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Projeto Genoma Câncer terá mais verbas: Covas anuncia amanha mais 60% para as pesquisas e inicio da fase clinica

Publicado em 20 julho 2000

Por Simone Biehler Mateos escreve para "O Estado de SP":
O projeto Genoma Câncer brasileiro, que busca identificar os genes expressos nos tipos de câncer mais comuns no país, será ampliado ainda este ano. Com um aumento de 60% no orçamento, o projeto deverá seqüenciar duas vezes mais fragmentos de genes do que o inicialmente previsto, em prazo menor. Também haverá' maior rapidez na definição da função desses genes. A ampliação prevê investimentos na área de bioinformática e a criação de dois bancos de clones (que fornecerão copias das seqüências identificadas no Brasil, permitindo que um número maior de cientistas possa pesquisar suas funções). Está previsto ainda o inicio do projeto Genoma Clínico, cuja meta é relacionar as seqüências genéticas com as diferentes evoluções da doença. "Essa linha de pesquisas ampliará enormemente as possibilidades de diagnosticar precocemente a doença", explica Sérgio Verjovsky Almeida, medico e coordenador de seqüenciamento do Projeto Genoma Câncer. "Também aumentam as chances de prever sua evolução, o que permitira' escolher terapias mais adequadas e eficientes, a partir da analise molecular do câncer." Comparando genes de tecidos saudáveis com outros de tecidos tumorosos, os cientistas buscam identificar os marcadores, as mutações genéticas responsáveis pela doença. Depois, por meio de mais comparações entre os genes de tecidos em diferentes estágios da doença, pretendem identificar quais são as primeiras mutações, que desencadeiam as outras. Espera-se que isso permita prever o desenvolvimento de um câncer, até mesmo em alguns tecidos que aparentam normalidade numa biopsia. "Isso é essencial porque o diagnostico precoce representa quase tudo no tratamento do câncer", diz Almeida. A técnica também abre a possibilidade de identificar quais tumores que, embora em fase inicial, merecem tratamento agressivo, por apresentarem perfil molecular característico dos casos em que há recidiva. O anuncio da ampliação deve ser feito oficialmente pelo governador Mário Covas amanha, em solenidade na qual apresentará um balanço da contribuição do projeto às pesquisas mundiais sobre os genes humanos. Iniciado há menos de dois anos, com orçamento inicial de US$ 8 milhões, o Projeto Genoma Câncer nacional já pôs o Brasil no segundo lugar no ranking dos paises que mais descreveram seqüências genéticas expressas em cânceres. Ficou atrás apenas do Nacional Câncer Institute (NCI), que desenvolve pesquisa homologa nos EUA. Financiado em partes iguais pela Fapesp e o Instituto Ludwig de SP, o projeto Genoma Câncer brasileiro articulou 31 laboratórios do Estado num trabalho cooperativo coordenado por Andrew Simpson, do Ludwig. O esforço já resultou em 250 mil seqüências de genes depositadas no Gene Bank, o banco de dados publico do Projeto Genoma Humano internacional. O número representa um sexto do total de seqüências de genes expressos em cânceres já depositadas nessa base de dados por cientistas do mundo inteiro. Outras 250 mil seqüências que já estão prontas devem ser depositadas nos próximos meses. Os cientistas esperam chegar a 1 milhão de seqüências produzidas até o fim do ano. "A maior contribuição brasileira está relacionada aos cânceres de cabeça e pescoço, mama e cólon (intestino), mas há também seqüências de câncer de estômago, pulmão e próstata", destaca Juçara de Carvalho, gerente do projeto. Alem do numero, a contribuição brasileira á qualitativamente importante. Em primeiro lugar porque o Genoma Câncer seqüência apenas genes expressos em determinados tecidos. Isso significa que identifica apenas as bases nitrogenadas ("letras" da nossa receita genética) envolvidas na síntese das proteínas constitutivas daquele tecido. Essa característica e' essencial para identificar onde estão os genes na imensa massa de 3 bilhões de bases que constituem o DNA. A tarefa não é fácil: estima-se que apenas entre 3% e 5% de nosso DNA seja constituído por genes. O restante do material, embaralhado com os genes, seria lixo evolutivo ou cumpriria funções secundarias. Outro aspecto importante da contribuição brasileira é que a informação produzida aqui é complementar à que já existe no Gene Bank, graças a uma estratégia de seqüenciamento genético nova, desenvolvida no Instituto Ludwig de SP e identificada como estratégia Orestes. Enquanto o seqüenciamento genético realizado no resto do mundo privilegia as laterais dos genes, a estratégia Orestes seqüência prioritariamente a parte central dos genes, onde concentra-se a informação relevante para a síntese de proteínas. Isso quer dizer que os cientistas brasileiros estão pincando exatamente os fragmentos de genes que faltam no quebra-cabeças do DNA humano. Esses dois aspectos qualitativos da pesquisa permitiram que os cientistas brasileiros identificassem 100 genes novos no cromossomo 22, onde o Projeto Genoma Humano tinha encontrado cerca de 500. (O Estado de SP, 20/7)