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Projeto Chuva inicia suas atividades em Fortaleza a procura de "nuvens quentes"

Publicado em 23 março 2011

Será realizado em abril o primeiro de uma série de sete experimentos do Projeto Chuva, campanha científica com base em Fortaleza (CE), que pretende coletar dados de nuvens "quentes" típicas de regiões tropicais, que evoluem sem formar partículas de gelo em seu interior. A iniciativa tem coordenação geral do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Cptec/Inpe) e financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Em Fortaleza, conta ainda com a organização da Fundação Cearense de Meteorologia (Funceme).

Presentes em diferentes regiões do País, as nuvens quentes estão associadas às chuvas fortes e contínuas, que costumam provocar deslizamentos de encosta e enchentes, como as que ocorreram nos últimos anos em Santa Catarina, Rio de Janeiro, Alagoas e Pernambuco. Chuvas provocadas por nuvens quentes não são consideradas nas estimativas de precipitação dos atuais satélites em órbita, uma das principais preocupações do projeto, segundo o pesquisador do Cptec/Inpe, Luiz Augusto Machado, coordenador principal do projeto.

Os resultados da pesquisa vão orientar às especificações do satélite brasileiro que fará parte do programa Medidas Globais de Precipitação - Global Precipitation Measurement (GPM), liderado pelas agências espaciais dos Estados Unidos (Nasa) e do Japão (Jaxa). As pesquisas também serão aplicadas à área de mudanças climáticas, em análises dos efeitos dos aerossóis (partículas suspensas na atmosfera que podem ser natural ou associadas à poluição) na formação de nuvens de chuva e na modelagem de alta resolução espacial.

Nesta última área, em especial, os processos físicos associados às nuvens de tempestade, que evoluem em escala de alguns quilômetros, ainda são desconhecidos e descritos com pouca precisão pelos modelos numéricos de previsão de tempo e clima. Com o aumento da resolução espacial dos modelos de previsão, devido ao maior poder computacional do novo supercomputador Tupã do Inpe, os processos que envolvem as partículas de chuva e gelo nas nuvens terão que ser descritos pelos modelos com maior detalhamento.

As sete regiões definidas para a realização das campanhas possuem diferentes regimes de chuva e padrões climáticos, representando os principais sistemas convectivos do País que apresentam a formação de nuvens quentes e de tempestades.

Curso e sistema de alerta

Entre os dias 28 de março e 1º de abril, será realizado em Fortaleza o curso "Processos Físicos das Nuvens", ministrado por pesquisadores do projeto para alunos de graduação e pós-graduação. O curso está sendo organizado pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), nas dependências da Funceme. Os alunos participarão da campanha e irão desenvolver um projeto de pesquisa com uso dos dados obtidos durante os experimentos.

A campanha em Fortaleza contará ainda com um Sistema de Observações de Tempo Severo que irá utilizar um radar meteorológico de banda X com dupla polarização, de última geração, adquirido pelo projeto Chuva. A Funceme e a Defesa Civil de Fortaleza decidiram aproveitar a oportunidade da campanha para testar e avaliar este sistema de monitoramento.

O radar recupera informações dos processos físicos envolvidos na formação e dinâmica das nuvens como: locais com presença de gotas líquidas de água, granizo, cristais de gelo etc. O equipamento também estima a quantidade de chuva, principal ferramenta para a emissão de alertas. Os dados meteorológicos obtidos pelo radar serão acompanhados pelos profissionais de Defesa Civil que, durante a campanha, estarão observando a evolução das chuvas sobre a região metropolitana de Fortaleza, já que o sistema fornece também traçado das vias urbanas, curvas de nível, áreas de risco etc.

O sistema vem sendo desenvolvido desde 2004, com tecnologia nacional e projetado para emitir alertas de condições severas que possam causar eventos de impacto à sociedade, como enchentes e deslizamento de terras na área urbana.

A campanha de Fortaleza envolve cerca de 40 pesquisadores, especialistas e técnicos, de diversas instituições de pesquisa e universidades, que estarão acompanhando previsões de tempo, imagens de satélites meteorológicos e uma série de medidas realizadas por instrumentos e equipamentos instalados em diferentes instituições em Fortaleza e arredores. Um avião também será utilizado na campanha.

O CPTEC está na coordenação geral do projeto e é responsável por duas das cinco áreas de abrangência da pesquisa, compartilhadas com pesquisadores da USP e do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE).