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Projeto Genoma da Fapesp aponta papel essencial e insubstituível do Estado no desenvolvimento científico

Publicado em 25 janeiro 2000

A conclusão do I Projeto Genoma, organizado pela Fapesp para determinar o código genético da bactéria Xylella fastidiosa, alcançou grande repercussão no país e no exterior, como um marco na pesquisa brasileira. "Seja pelo ângulo da ciência básica, da política científica ou da economia, há muitas razões para saudar o feito", assinalou a Folha de SP em editorial (19/2). Fernando J. O. Moreira, pesquisador do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE/CTA), salientou, por sua vez, que este projeto "tem o grande mérito de demonstrar aos dirigentes e legisladores do país a capacidade da comunidade científica brasileira". Para o presidente da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, no artigo "Boa ciência no Brasil" (Folha de SP. 22/2), o fato "demonstra a capacitação científica desenvolvida em SP e sinaliza o domínio de tecnologias essenciais ao desenvolvimento econômico e social, num setor da economia que responde por milhares de empregos e por fatura-mento anual superior a US$ 4 bilhões para este Estado. A bactéria causa a praga do 'amarelinho', que danifica laranjais inteiros. A determinação do genoma da Xylella disponibiliza conhecimentos que poderão ser usados para a identificação de mecanismos de controle da praga." Recursos - Brito assinala também que a realização "mostra que a ciência brasileira tem se desenvolvido ao longo dos últimos 50 anos devido ao apoio do Estado e que "é papel essencial e inalienável do Estado apoiar o desenvolvimento científico e criar as condições para que haja desenvolvimento tecnológico, este realizado por empresas". Mas o apoio do Estado à C&T no Brasil - ressalta ele - "tem sido marcado por defeitos e erros, alguns inexplicáveis racionalmente. Os recursos hoje destinados ao setor. especialmente pelo governo federal, são insuficientes para garantir o desenvolvimento e a competitividade que levem a C&T no Brasil a contribuir mais decisivamente para o desenvolvimento econômico e social." Para Brito, "duas são as razões fundamentais por que ciência no Brasil deve ser ainda mais apoiada pelo Estado: porque há pesquisadores excelentes e porque mais ciência será bom para o desenvolvimento do país". Ele frisa: "O Projeto Genoma em SP é resultado do apoio estatal à C&T. Mesmo que tenha sido estabelecido peia Fapesp, agência estadual, só foi possível fazê-lo porque durante décadas houve apoio do governo federal, principalmente na forma de bolsas de estudo na pós-graduação, para a formação dos cientistas que hoje lideram o dia-a-dia do projeto. Sua maioria esmagadora formou-se e trabalha hoje em Universidades públicas, estaduais ou federais, e eles são auxiliados por um exército de pós-graduandos, muitos deles bolsistas de agências federais." Brito nota ainda: "A Fapesp soube reconhecer que havia capacidade instalada e encontrou um problema cientificamente avançado e desafiador, que facilmente envolveu a comunidade científica. Houve no setor empresarial inusitado interesse e atividades compatíveis com o projeto. A escolha do organismo a ser estudado, a Xylella, resultou de proposta bem fundamentada, apresentada à Fapesp por pesquisadores do exemplar centro de P&D do Fundecitrus." Diz ele também que o sucesso do Projeto Genoma Fapesp destaca que há "boa ciência feita por uma comunidade científica bem qualificada e aguerrida que aprendeu a vencer dificuldades materiais e institucionais com muito trabalho, imaginação e competência". Sua conclusão: "O resultado destaca o papel essencial e insubstituível do Estado no desenvolvimento científico. Mas somente com o envolvimento empresarial como elemento determinante no desenvolvimento tecnológico haverá qualquer chance de competitividade para o Brasil. Aliás, tecnologia para a competitividade não se compra, se faz, ao contrário do que pensam nossos planejadores econômicos. É bom lembrar o dizer de lorde Rutherford, citado no documento "Ciência e Pesquisa", que foi, em 1947, a base conceitual para a criação da Fapesp: 'A ciência está destinada a desempenhar um papel cada vez mais preponderante na produção industrial. E as nações que deixarem de entender essa lição hão inevitavelmente de ser relegadas à posição de nações escravas: cortadoras de lenha e carregadoras de água para os povos mais esclarecidos.' Qual delas queremos ser?" Uma Fapesp em cada estado - O reitor da Universidade de Mogi das Cruzes, SP, Isaac Roitman, vibrando com "a festa da ciência", como ele chamou a homenagem do Governo de SP aos 192 cientistas do Projeto Genoma/Fapesp, escreveu para o JC: "Vamos sair da nossa redoma e também lutar para que possamos ter uma Fapesp em cada' estado brasileiro. Assim poderemos ter mais festas da ciência e que esta festa seja transformada em uma festa de felicidade para todo o povo brasileiro."