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Programas Biota unem África e Brasil

Publicado em 23 outubro 2008

Por Heitor Shimizu

Agência Fapesp

Em viagem à África, Carlos Alfredo Joly, professor da Unicamp e um dos criadores do Biota-Fapes, discute com dirigentes do BioTA África possibilidades de colaboração em pesquisas

O uso não sustentável da terra e as mudanças climáticas são considerados dois dos principais fatores responsáveis pelos grandes prejuízos verificados na biodiversidade mundial. No mais pobre e menos desenvolvido dos continentes os impactos tendem a ser ainda mais sentidos.

Para discutir os desafios de conciliar a conservação da biodiversidade na África com a necessidade imediata de melhorar as condições de vida da população, especialmente em áreas rurais, mais de 350 cientistas, representantes de organizações internacionais e de órgãos de governo e agricultores de 20 países africanos e da Alemanha se reuniram no Congresso Internacional de Biodiversidade na África, realizado de 29 de setembro a 3 de outubro na Cidade do Cabo, na África do Sul.

O Brasil esteve representado por Carlos Alfredo Joly, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos criadores e ex-coordenador do programa Biota-Fapesp. Convidado pelos organizadores, foi um dos palestrantes no primeiro dia do congresso.

Joly conta que no evento foram apresentados resultados de projetos de pesquisa conduzidos em diversos países africanos no âmbito do programa BioTA África (onde BioTA é a sigla de Biodiversity Monitoring, Transect, Analysis).

O programa, apoiado financeiramente pelo Ministério da Educação e da Pesquisa da Alemanha (BMBF, na sigla em alemão), reúne mais de 400 pesquisadores de instituições africanas e alemãs que atuam em conjunto, em uma rede multidisciplinar e integrada, em atividades espalhadas pelo continente.

“Trata-se de uma iniciativa que tem produzido resultados excelentes. Fiquei muito impressionado com a qualidade dos trabalhos apresentados. São pesquisas de alto nível. O BioTA África envolve um esforço notável na formação de recursos humanos para o desenvolvimento de pesquisas científicas no continente”, disse Joly.

Antes de chegar à Cidade do Cabo, o pesquisador brasileiro viajou pelo interior da Namíbia, acompanhado pelo coordenador do BioTA África no país, Dave Joubert, do Departamento de Conservação da Natureza da Politécnica da Namíbia.

“Durante a viagem, paramos em diversas áreas de pesquisa do programa. São observatórios com 1 km² cada um, que ficam próximos a áreas de tamanhos equivalentes, exploradas economicamente por agricultores locais. O objetivo é avaliar, por meio da comparação, o impacto da atividade econômica na biodiversidade local. Os observatórios auxiliam governos locais e proprietários a promover atividades menos impactantes à biodiversidade”, explicou.

Cada observatório está sob a responsabilidade de um representante da comunidade local que atua em nome do programa. “Eles são treinados por meio do Programa Paraecologistas, outra iniciativa do BioTA África. São jovens que recebem uma pequena ajuda financeira, uma espécie de bolsa, para acompanhar os impactos das atividades econômicas locais”, explicou.

No percurso, Joly teve contato com fazendeiros que apóiam a iniciativa do BioTA África, por saberem da importância de se conhecer melhor a diversidade biológica e os impactos que diferentes usos da terra podem promover. No congresso na África do Sul, uniões de fazendeiros estiveram representadas para participar dos debates.

O congresso também reuniu cientistas alemães responsáveis pela avaliação do BioTA África. O BMBF está analisando o apoio à quarta fase do programa, que teria início em 2009 por mais três anos.

Parcerias com o Brasil

Joly discutiu com coordenadores do BioTA África possibilidades de parceria do programa com o Biota-Fapesp e com pesquisadores brasileiros. “Há aspectos muito interessantes no programa africano que talvez possamos incorporar ao Biota-Fapesp, que em 2009 completa dez anos e está pronto para entrar em uma nova fase”, disse.

“Um deles é o uso de observatórios (ou parcelas) permanentes, que permitiria o acompanhamento de mudanças em longo prazo na biodiversidade. Isso já vem sendo feito em alguns projetos do Biota-Fapesp, mas precisaria ser ampliado. Outro aspecto interessante é o Programa Paraecologistas, que precisamos ver como seria possível institucionalizar por aqui, talvez por meio da adaptação do programa de bolsas de capacitação técnica”, explicou.

“De outro lado, eles ficaram muito bem impressionados com o nosso protocolo uniforme de coleta de dados e com o SinBiota [Sistema de Informação Ambiental do Programa Biota] , pois não contam com nada nesse sentido. Também gostaram muito de conhecer nossa experiência com o desenvolvimento de produtos que auxiliam o aperfeiçoamento de políticas públicas, como os mapas de Diretrizes para conservação e restauração da biodiversidade no estado de São Paulo, que reúnem as áreas prioritárias para conservação no estado e estão sendo utilizados pelas secretarias do Meio Ambiente e de Agricultura de São Paulo”, contou Joly.

O professor da Unicamp também se reuniu com representantes do Ministério do Meio Ambiente de Angola para a discussão de uma parceria a ser efetivada na quarta fase do BioTA África.

“A idéia é atuarmos juntos, Biota-Fapesp e BioTA África, possivelmente com a colaboração do Instituto Nacional da Biodiversidade da África do Sul (Sanbi), para a formação de recursos humanos para pesquisa em caracterização, conservação e uso sustentável da biodiversidade de Angola. O que poderia ser feito, por exemplo, por meio de uma parceria com a Universidade Agostinho Neto, a principal do país”, explicou.

Joly também iniciou conversas sobre a possibilidade de montar um projeto em colaboração com a Politécnica da Namíbia para trabalhar na área de ecofisiologia de plantas no país.

(Agência Fapesp, 23/10)