Notícia

Revista Valor Especial

Projeto comum de colaboração

Publicado em 01 novembro 2019

Por Ana Luiza Mahlmeister

A defasagem na formação de recursos humanos nas novas fronteiras do conhecimento como inteligência artificial e ciência de dados é um fator que pode deixar o país para trás na corrida da inovação. Empresas e universidades vêm somando esforços em centros de pesquisa e desenvolvimento para aproximar pesquisadores das instituições acadêmicas. A mais recente iniciativa é o Centro de Pesquisa em Engenharia em Inteligência Artificial, anunciado em outubro de 2019 pela IBM, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a Universidade de São Paulo (USP), que vai sediar o projeto na Cidade Universitária, em São Paulo, com o início das atividades previstas para 2020.

A chamada para a apresentação dos projetos junto à Fapesp está aberta com foco nas áreas de recursos naturais, agronegócio, meio ambiente, finanças e saúde. A IBM e a Fapesp reservarão, cada uma, até US$ 500 mil anualmente para o programa, com avaliações periódicas das atividades do centro e financiamento de até dez anos. A USP vai investir até US$ 1 milhão por ano em instalações físicas, laboratórios, professores, técnicos e administradores. "O cronograma de construção do espaço e outros detalhes do projeto serão definidos em acordo que deverá ser assinado até o final de 2019", explica Fabio Gagliardi Cozman, diretor do Centro de IA e professor da USP.

O edital que escolheu a USP para sediar o projeto teve as propostas analisadas com o auxílio de especialistas internacionais escolhidos pela IBM e Fapesp. Entre os critérios levados em consideração na avaliação estavam a composição adequada de equipes de pesquisadores e de profissionais designados à administração e ao gerenciamento do projeto, além da elaboração de um plano de pesquisa competitivo, tanto nacional como internacionalmente.

O Centro de IA também será o primeiro da América Latina a fazer parte do IBM AI Horizons Network ( AIHN), criado em 2016 para promover a colaboração entre universidades, estudantes e pesquisadores para acelerar a aplicação de IA em áreas como assistência médica, processamento e reconhecimento de imagem, aprendizado de máquina, processamento de linguagem natural e tecnologias relacionadas. Além dos Estados Unidos e do Brasil, o AIHN tem laboratórios no Canadá e na Índia.

O novo centro com a USP vai engajar estudantes, pesquisadores e outros profissionais em uma área que vem ganhando cada vez mais relevância estratégica no mundo, com uma agenda científica conjunta. "Teremos um intercâmbio de ideias com pesquisadores de todo o mundo voltados à solução de problemas para a ciência e o mercado", afirma Ulisses Mello, diretor do Laboratório de Pesquisa da IBM.

Os pesquisadores da IBM vão colaborar com as demais equipes que participam do projeto, além da formação de recursos humanos, afirma Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp. Várias equipes da IBM já trabalham em projetos de IA nas áreas financeira, agronegócio, saúde e meio ambiente, e esse conhecimento deve contribuir para alavancar o centro. "Estão previstos 50 bolsas de estudo. A previsão é que cerca de 100 pessoas devem trabalhar no centro, entre pesquisadores e técnicos, para ampliar o conhecimento em IA e o número de patentes nessas áreas", diz Mello. O centro será "agnóstico" em tecnologias, isto é, vai trabalhar com diversos fornecedores.

Além da USP de São Paulo, fazem parte do projeto um consórcio de universidades como a USP de São Carlos, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq- USP) de Piracicaba, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), o Centro Universitário FEl, Mackenzie e Prefeitura de São Paulo. As instituições de ensino já trabalham com IA e devem aprofundar aplicações no centro.

O ITA tem vários pesquisadores que trabalham com aprendizado de máquina; a PUC-SP vai focar nos efeitos da tecnologia na sociedade; a FEl é especializada em robótica; e a USP de São Carlos em ciência de dados. "Os parceiros têm especialidades que vão ser desenvolvidas e aprofundadas no novo centro", afirma Cozman, da USP. O espaço no campus da USP vai contar com 50 pesquisadores associados das demais universidades e 40 colaboradores que vão trabalhar em aplicações específicas.

Outra ênfase, segundo Cozman, será na formação de mão de obra. "A USP está atenta à demanda por cursos de ciência de dados em São Carlos e na Escola Politécnica (Poli) com novas disciplinas e cursos de extensão", afirma. Os novos cursos de graduação e extensão em áreas estratégicas têm o objetivo não apenas de formar novos profissionais, mas também de retreinar aqueles que estão no mercado para que possam trabalhar com as novas aplicações de IA.

Estão previstos cursos de ciência de dados, tomada de decisão com ferramentas avançadas, e processamento de linguagem natural em português ou NPL (Natural Process Language).

Entre as áreas de interesse do centro, Cozman destaca aplicações de agronegócio (fazendas integradas e agricultura sustentável), saúde (prevenção de acidente vascular cerebral ou AVC) e óleo e gás (produção no oceano) e desenvolvimento de sistemas com "machine learning" ou aprendizado de máquina, processos de tomada de decisão e representação do conhecimento. Pelo fato de a IA trabalhar com linguagem natural (comandos de voz, por exemplo), uma das áreas prioritárias é o reconhecimento de voz em português.

O centro tem como objetivo levar a pesquisa em inteligência artificial a um novo patamar. "As atividades do centro devem contribuir para colocar o país na fronteira desta área, capacitando profissionais e empreendedores, e fomentar o debate na sociedade sobre como usar esta tecnologia da forma mais positiva possível", completa Cozman.

Uma das áreas a serem exploradas pelo centro é a do relacionamento da IA com a sociedade, seu impacto em contextos sociais, econômicos, culturais, políticos e educacionais, e como incorporar ética nos sistemas e torná-los confiáveis. Também serão tratados temas como a transferência de tecnologia e a identificação de oportunidades, o auxílio aos empreendedores, o mapeamento do desenvolvimento da IA no Brasil e a promoção de conferências, workshops, seminários e tutoriais.