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USP - Universidade de São Paulo

Projetar sistemas para tratar e reutilizar a água é a especialidade do Cirra

Publicado em 26 agosto 2009

Na maioria das vezes, as pesquisas do Centro Internacional de Referência em Reúso da Água (Cirra), vinculado à Escola Politécnica (Poli) da USP, possuem um objetivo prático imediato: desenvolver projetos para instituições que desejam economizar água (e dinheiro) tratando e reutilizando a que consomem.

Um exemplo desses projetos é o sistema experimental que o centro desenvolve juntamente com a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), que utiliza membranas de micro e ultrafiltração para tratar a água da represa Guarapiranga, na capital paulista. Essas membranas são polímeros que possuem aberturas microscópicas, pequenas o bastante para impedir a passagem de minúsculas moléculas orgânicas presentes na água. "Uma estação de tratamento de água tem aqueles filtros enormes, decantadores de 100 metros. Se você usar uma membrana de microfiltração, você usa um quarto dessa área. Sai uma água com valor agregado muito maior", explica Ivanildo Hespanhol, professor da Poli e diretor do centro.

Os pesquisadores vão comparar os resultados da pesquisa com os obtidos pelos métodos tradicionais de tratamento, que utilizam coagulação, floculação, sedimentação e desinfecção com cloro. O professor diz que o centro pretende ser o primeiro a produzir essas membranas no Brasil. A pesquisa é desenvolvida com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

A água de reúso pode ser usada, por exemplo, em irrigação - muitas vezes sem quase nenhum tratamento. Além de economizar água, a medida diminui, e até elimina, a necessidade de adubação e fertilização do solo. Nessa área, o grupo tem pesquisado formas simples e baratas de eliminar ovos de parasitas presentes nos efluentes, para que a água possa ser usada em qualquer tipo de irrigação - a presença desses ovos é uma das grandes barreiras ao uso irrestrito da água de reúso na agricultura.

O Cirra também presta consultoria para empresas que desejam racionalizar o consumo de água. O primeiro passo, nesses casos, é realizar uma setorização de consumo: isto é, descobrir quanta água gasta cada setor da instituição. "Isso te indica onde você vai atuar, onde se gasta mais", explica Hespanhol. Paralelamente, são tomadas medidas para evitar o desperdício e tornar mais eficiente os processos industriais. Segundo o professor, esta é a parte mais difícil. "Muitas indústrias têm processos muito antigos, que usam muita água e geram muitos efluentes." Por fim, nos casos em que é instalado um sistema para reutilizar a água, o centro realiza análises para saber a vazão e a composição química dos efluentes, com o fim de determinar qual o tratamento adequado.

Hespanhol diz que as empresas brasileiras se preocupam cada vez mais em economizar água. "A indústria de cerveja gastava em torno de 40 litros de água por litro de cerveja produzida. Hoje [a proporção] é 3,5, mais ou menos". Para o professor, essa mudança se deve a uma nova cultura do empresariado e a uma legislação ambiental mais rígida. Ele vê com bons olhos medidas como a lei federal 9.433, de 1997, que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos. Desde então, empresas que pegam água diretamente dos rios, lagos e do subsolo precisam de autorização para a captação e o lançamento de efluentes, além de pagar pelo uso do líquido. "Como vai pagar, ele [o empresário] vai tirar água com mais parcimônia e vai pensar muito na hora de lançar os efluentes."

Água cinza

Muitos alunos de mestrado e doutorado da Poli realizam suas pesquisas no Cirra. Esse foi o caso de Simone May, que em março deste ano defendeu a tese de doutorado Caracterização, tratamento, e reúso de águas cinzas e aproveitamento de águas fluviais em edificações. Para a pesquisa foi montado, dentro do centro, um sistema de tratamento de água cinza, isto é, aquela que foi utilizada em máquinas de lavar, pias, banheiras ou chuveiros. Como tem uma quantidade menor de material orgânico do que o esgoto doméstico "completo", a água cinza pode ser tratada com mais facilidade - tanto que alguns condomínios residenciais têm implantado sistemas para reutilização dessa água.

Para conseguir amostragens de água cinza para a pesquisa, foram instalados chuveiros e uma máquina de lavar no centro. "O pessoal jogava futebol e vinha aqui lavar roupa. Todo mundo trazia", diz Hespanhol. Primeiro, a água passava por um sistema de tratamento biológico, no qual microorganismos se alimentam dos resíduos orgânicos. Depois, o líquido era decantado, filtrado e desinfectado. O resultado foi uma água de qualidade muito alta. "Você não distinguia visualmente de uma água potável", afirma o professor.