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Projeto do Nepo lança luz sobre a pobreza 'invisível' de metrópoles

Publicado em 10 novembro 2008

Por Luiz Sugimoto

Ser pobre morando em bairro central é muito diferente que ser pobre morando na periferia: ambos contam com rede de água encanada, mas para o primeiro o fornecimento é ininterrupto, enquanto o segundo padece com vários dias de torneira seca; ambos têm um posto de saúde por perto, mas enquanto o primeiro recebe atendimento satisfatório, o segundo reclama da falta de médicos; se o primeiro está desempregado, conta com o apoio de uma rede social mais densa, ao passo que o segundo corre o risco de ficar largado à própria sorte.

Um sumário de dados, apresentando o retrato atualizado das dimensões sociodemográficas das regiões metropolitanas de Campinas e da Baixada Santista, é o mais recente produto disponibilizado pelo Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Unicamp para uso de planejadores regionais e da sociedade civil. Nele se sobressaem informações diferenciadas e pouco comuns em levantamentos desse tipo, e que apontam para a heterogeneidade da pobreza no tecido urbano regional.

“Julgamos insuficiente medir o estrato social considerando somente o quanto a pessoa tem no bolso. Estamos buscando formas de melhor qualificar a pobreza urbana e as condições de vida da população”, afirma o professor José Marcos Pinto da Cunha, que é pesquisador do Nepo e coordena o projeto temático Vulnerabilidade, da Fapesp, iniciado há quatro anos e que está terminando agora.

As novas formas de qualificação, segundo Cunha, baseiam-se no conceito de vulnerabilidade, que leva em conta a capacidade de uma pessoa ou família para responder a certos riscos enfrentados no dia-a-dia. Esses riscos decorrem da existência, ausência ou escassez de oportunidades socioeconômicas, tais como infra-estrutura e densidade domiciliar, qualidade da habitação, situação de posse do domicílio, nível de escolaridade, acesso a serviços, acesso ao mercado de trabalho formal etc.

José Marcos Cunha informa que o sumário é fruto da última parte do projeto Fapesp, referente a pesquisa domiciliar realizada no segundo semestre de 2007. “Apenas começamos a interpretar as informações, mas optamos por divulgá-las, ao invés de guardá-las. O sumário, apesar de descritivo, representa um primeiro olhar da nossa equipe sobre os dados e um meio rápido de compartilhá-los com a comunidade. Já apresentamos o trabalho na Baixada Santista e ele despertou grande interesse”.

As informações foram levantadas em 1.680 domicílios da Região Metropolitana de Campinas (RMC) e em 1.600 da Baixada Santista (RMBS), sendo divididas em oito módulos: características do domicílio e seu entorno; características sociodemográficas gerais; trabalho e rendimentos; mobilidade espacial; família e comunidade; ambiente, riscos e perigos; condições e acesso a serviços de saúde; e sistema educacional e o contexto familiar.

Por meio de análises estatísticas, os pesquisadores do Nepo determinaram quatro zonas de vulnerabilidade (ZV), onde as pessoas domiciliadas estão mais ou menos vulneráveis. No caso da RMC, as ZV 1 e 2 são as mais periféricas e mais empobrecidas, e as ZV 3 e 4 representam um anel intermediário e central.

Domicílios

O módulo sobre domicílios traz informações inovadoras, pois leva em conta também o entorno da moradia. Mais do que saber se a casa é de alvenaria e possui água, luz e esgoto, a pesquisa inclui aspectos como revestimento nas paredes e cobertura com telhas, documentação de posse, regularização do bairro, autoconstrução e formas de aquisição. E, sobre o entorno, questiona quanto a características urbanísticas, serviços de saneamento, equipamentos públicos e outros serviços como pronto-socorro, posto policial, padaria, farmácia, escola pública, creche e ônibus.

“Hoje, nas áreas metropolitanas, os serviços estão praticamente universalizados. Se a grande maioria tem casas de alvenaria, água, luz e esgoto, a impressão é de que estamos todos iguais. Procuramos criar um conjunto de informações que ofereça o retrato real de onde as pessoas vivem. Vemos que, tanto em Campinas como na Baixada, apenas 28% dos moradores da Zona 1 possuem escritura definitiva de suas casas; os demais residem em casas de tijolos com os serviços básicos, mas sem a posse legalizada”, explica José Marcos da Cunha.

Famílias

O módulo referente às características sociodemográficas traz inicialmente os dados gerais sobre a população urbana – sexo, grupos etários, cor, religião e estado civil. “Mas a pesquisa avança com informações diferenciadas, como as que apontam as mudanças que estão ocorrendo na família, não apenas quanto à forma de união (religiosa, civil ou consensual), mas também quanto à presença cada vez maior da mulher no papel de provedor da casa”.

