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Jornal da Unicamp online

Projeto contribui para diretrizes de Parque Científico da Unicamp

Publicado em 21 outubro 2010

O projeto da Unicamp em parceria com o Governo do Estado para constituir o Parque Científico da Universidade engloba, além do projeto urbanístico e da construção do prédio que vai abrigar o núcleo do Parque, o projeto "Ciência, Tecnologia e Inovação da Região de Campinas e dos seus Parques Científicos e Tecnológicos", que apresenta seus primeiros resultados. Na Universidade, o projeto está sendo coordenado pela Agência de Inovação Inova Unicamp.

Eduardo Gurgel do Amaral, coordenador da área de Sistema Local de Inovação da Inova Unicamp, explica que a realização de um projeto científico e tecnológico é uma exigência da legislação do Governo do Estado para o cadastro do Parque Científico no Sistema Paulista de Parques Tecnológicos (SPTec), criado pelo governo estadual para dar apoio e suporte ao desenvolvimento inovativo, atrair investimentos e gerar novas empresas intensivas em conhecimento ou de base tecnológica.

O Parque Científico da Unicamp é um dos 17 projetos que tem credenciamento provisório no SPTec. "Um dos objetivos do projeto é direcionar o escopo do parque, as atividades que vai oferecer, bem como suas áreas de atuação", coloca Gurgel. Entretanto, o levantamento do cenário de C&T&I abrangeu os 90 municípios da Região Administrativa de Campinas (RAC) porque o compromisso que a Unicamp assumiu com o Estado foi o de fazer um projeto mais abrangente, que não só servisse de base para a implantação dos demais parques científicos e tecnológicos da região de Campinas, mas também pudesse definir as diretrizes estratégicas para o desenvolvimento científico e tecnológico da região.

À frente do estudo está o pesquisador Domenico Feliciello, do Nepp- Núcleo de Estudos de Políti-cas Públicas da Unicamp. Feliciello explicou que o projeto científico tecnológico avalia não só os potenciais das empresas e institutos de pesquisa da região, mas também quais são as falhas e os gargalos. De acordo com o pesquisador, o projeto foi dividido em três grandes fases. Na primeira, foram recuperados estudos que já existiam sobre a região de Campinas. "Com o resultado deste primeiro levantamento foi possível verificar quais áreas deveriam ser aprofundadas nos estudos posteriores", pondera o pesquisador, que trabalhou com dois bolsistas nesta análise. A segunda fase foi justamente o aprofundamento desses estudos, para a qual foi contratada uma equipe maior. Nesta fase foi observado principalmente o banco de dados da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), do Ministério do Trabalho, bem como dados sobre a produção de valor das indústrias na região, e de vários programas públicos de financiamento de pesquisa e inovação, como os programas da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Além do levantamento dos estudos, o grupo também fez uma pesquisa de campo entrevistando 25 empresários para avaliar questões mais qualitativas, como o relacionamento das empresas com as universidades e institutos de pesquisa, o entendimento do conceito de parque tecnológico, e a disposição de cada um em investir em um projeto como esse. "Não foi uma amostra aleatória, foi uma amostra dirigida", informa Feliciello. Segundo ele, em paralelo, os bolsistas também passaram um questionário de perguntas mais dirigidas para cerca de 500 empresas. Entretanto, somente 50 responderam. "Os resultados foram muito convergentes", avalia o pesquisador. As entrevistas apontaram que os empresários consideram muito importante o investimento em ciência e tecnologia, mas os mesmos entrevistados também expressaram sentir dificuldade em acessar recurso, tanto público como privado, para este fim.

Vantagens e gargalos na região

Entre os resultados, a análise dos dados apontou a RAC como uma das principais regiões solicitantes de recursos para investir em inovação e P&D. "De acordo com dados da Pintec, a RAC investe o dobro de recursos tanto em inovação quanto em P&D quando comparada à média brasileira em relação ao PIB. Em relação a São Paulo, gastou 30% a mais. Ou seja, é uma região importante nessas duas áreas no Brasil", avalia Feliciello.

Além da quantidade de recurso investido em inovação, foram mapeadas as principais áreas de atuação de empresas e institutos de pesquisa. Segundo Feliciello, já havia a noção de que a área de tecnologia da informação e comunicação (TIC) era um dos setores de mais destaque na atuação de institutos de pesquisa e de empresas na região. Entretanto, outras áreas também se destacaram. "Ficou bem evidente que o setor de agrotecnologia - que engloba agronomia, engenharia agrícola, tecnologia de alimentos, engenharia florestal - é uma grande área na região", colocou. As áreas de saúde e química também se destacaram. No total, foram identificadas 49 áreas que se destacam em relação ao Brasil. Elas foram avaliadas em termos de número de empresas e sua localização geográfica na RAC, pessoal ocupado, investimento estimado de P&D, e o valor da transformação industrial (VTI).

