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Projeto da USP dá voz a mais de 2.000 atletas olímpicos brasileiros

Publicado em 17 janeiro 2011

Um projeto que começou em junho deste ano para ficar pronto por volta de 2014 deverá registrar depoimentos em vídeo de cerca de 2.240 atletas brasileiros sobre sua experiência em Olimpíadas, com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). A coordenação do `Atletas Olímpicos Brasileiros` está a cargo de Katia Rubio, do Grupo de Estudos Olímpicos da USP.

Com formação em Educação Física, Educação, Psicologia e Jornalismo, além de autora de diversos livros sobre o tema, a professora da Escola de Educação Física da USP também quer montar um Centro de Memória do Esporte Olímpico Brasileiro, que precisa de patrocinadores.

- Até naturalmente acabamos captando todo um acervo - de público, de entrevistados... E estamos descobrimos muitas coisas - por exemplo: a primeira participação brasileira não foi em 1920 [Antuérpia, Bélgica], mas em 1900 [Paris], com o filho de um diplomata, que tinha dupla nacionalidade.

Katia explica que pensa em fazer algo atrativo para o público, próximo do Museu da Pessoa, do Museu da Língua Portuguesa. Mas, por enquanto, precisa ter o foco nos registros dos atletas olímpicos, como diz.

Heróis são todos

O trabalho específico começou este ano, mas teve início mesmo com um primeiro livro, Heróis Olímpicos Brasileiros, ainda de 2002, que se abriu para as Mulheres Olímpicas Brasileiras.

...- Dos medalhistas, passamos às mulheres - não necessariamente medalhistas. De 1932, com a primeira participação feminina [a nadadora Maria Lenk foi a única brasileira em Los Angeles], o que aconteceu até a primeira medalha, em 1996?

Em Atlanta-1996, Jaqueline Silva e Sandra Pires foram ouro no vôlei de praia, ficando a prata com Mônica Rodrigues e Adriana Samuel; as seleções femininas de vôlei e basquete também ganharam medalha - de bronze.

Katia diz que, pelos depoimentos, as mulheres não dizem ter sentido discriminação como atletas, mas no caso das negras admitem ter sentido preconceito racial.

- Mas esse é ainda outro tema!

Momentos e medalhas

Fato é que, em uma década de pesquisas, já havia um bom material para dar início a esse trabalho maior, de depoimento e registro de cada um que foi a Jogos Olímpicos, suas experiências e impressões.

São 20 pessoas fazendo levantamento de atletas e localização deles, pesquisa de acervo, busca de familiares e amigos, no caso dos já falecidos.

- Muitos estão - e se sentem - esquecidos. A maioria coopera, quer falar de suas vivências, emoções. E também respeitamos os que não querem falar. É importante deixar claro que há visões diferentes, com interpretações diferentes de histórias. São percepções de cada um. Não há uma verdade absoluta. É história oral, em cima do conceito de memória.

Mesmo porque, continua a professora, muitas vezes há momentos que ficam gravados e têm significados muito maiores que a própria conquista de medalha, como o processo até chegar a ela, o depois, a brevidade daquele momento depois de tudo que se passou.

- São histórias altamente significativas. Esquecemos que estar em uma Olimpíada já é uma conquista muito grande e a gente pouco valoriza. E os atletas brasileiros chegam aos Jogos, à Vila Olímpica, despreparados. Eles são unânimes em dizer isso, principalmente os que foram a mais que uma Olimpíada. O deslumbramento desfoca.

De milagres a ferramentas

Por isso também esses depoimentos são importantes no campo da psicologia, diz Katia Rubio.

- Reunimos elementos para termos mais ferramentas de como trabalhar com os atletas olímpicos, como direcioná-los.

A pesquisa tem caráter social, segue a pesquisadora, tem metodologia. É um trabalho acadêmico, `de registro` - nas palavras da coordenadora - `do que pessoas comuns foram capazes de fazer pelo povo brasileiro`.

- Considero quase um milagre o Brasil ter a quantidade de medalhas olímpicas que tem, depois de ouvir histórias dessas pessoas, de tudo o que passaram para chegar a essas conquistas.

Oficialmente, o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) lista 20 participações do país em Olimpíadas de Verão, com total de 91 medalhas, sendo 20 de ouro, 25 de prata e 46 de bronze. A vela tem 16 medalhas, assim como o vôlei, diante de 15 do judô.