiro. O último que acompanhou foi Santos 2 x 1 Corinthians, partida válida pelo Campeonato Paulista deste ano. Principal fruto do trabalho de Perez na Fapesp foi o Projeto Genoma, em 1997. Três anos mais tarde, veio o reconhecimento desse grande programa nacional