Um dos pontos de atenção na análise é que apesar de apontar a região de Campinas como a maior proporção de empresas inovadoras em comparação com a média nacional, ainda assim grande parte das atividades econômicas importantes para a RAC se encontra em uma situação de baixo valor da transformação industrial (VTI), com baixo investimento em P&D, constituindo-se como setores com baixo potencial de inovação, com os de papel, brinquedos, plásticos, têxteis e joalheria. Para Feliciello, isto revela a necessidade de criação de políticas públicas regionais para atrair ainda mais empresas de base tecnológica, que utilizem a ciência e tecnologia como um insumo importante do desenvolvimento. "Que não só desenvolvam novos produtos e tenham lucro, mas também que desenvolvam a sociedade como um todo", avalia.

No que se refere aos institutos de pesquisa e universidades, entre os dados levantados estão as áreas de pesquisa e grupos de pesquisa. Neste critério foi destacado o peso da cidade de Campinas na região, pela concentração de pesquisadores e estudantes, principalmente em razão da Unicamp, bem como a importância das outras duas universidades paulistas (Unesp e USP) - as três são responsáveis por 75% dos grupos de pesquisa da região. Entretanto, apesar do destaque nacional para a qualidade da educação superior na região, outro ponto de reflexão se refere ao número desfavorável de instituições voltadas à educação nos níveis médio e técnico na RAC. "Esta polarização cria distorções negativas não somente no mercado de trabalho, mas também nas relações sociais", aponta Feliciello.

Gurgel lembra que as atividades de inovação requerem a atração e a fixação de pessoal qualificado. Neste sentido, o estudo da região aponta que apesar de muitos avanços conseguidos no saneamento e em outros aspectos da infraestrutura, quando comparada a outros centros urbanos a RAC apresenta falhas no que tange ao transporte coletivo e infraestrutura para atividades esportivas, de lazer e culturais, além de ainda apresentar a insegurança como um problema não resolvido.

Para Gurgel, o estudo é essencial para a estruturação das diretrizes do Parque Científico da Unicamp. "O parque deve ter um modelo de negócios bem definido e em harmonia com a vocação tecnológica da região", coloca. O coordenador explica que Parques Científicos e Tecnológicos têm sido utilizados pelo poder público como instrumentos que visam estimular a implementação de atividades econômicas com alto valor agregado e geração de empregos de elevada qualificação. "Muitos destes empreendimentos têm sido utilizados para a revitalização de áreas". Entretanto, Gurgel aponta que, para se convergir a um conjunto de temas e tópicos tecnológicos relevantes para a RAC, é preciso não apenas atentar para as vocações da região, mas também dialogar com as tendências presentes no país e no mundo. "A lista de temas e tópicos tecnológicos precisa refletir um posicionamento estratégico entre as forças globais e as vantagens locais", coloca.

Segundo o coordenador, a capacidade instalada da RAC em termos de empresas inovadoras e pesquisa de alto nível pode ser potencializada com o fomento de projetos, parcerias e negócios de base tecnológica, que aproveitem as vantagens locais e amplifiquem a inserção da região em bases competitivas na economia brasileira e mundial. "O grande desafio está em integrar a cadeia do conhecimento para imprimir uma nova dinâmica de desenvolvimento socioeconômico. Para isso precisamos da participação dos setores políticos municipais, estaduais e federais, além do empresariado e da academia", finaliza.

A terceira fase do projeto está em andamento. Uma das primeiras atividades foi a realização do seminário no dia 14 setembro, que reuniu autoridades municipais da região, empresários e profissionais vinculados a questões de Ciência, Tecnologia e Inovação. No próximo dia 21 de outubro será realizado um workshop com o objetivo de definir as diretrizes estratégicas do Projeto de Ciência, Tecnologia e Inovação da região de Campinas. Três tópicos serão o foco de discussão: estratégias para a implantação e consolidação de Parques Científicos e Tecnológicos, com destaque para a Região de Campinas; a Consolidação do Sistema Local de Inovação, por meio de ações que fomentem a articulação entre governantes, setores produtivos e instituições de produção de C&T; e uma Proposta de estruturação de uma Região do Conhecimento, na qual serão discutidas as bases estruturais para caracterizar a região como tal. Os dados compilados nos estudos estão sendo formatados e serão utilizados em duas publicações. Parte das informações já está disponível no site do projeto em: www.inova.unicamp.br/CTI.