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Agência USP de Notícias

Projeto do IP ajuda autistas a retomarem relações sociais

Publicado em 22 agosto 2007

Por Fábio Brandt / USP Online

Crianças autistas conseguem manter relações sociais e recuperar seu desenvolvimento psicológico. Para isso, terapia psicológica individual não basta: atividades em grupo e interação com a sociedade são fundamentais. A conclusão da professora Jussara Falek Brauer, do Instituto de Psicologia (IP) da USP, fundamenta-se nos resultados do projeto Tecer — atividade do Laboratório de Estudos e Pesquisas Psicanalíticas dos Distúrbios Graves da Infância (Leppi).

O Tecer começou em 2002, para tratar crianças com distúrbios de comportamento e com dificuldades de manter relações sociais. O método empregado conjugou terapia psicológica e realização de oficinas, nas quais os pacientes interagiram entre si e com a equipe do projeto. "Sem atividades de inclusão social, o tratamento é ineficiente", afirma Jussara.

Uma equipe de monitores voluntários (estudantes e profissionais ligados à psicologia, música, pedagogia e cinema) foi responsável pela organização das oficinas. "Eles também participavam das atividades, numa relação horizontal com os pacientes", conta Jussara. Segundo ela, isso incentivou as crianças a formarem grupos, vencendo dificuldades de relacionamento. "Se colocarmos autistas juntos, nada ocorre. Eles se envolvem quando há algo acontecendo".

A terapia foi realizada por psicólogos, também voluntários. "Uma condição para o sucesso do tratamento foi que as mães passassem por terapia", destacou a professora. Ela explica que as mães precisaram compreender melhor como lidar com os problemas dos filhos e algumas delas, inclusive, devem resolver problemas psicológicos próprios para não agravar o das crianças.

Desde o início, o Tecer tratou 18 casos, com sucesso em todos, afirma Jussara. Apesar disso,  ela acha complicado prosseguir com o projeto. "Paramos agora para descansar e avaliar as possibilidades de continuar". Um dos motivos é o desgaste da equipe. "Cada paciente convive com seus problemas. Nós convivemos com os de todos os pacientes".

Limitações financeiras também dificultam o prosseguimento do projeto, lembra a professora. Por empregar voluntários, a equipe torna-se restrita (13 terapeutas e 17 monitores) e as poucas verbas recebidas inibem a expansão do atendimento. O único financiamento foi da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e cobriu a montagem de uma cozinha e uma brinquedoteca, a realização de viagens e seminários de estudos para aprimorar o método do tratamento.

Professora Jussara Falek Brauer

Perfil

Graduada em psicologia pela USP em 1973, Jussara Falek Brauer sempre esteve ligada ao estudo de psicoses — distúrbios no funcionamento da mente humana, popular e pejorativamente chamados de "loucura". Esse tema norteou seu mestrado, doutorado e pós-doutorado e originou o método de tratamento utilizado no Tecer. "É o trabalho da minha vida, dediquei minha carreira na USP a isso", diz a professora do Instituto de Psicologia, que se aposentou em 2003, um ano após o início do Tecer.

Jussara lembra que seu período de estudante era diferente do atual. "Havia pouca gente acadêmica, no Brasil, com quem falar sobre psicoses". Mesmo depois do doutorado, nos fins da década de 80, ela continuou sem interlocutores, mas seguiu estudando e tratando jovens com psicoses e dificuldades de relacionamentos sociais.

Apenas em 1996, conheceu o médico que daria rumo definitivo para suas pesquisas. Foi durante um congresso médico, em Salvador, que o francês Roland Lhetier expôs a experiência de sua clínica. "Um método que combinava terapia e inclusão social dos pacientes". Jussara se interessou pela apresentação e recebeu um convite para conhecer a clínica de Lhetier. "Acabei fazendo um estágio lá".

Dessa passagem pela França, a professora também trouxe um pós-doutorado, realizado na École Lacaniènne de Psychanalyse e orientado por Lhetier. Quando retornou à USP, ela criou o Laboratório de Estudos e Pesquisas Psicanalíticas dos Distúrbios Graves da Infância (Leppi), como tentativa de adaptar o trabalho desenvolvido na França à realidade brasileira.

"Mas, é bem diferente". Na clínica de Lhetier, conta, as crianças iam para a clínica, passavam por terapias, realizavam atividades em grupo e também freqüentavam escolas normais. O objetivo do tratamento era que ele não fosse mais necessário. "Se a criança não tinha bom desempenho na escola, por dificuldade de aprendizagem ou de relacionamento, a clínica buscava corrigir isso". Com o tempo, passava-se a não ir mais ao tratamento.

No Brasil, crianças com problemas de convívio social não freqüentam escola normal. "Não há turmas especiais nas escolas públicas e os professores não estão preparados. Os pacientes fazem tratamento e ficam isolados em casa, sem contato com outras crianças". Para Jussara, isso torna o trabalho inócuo, porque não há possibilidade real de reverter a exclusão.

O projeto Tecer foi uma tentativa de garantir a eficiência do tratamento e, após cinco anos, Jussara afirma: os 18 casos atendidos tiveram desfecho bem-sucedido. Mas, ela destaca contradições que pesam na decisão sobre continuar ou não o projeto. "Fizemos o papel da sociedade, simulamos ambiente de convívio em grupo. Deveria haver políticas públicas para resolver a situação dessas pessoas. Mas, vemos o contrário: há subsídio financeiro para famílias com crianças doentes e estímulo para fazer tratamento isolado da sociedade".