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Programa Integrado de Doutorado em Bioenergia é tema de debate

Publicado em 29 agosto 2013

Por Luiz Paulo Juttel, da Agência FAPESP

"Não há mais o que se investigar sobre bioenergia, já sabemos tudo e não há espaço para inovação." Isso foi o que o atual vice-reitor executivo de Relações Internacionais da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luís Augusto Barbosa Cortez, ouviu de um renomado pesquisador norte-americano na década de 1980, quando buscava um tema para a sua tese de doutorado.

Cortez não revela o autor da frase, mas relembrou a história durante a abertura do Workshop Bioenergia, realizado na Unicamp no dia 26 de agosto, para mostrar a mudança radical pela qual tem passado o setor nas últimas décadas. Hoje há desafios científicos e tecnológicos significativos no campo dos biocombustíveis, química verde, combustíveis para aviação, manejo agrícola e otimização de processos, entre outros.

O workshop teve como objetivo principal discutir o Programa Integrado de Doutorado em Bioenergia e as novas propostas de pesquisa da instituição na área. O programa será desenvolvido pela Unicamp, a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Os alunos selecionados poderão cursar disciplinas nas três instituições, sendo parte delas ministradas em inglês e com o uso de um sistema de videoconferência para a integração dos estudantes e professores situados em cidades diferentes.Cada universidade participante terá um sistema próprio de seleção dos doutorandos. "A Unicamp abrirá 20 vagas para a primeira turma que iniciará as atividades em março de 2014. As inscrições serão abertas agora, dia 1º de setembro", explicou Cortez.

O curso é um desdobramento de outra iniciativa conjunta das três universidades, o Centro Paulista de Pesquisa em Bioenergia, e já foi aprovado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) com nota inicial quarto. O doutorado contará com cinco linhas de pesquisas, as mesmas do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN): biomassa, tecnologia, motores, biorrefinaria e sustentabilidade.

Segundo Cortez, os custos de infraestrutura do programa serão financiados pelo governo do Estado de São Paulo. Na Unicamp, o prédio do Centro de Tecnologia está em reforma para abrigar as instalações do curso. "A expectativa é finalizar as obras em cerca de um ano", disse Cortez.

A contratação de profissionais para o programa de doutorado ficará a cargo das universidades. A Unicamp já contratou quatro dos 15 docentes previstos. Estes apresentaram suas propostas de pesquisa no Workshop de Bioenergia, focadas em temas como fermentação de açúcares e sensores para a agricultura de precisão. O financiamento desses estudos contará com o apoio da FAPESP.

Competição com a gasolina

O evento em Campinas contou também com apresentações de especialistas sobre temas relevantes de pesquisa em bioenergia. Entre eles, estava Marcos Sawaya Jank, sócio-diretor da Plataforma Agro e ex-presidente da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica). Jank trouxe dados que mostram que o Brasil tem diminuído a participação de fontes renováveis na sua matriz energética nos últimos anos.

"Nossa matriz é muito elogiada internacionalmente por ter 43% de energia renovável. A cana-de-açúcar participa com 16,4%, mas esse número já foi quase 18% em 2009", disse.

A diminuição, segundo Jank, é fruto da crise que o setor enfrenta por competir com o preço congelado da gasolina vendida no país, desconectado do valor internacional do barril de petróleo.

A medida governamental impacta a competitividade do etanol e o desempenho econômico da Petrobras, que não consegue repassar ao consumidor final os custos totais de produção e refino do petróleo, de acordo com Jank.

"Como não temos capacidade de refino de petróleo no país, somos obrigados a importar gasolina e derivados, o que hoje significa para a Petrobras uma perda de cerca de 30% do custo. Quase U$ 3 bilhões foram perdidos pela empresa em 2010 em importações de derivados. O valor de mercado da companhia foi reduzido em U$ 169 bilhões desde 2010", disse Jank.

Na opinião do especialista, os marcos regulatórios e as volatilidades da matriz energética brasileira são dois assuntos que necessitam ser aprofundados pela academia.

Outro tema que merece destaque é a bioeletricidade. Jank disse que hoje são gerados 1.000 megawatts (MW) médios a partir da biomassa, mas o potencial brasileiro é de 14.000 MW, três vezes a produção da usina Belo Monte. "O salto possível é imenso, mas não ocorre por questões regulatórias", afirmou.

Essa fonte de eletricidade ainda possui a vantagem de ser gerada em maior quantidade no Centro-sul do país, próximo das maiores regiões consumidoras. Além disso, a safra de cana ocorre durante o período de seca, quando o nível dos reservatórios diminui e as hidrelétricas têm maior dificuldade para abastecer o consumo.

Etanol de segunda geração

Os pesquisadores também relacionaram outros temas que são desafios para a pesquisa, como biocombustíveis para aviação e química verde. No primeiro caso, Cortez comentou que hoje são consumidos por ano 260 bilhões de litros de querosene no mundo.

"Se o Brasil ganhasse uma parcela desse mercado seria um excelente negócio, pois se trata de um setor que pode ser consolidado sem grandes barreiras, as empresas possuem grande interesse", destacou.

Em junho último, FAPESP, Embraer e Boeing publicaram o relatório Plano de Voo para Biocombustíveis de Aviação no Brasil: Plano de Ação, que aponta rumos para o desenvolvimento de uma indústria de biocombustíveis para o setor aéreo no Brasil e é resultado de uma série de oito workshops realizados em diferentes cidades em 2012.

Já sobre química verde, foram abordadas as diversas iniciativas e oportunidades de produção de compostos de alto valor agregado a partir da biomassa, assim como a integração desses processos à atual cadeia sucroenergética.

No que diz respeito aos desafios científicos e tecnológicos, os palestrantes do workshop concordaram sobre a grande oportunidade que representa a conversão da biomassa em etanol, conhecida como o etanol de segunda geração.

O investimento em pesquisas que tornem essa tecnologia viável na escala industrial traz um aumento considerável no rendimento do etanol, ao aproveitar melhor a planta. Só que, para isso, é preciso investir pesado no desenvolvimento de enzimas, novas rotas tecnológicas, fermentação das pentoses e integração dos processos.

Rubens Maciel Filho, professor da Faculdade de Engenharia Química da Unicamp e membro da coordenação do BIOEN-FAPESP, ressaltou a importância de estudos sobre motores e os avanços científicos e tecnológicos possíveis na área agrícola, como novas variedades, melhor manejo e mecanização. Ele destacou que o rendimento teórico de toneladas de cana por hectare estimado é de 381 toneladas. A produção média atual fica na casa de 75, cinco vezes abaixo.

Fonte: Agência FAPESP