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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Projeto brasileiro sobre transtorno bipolar recebe prêmio da Unesco

Publicado em 27 setembro 2009

Por Valéria Dias

O transtorno bipolar é uma doença que afeta o humor, levando a pessoa a ter , alternância de episódios de euforia e depressão. Nas famílias em que um dos parceiros tem a doença, há dez vezes mais chance de um dos filhos apresentar o problema, enquanto que na população em geral esse número é de 1%. Com base nesse índice, um projeto de pesquisa que visa estudar os genes envolvidos com a doença nas famílias de crianças com o problema acaba de ser premiado pelo Programa Loreal/Unesco para Mulheres na Ciência.

O projeto "Estudo genético do sistema do paminérgico em famílias de crianças com o transtorno do humor bipolar" está sendo desenvolvido na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) por uma equipe de pesquisadores ligados ao Laboratório de Neuroimagem em Psiquiatria (LIM-21) e do Programa de Transtorno Bipolar (Proman) do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC), ambos da FMUSP.

De acordo com a psiquiatra Sheila Cavalcante Caetano, que recebeu o prêmio, os pesquisadores irão colher amostras de sangue dos pais e das mães de crianças com transtorno bipolar para realizar uma avaliação genética para se entender quais genes estão ligados ao aparecimento do transtorno nos filhos.

Isso porque, segundo Caetano ressalta, o transtorno bipolar apresenta uma forte carga genética, mas não é uma doença determinista. "Não é toda criança com pais em que um dos cônjuges tem a doença que irá desenvolver o transtorno. O que ocorre é que há uma incidência de 10% em crianças com pais que têm a doença. Na população em geral, o índice é de 1%", destaca.

Ela lembra que 40% dos filhos de pais acometidos pela doença terão algum tipo de doença psiquiátrica, como depressão e transtornos de ansiedade.

A médica conta que as crianças com o transtorno, durante a fase depressiva da doença, podem ficar sem se alimentar, totalmente desmotivadas e com pensamentos suicidas, entre outros sintomas; já durante a fase da euforia, elas se transformam totalmente: ficam agitadas, não param de falar a ponto de atrapalharem as aulas.

Dopamina

A psiquiatra explica que, no cérebro, a comunicação entre os neurônios acontece por meio de neurotransmissores, como a dopamina. "Nos casos de esquizofrenia, os pacientes têm alguns sintomas psicóticos, como alucinações e sensação de perseguição. Crianças com transtorno bipolar têm sintomas semelhantes aos citados", conta a pesquisadora.

"Em experimentos realizados com ratos, quando o nível de dopamina aumenta, esses animais também se mostram eufóricos e com comportamento semelhante ao verificado na fase de euforia do transtorno bipolar. Por isso acreditamos que o sistema dopaminérgico tem um papel fundamental na doença", explica.

Para investigar essa tese, Caetano e equipe coletarão material nos pacientes atendidos no Lim-21 e no Proman, locais onde a psiquiatra atua profissionalmente. Será coletado o sangue dos pais, mães e das crianças, com idade entre 6 el8 anos. Os pais também responderão a questionários.

"Usaremos o prêmio de US$ 20 mil para o desenvolvimento da pesquisa, que estava orçada exatamente neste valor", comenta a médica. "Acreditamos que agora no mês de outubro vamos iniciar as primeiras coletas", informa. Segundo ela, o projeto já foi aprovado pela Comissão de Ética da FMUSP.

A pesquisa faz parte do pós-doutoramento de Sheila, pela FMUSP, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e tem a participação dos médicos Ana Kleinmam e Beny Lafer.

Família desorganizada

A psiquiatra Sheila Cavalcante Caetano, pesquisadora do projeto "Estudo genético do sistema dopaminérgico em famílias de crianças com o transtorno do humor bipolar", afirma que algumas pesquisas americanas apontam que a criança com transtorno bipolar vem de uma família desorganizada, onde não há atividades de lazer realizadas em conjunto. "Com o projeto poderemos descobrir se as famílias brasileiras são tão prejudicadas quanto as americanas", aponta.

Os primeiros resultados do estudo deverão estar disponíveis pelo menos em dois anos. Uma das dificuldades, segundo a psiquiatra, é que a pesquisa deve ser feita com a criança com transtorno bipolar, o pai e a mãe. "O índice de divórcios é maior quando um dos cônjuges tem a doença. Então é possível que tenhamos algum tipo de dificuldade para unir as três partes envolvidas na pesquisa", diz.

Agência USP