A pesquisa mostra que 26% das mulheres na RMC e 32% na RMBS respondem por seus domicílios. Também chama a atenção o número de declarados sem religião: 7% na RMC e 10,8% na RMBS. Em relação à educação, nas duas regiões, mais de 70% da população entre 18 e 25 anos está fora da escola. Quanto ao desemprego, considerando a população economicamente ativa, os índices são de 11% na RMC e de 14,5% na RMBS – índices que sobem, respectivamente, para 17,4% e 16,6% na zona mais pobre.

Trabalho

O levantamento do Nepo inclui um módulo específico sobre trabalho e rendimentos, baseado na pesquisa de emprego e desemprego da Fundação Seade, segundo o coordenador. “O principal ativo para reduzir a vulnerabilidade das pessoas é o trabalho. Na população economicamente ativa (PEA) incluem-se as pessoas que trabalham ou estão procurando emprego. Entretanto, nós também captamos o ‘desemprego oculto’ – daquelas que desistiram de procurar uma colocação ou que trabalham em condições precárias”.

Neste módulo, o questionário visou traçar as características do mercado de trabalho nas duas regiões metropolitanas; a distribuição dos ocupados nos setores de atividade; as características da PEA ocupada (assalariado, autônomo, doméstico etc.) segundo sexo, horas trabalhadas, rendimentos, carteira assinada e benefícios; e taxas de participação por sexo, idade, cor, nível de escolaridade e zonas de vulnerabilidade. Quanto ao desemprego, as maiores taxas estão na ZV1 e decrescem de forma ordenada nas zonas seguintes.

Mobilidade, diversidade, educação e acesso à saúde

O módulo mais extenso e detalhado do sumário de dados do Nepo trata da mobilidade espacial, que é de especial interesse para os demógrafos. Considerando toda a década de 1990, a migração respondeu por 61% do crescimento demográfico da Região Metropolitana de Campinas e por 40% da Região Metropolitana da Baixada Santista. “Temos informações sobre quando, como e por que as pessoas chegaram às duas regiões metropolitanas, bem como de suas condições de vida”, diz o professor José Marcos da Cunha.

No caso da RMC, conforme o levantamento, 40,9% dos residentes nasceram no próprio município, 5,4% na sede metropolitana, 4,5% em outra cidade da região, 23,5% em outra cidade do Estado e 25,7% fora do Estado de São Paulo. Uma constatação é que os naturais dos municípios paulistas estão mais presentes nas ZV2 e ZV3 (24% e 26%), ao passo que a participação dos migrantes de outros estados é muito maior nas áreas mais periféricas e vulneráveis (40% na ZV1).

O pesquisador do Nepo atenta que, além desses movimentos entre municípios, nota-se um dado novo sobre a ocupação do espaço metropolitano, que é a mobilidade intramunicipal. Quase 30% dos responsáveis pelos domicílios já realizaram duas mudanças dentro da cidade em que reside atualmente, e 26,6%, três mudanças ou mais. “Notamos que as pessoas de maior renda apresentam muito mais mobilidade”.

O módulo ainda aborda a mobilidade pendular (o movimento diário entre municípios para trabalho ou estudo); tempo de deslocamento para o trabalho; a migração pelo emprego e por outros motivos; o peso das redes e do capital social para amenizar os custos e riscos da migração; e os deslocamentos realizados para cultura, lazer e serviços.

Outro módulo retrata as famílias contemporâneas com informações sobre a diversidade das uniões conjugais e dos arranjos domésticos, a freqüência das uniões, e sobre sexo e cor dos responsáveis pelos domicílios. Mostra também as tendências endogâmicas, ou seja, a formação de casais onde ambos têm a mesma cor e nível de instrução.

Os dados permitem observações interessantes, como por exemplo, que os rendimentos em domicílios de responsabilidade masculina, na RMC, são 25% mais altos do que em domicílios encabeçados por mulheres. Contudo, como os homens possuem famílias maiores, sua renda per capita é menor. Domicílios que têm a mulher como responsável são mais freqüentes nas ZV3 e ZV4, as de melhores condições socioeconômicas.

No módulo da educação, José Marcos da Cunha afirma que uma preocupação central foi avaliar a relação da família com o processo educativo dos filhos. “Iniciativas dos pais como acompanhar as lições de casa, perguntar sobre o que aconteceu na escola e conversar com professores e diretores podem melhorar o desempenho dos alunos. Na região de Campinas, mais de 94% das mães informaram que estiveram na escola dos filhos nos últimos seis meses”.

Dados sobre as condições e o acesso aos serviços de saúde compõem outro módulo, onde foi possível detectar, por exemplo, que menos da metade da população das áreas mais pobres fez exame preventivo de câncer de próstata; já o índice de prevenção contra o câncer de mama está em torno de 75% das mulheres de 40 anos ou mais.

Um último módulo trata da percepção e atitudes da população a respeito dos problemas ambientais, como o aquecimento global, e também sobre a percepção de perigos como inundação, poluição, acidentes de carro e problemas sanitários.

 

Para acessar os sumários de dados  das regiões metropolitanas de Campinas e da Baixada Santista:

www.nepo.unicamp.br/vulnerabilidade