Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

Projeto estuda interação com o uso de conteúdo educacional

Publicado em 29 setembro 2008

Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) estão trabalhando em um projeto de interatividade, por meio da TV Digital, voltado para a educação. Segundo o professor Sérgio Amaral, coordenador do Laboratório de Novas Tecnologias Aplicadas na Educação (Lantec), da Faculdade de Educação da Unicamp, onde o programa está sendo desenvolvido, o aparelho conversor de TV Digital permite a interatividade e é bem mais barato que um computador, custa em torno de R$ 200.

“Queremos aproveitar o fato que o setup box, o conversor, é mais barato que um computador e usar isso para difundir conteúdo educativo. Vamos usar o sinal aberto da televisão digital para promover educação”, diz o coordenador. Ele lembra que, hoje, a TV digital apenas retransmite conteúdo e não há interação. “Mas praticamente tudo que eu faço na internet pelo computador pode ser feito pelo conversor digital. Dados na forma de vídeo, áudio, gráfico e texto podem ser acessados pela TV digital, baixados, armazenados e vistos mais tarde”, alega. Acrescenta que o sistema pode permitir inclusão digital para as famílias de menor renda, já que 90% das casas brasileiras têm televisão.

Os pesquisadores trabalham para desenvolver métodos para serem usados em sala de aula. A idéia é desenvolver conteúdo educacional para estimular a educação à distância e a inclusão digital. O aluno poderá participar de aulas de sua casa, pela televisão, acessar links distribuídos pelo professor para aprofundar um tema e responder perguntas para testar seus conhecimentos.

Hoje isso é possível usando computadores e internet. O projeto permitirá que a conexão na rede seja estabelecida usando apenas o conversor digital, similar aos das companhias de TV por assinatura, e um aparelho de televisão comum. Amaral explica que o conteúdo produzido para televisão digital deve ser pensado não somente como transmissão de áudio e vídeo. “Precisamos aprender a utilizar a linguagem digital, testar todas as possibilidades de interação que não eram possíveis na televisão analógica. O conteúdo da televisão digital é como se fosse uma página de internet que pode ser acessada por qualquer um”, explica.

Uma das linhas de pesquisa do Lantec é o desenvolvimento de softwares que permitirão a interatividade entre o programa de televisão e o expectador, chamado de interface. “A idéia é disponibilizar os softwares na web. Quando um professor quiser produzir um vídeo educativo, ele pode baixar um aplicativo, gratuitamente, e inserir na sua produção. Essa é a originalidade do nosso projeto. Em outros países, os programas para televisão digital são pagos”.

Amaral cita como exemplo um programa televisivo para ensinar o cálculo da área do quadrado. O educador grava uma explicação e depois acessa a web para baixar um aplicativo específico voltado para o tema e que permite explorar possibilidades de interação. Durante o programa, o expectador pode interagir com o controle da televisão. O software reserva um espaço na tela onde ele digita os números que quiser calcular. “É só assistir e participar. Depois da aula, o professor pode passar a lição de casa. Não há preocupação com audiência, somente com o aspecto pedagógico”, acrescenta.

Recurso exige um bom design pedagógico

Aproveitar melhor as possibilidades de interatividade que a televisão digital proporciona exige um bom design pedagógico, o modo de uso dos recursos tecnológicos voltados para o ensino através da televisão. O professor precisa elaborar um roteiro de procedimentos, o design document, no qual define questões como onde colocar o link de interatividade na tela da televisão e quando deve ser acessado pelo expectador, antes ou depois de determinada cena.

“A principal dificuldade é traduzir em linguagem de programação o que pensamos em conteúdo educativo”, explica a pesquisadora do Lantec Mônica Garbin, formada em educação. Para ajudar na tarefa, o laboratório conta com alunos de mestrado do Instituto de Computação. São eles quem vão criar, entre outros recursos, os menus de navegação dos programas voltados para televisão digital. “Quando o mercado de televisão digital estiver consolidado no Brasil, já saberemos como produzir o conteúdo”, diz Amaral, embora não arrisque quando isso irá ocorrer. (RP/AAN)

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O padrão de produção de conteúdo digital precisa ser compatível com outros modelos ao redor do mundo. No Brasil, o padrão de televisão digital é o japonês, batizado no País de Ginga J. A letra se refere à linguagem de programação java. Segundo professor Sérgio Amaral, a conversão para outros padrões não é tarefa difícil. Um software faz a mudança do formato final quando necessário, durante a produção do programa educativo. Amaral compara citando o editor de texto Word, que roda em diferentes plataformas, Windows ou Macintosh. O programa educativo é como o editor, pode ser transmitido no Japão, que tem um padrão de TV digital, ou no Estados Unidos, que tem outro, desde que seja adaptado.

Curso capacita professor para utilizar a tecnologia

Lantec produzirá conteúdo educativo para o sistema e ensinará docentes a desenvolvê-lo

O Laboratório de Novas Tecnologias Aplicadas na Educação (Lantec), da Faculdade de Educação da Unicamp, vai oferecer um curso de capacitação de professores voltado para linguagens digitais. “O Lantec vai produzir conteúdo educativo para televisão digital e ensinar a produzir”, diz o coordenador, professor Sérgio Amaral. Segundo ele, os programas de computador para televisão digital ainda precisam ser desenvolvidos conforme o tema da aula, mas a intenção é capacitar os professores para que eles mesmos produzam conteúdo com ajuda dos aplicativos que estarão disponíveis na web.

O curso de especialização terá 50 vagas e será gratuito, para professores do ensino médio e fundamental. “O programa de especialização representará um momento para promover debates e uma reflexão crítica de ambientes educacionais baseados nas novas tecnologias da informação e comunicação”, explica. Com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o laboratório para o curso conta com equipamentos que somam cerca de US$ 350 mil, como câmeras de vídeo de alta resolução.

Informações sobre quais são os documentos exigidos e para onde podem ser enviados estão disponíveis na página http://lantec.fae.unicamp.br/mestrado. A seleção será feita por meio de análise dos documentos enviados e de entrevistas. A lista de aprovados será divulgada no dia 13 de outubro e as aulas começam no dia 16.