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Agência USP de Notícias

Projeto de simulador da Poli analisará sensação de conforto em viagens aéreas

Publicado em 15 janeiro 2008

Os passageiros estão acomodados em suas poltronas. A comissária passa as instruções rotineiras: mantenham os cintos de segurança afivelados em pousos e decolagens, é proibido fumar, máscaras de oxigênio cairão em caso de despressurização. Pouco depois a aeronave toma sua rota e os passageiros vivenciam situações de mudanças de temperatura, vibrações, ruídos e pressão se alterando.

Do lado de fora, pesquisadores observam a cena e fazem suas anotações. Finda a "viagem", os passageiros informam, em questionário, como se sentiram durante a experiência.

Tal cenário poderá ser visto na Escola Politécnica (Poli) da USP a partir de 2010, quando a pesquisa Conforto de cabine — desenvolvimento e análise integral de critérios de conforto chegará ao seu estágio final. O estudo teve início em dezembro passado e tem como objetivo proporcionar uma análise dos elementos que compõem a sensação de conforto de um passageiro de avião.

"O foco do projeto está na experiência do usuário", diz o docente Sylvio Bistafa, do Departamento de Engenharia Mecânica da Poli, um dos professores envolvidos no projeto, que tem coordenação de Jurandir Itizo Yanagihara.


Completo

São quatro as abordagens que o projeto analisará: ruídos, pressão, temperatura e vibração. O conforto de quem está dentro de um avião passa necessariamente por esses quatro aspectos. Um deles apresentando índices indesejados, a satisfação de quem usa o avião é abalada.

Essa divisão faz com que o projeto, em uma fase inicial, seja repartido nessas quatro competências. "Na primeira fase, faremos pesquisas em bancadas. Cada uma das quatro áreas desenvolverá seu sistema para teste", destaca Bistafa, que coordena os estudos relacionados à parte acústica e vibratória.

Já nesse primeiro momento a pesquisa atende também a outro requisito: a de colaborar para a formação dos estudantes da Poli. Estarão envolvidos no projeto alunos de níveis distintos, indo desde a graduação até o pós-doutorado. Bistafa aponta que os módulos iniciais devam comportar cerca de 20 alunos. "E, de acordo com o andamento do projeto, podemos receber ainda mais interessados", destaca.


Mockup

Após a conclusão dessa fase "segmentada", os pesquisadores se encarregarão de construir um mockup — equipamento que reproduzirá, com grande fidelidade, as condições de um avião real. "Será praticamente um aviãozinho, só faltando os motores e as asas", diz Bistafa. Assentos — 24, no total -, corredores, bagageiros e outros itens serão mantidos.

Aí também aparece outra etapa do aprendizado — a própria construção do mockup levará alunos e pesquisadores a terem conhecimento sobre materiais empregados na produção de uma aeronave.

Com tudo concluído, chega-se à etapa dos testes derradeiros. Um grupo de pessoas — denominado "júri" — passará pela experiência de viver uma "viagem" no mockup. Eles simularão uma viagem com horas de duração. Durante o processo, o mockup reproduzirá modificações de temperatura e pressão, apresentará vibrações e ruídos que serão emitidos. Tudo para verificar até que ponto essas condições atrapalham a sensação de conforto de quem faz uma viagem aérea.

"O grupo será composto de maneira heterogênea. Teremos desde leigos até gente mais especializada com a questão técnica envolvida", explica o professor, se referindo ao júri que fará a "viagem". Todos esses jurados receberão orientações para preencher o questionário, de modo que sua avaliação seja precisa. É um processo ao mesmo tempo subjetivo e técnico; dos participantes que tenham conhecimento, espera-se opiniões técnicas. Dos demais, relatos que reproduzam as opiniões de um passageiro regular de avião, e que se aterão à idéia do conforto propriamente dito.

As observações do júri motivarão uma nova fase de estudos. Se verificará o peso de cada um dos componentes e o que pode ser trabalhado para que a sensação de conforto seja aprimorada. "Vamos coletar os dados, fazer análises estatísticas e, a partir daí, extrair tendências", resume Sylvio Bistafa.


Ineditismo

O projeto é pioneiro. Bistafa cita que existem mockups para teste em outros países — mas poucos, ou talvez mesmo nenhum, com a complexidade do que será elaborado na Poli, que analisará, simultaneamente, quatro aspectos que levam à sensação de conforto.

Para o professor, esse ineditismo é um componente que colabora para o fortalecimento do setor industrial nacional. O Brasil, com a Embraer, é um dos países de mais destaque no campo da produção de aeronaves. E a academia, com o apoio da Fapesp, dá a resposta adequada para essa demanda com o desenvolvimento de projetos relacionados.

"A realização de pesquisas colabora para o aumento da competitividade da indústria nacional. E é essencial na formação dos alunos", explica o professor.

Além do Departamento de Mecânica da Poli, participam do trabalho pesquisadores da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) e também da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) — estes últimos, responsável por verificar os aspectos relacionados à saúde dos "passageiros".

Edição de Arte: Thiago A. M. S.