Notícia

Gazeta Mercantil

Programa espacial brasileiro quer recuperar atraso

Publicado em 24 junho 1998

Por Virgínia Silveira - de São José dos Campos
Apesar da escassez de recursos, o segundo protótipo do veículo lançador de satélites deve ser lançado em outubro. O Programa Espacial Brasileiro está perto de resolver um dos principais gargalos do projeto do Veículo Lançador de Satélites (VLS), com o desenvolvimento de um sistema próprio de localização e orientação do foguete durante a sua trajetória de lançamento. A central do VLS, como é chamado o seu sistema de navegação, pilotagem e guiagem, está sendo finalmente nacionalizada e deverá ser testada, como equipamento reserva, no vôo do terceiro protótipo do foguete brasileiro, previsto para acontecer no final de 99. O Centro Técnico Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos, em parceria com a empresa Aeroeletrônica, de Porto Alegre, já iniciou a fase de produção dos protótipos industriais de uma central inercial completa. A proposta inicial, porém, era de que a central já pudesse estar sendo qualificada no vôo do segundo protótipo, programado para o final deste ano. O atraso no repasse de recursos para o projeto do VLS em 98 e dificuldades para a importação de componentes sensíveis, prejudicaram o cumprimento do cronograma original. "Ainda continuamos a perseguir a data de outubro para o lançamento do segundo VLS mas, até agora, não recebemos nenhum recurso para darmos prosseguimento aos contratos com as indústrias", disse o diretor do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), vinculado ao CTA, coronel Antônio Hugo Pereira Chaves, que também é o gerente do VLS. Segundo o diretor, o IAE precisa de US$ 6 milhões para completar os testes com o foguete e realizar a fabricação de alguns componentes. O dinheiro já estava previsto no orçamento da União e deveria ter sido liberado, em março, pela Agência Espacial Brasileira (AEB). O próprio projeto da central inercial, segundo Chaves, sofre atraso de um ano e meio porque os recursos destinados, até agora, para o seu desenvolvimento estão aquém do necessário. O desenvolvimento de uma plataforma inercial, totalmente nacional, é considerado uma conquista extremamente importante no contexto do programa espacial brasileiro. O primeiro protótipo do VLS, cujo lançamento, realizado em novembro do ano passado, não deu certo, voou com sensores de navegação russos e computador de bordo inglês. O software e toda a parte de eletrônica da central foram feitos no Brasil. O mesmo sistema também será utilizado no lançamento do segundo protótipo do VLS, previsto para acontecer entre o final deste e o começo do próximo ano. Para chegar ao ponto de ter o seu próprio sistema de navegação em lançadores, o Brasil precisou vencer muitos obstáculos. Além dos problemas com a falta de recursos e de pessoal, o programa espacial brasileiro foi duramente afetado pelas pressões dos países que dominam a tecnologia espacial e aderiram ao Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR). Apesar de o governo brasileiro já fazer parte do regime, desde outubro de 95, a troca de informações com outros países e a importação de componentes sensíveis para o VLS ainda persistem. Uma prova disso foi demonstrada com o impedimento da empresa Aeroeletrônica de prestar qualquer tipo de informação sobre o projeto da central inercial que está desenvolvendo para o VLS. "Temos receio de que a divulgação de informações sobre o projeto possa prejudicar ainda mais o trabalho da empresa ou mesmo dificultar a conclusão do sistema por pressões internacionais", afirmou o diretor do IAE. Documento divulgado pelo próprio diretor, com exclusividade para GAZETA MERCANTIL, mostra que a pressão é liderada pelos Estados Unidos, que claramente reafirmam a sua disposição de não apoiar o programa brasileiro de desenvolvimento de veículos lançadores de satélites. "Em setembro de 97, tentamos comprar um receptor simples, de telemetria, para ser utilizado na Base de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, mas o pedido foi negado pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos" revelou. Só as negociações para a compra dos sensores da central inercial, do primeiro VLS, da Rússia, e do computador de bordo adquirido de uma empresa da Inglaterra, demoraram mais de dois anos para serem concluídas e aprovadas. O projeto de desenvolvimento do primeiro lançador brasileiro sofreu atraso de mais de oito anos, sendo que grande parte desse período deve-se ao problema do embargo internacional. O receio dos Estados Unidos e de outros países adeptos do MTCR era de que o Brasil pudesse usar a tecnologia espacial para desenvolver mísseis de longo alcance ou exportá-la para outras nações. Hoje, segundo avaliação feita pelo diretor do IAE, o grande temor desses países, principalmente dos norte-americanos, é de ordem comercial. "Os Estados Unidos sabem que o Brasil é um concorrente em potencial no bilionário mercado de fabricação de lançadores e operação de bases de lançamento, sendo que a França ocupa hoje a posição de líder nesse setor", comentou. Com a Base de Alcântara, o Brasil ocupa uma posição de vantagem em relação aos demais países detentores da tecnologia espacial, por causa de sua localização estratégica, próxima ao equador terrestre. A rotação da Terra na região equatorial oferece maior velocidade tangencial ao foguete, traduzindo-se em maior capacidade de satelização e economia de combustível. O barateamento dos custos de lançamento tornam o centro brasileiro bem atrativo para a venda de serviços para terceiros. A Nasa, agência espacial dos Estados Unidos, por exemplo, já utilizou os serviços do CLA para o lançamento de 36 foguetes de sondagem em 1994. Nos últimos três anos, a base realizou 30 operações espaciais, com o lançamento de mais de 260 foguetes científicos do tipo sonda. O Centro de lançamento de Alcântara também está separado da capital do Maranhão, São Luis, pela Baía de São Marcos. Com a proximidade do mar, os lançadores não precisam evitar o sobrevôo de áreas habitadas. A região possui ainda clima bem definido, com chuvas regulares, temperaturas pouco variáveis e ventos dentro dos limites aceitáveis para lançamentos de engenhos espaciais. CTA DESENVOLVE NOVO GIROSCÓPIO A central inercial de um veículo lançador de satélites é um sistema composto de dois sensores principais: um giroscópio e um acelerômetro, que têm como função repassar informações sobre a posição do foguete no espaço para um computador de bordo. E através de uma plataforma inercial que se consegue, por exemplo, identificar os desvios de rota. Foi a central inercial do primeiro protótipo do VLS que informou ao seu computador sobre a tendência de desvio do veículo no momento do lançamento e o manteve na posição vertical. O desvio da trajetória foi provocado por uma falha no sistema de ignição do foguete. Um dos quatro motores do primeiro estágio não foi acionado e o foguete teve que ser destruído 65 segundos após o lançamento. Antes mesmo de concluir o desenvolvimento de uma central inercial do tipo convencional, ou seja, de natureza eletromecânica, como é o caso da central da Aeroeletrônica, o Brasil já está partindo para tecnologias mais baratas e avançadas no campo de sistemas de navegação de veículos espaciais. O CTA, através do seu Instituto de Estudos Avançados (IEAv), começa a testar, em julho, o protótipo de um giroscópio a fibra óptica. O sistema será testado, pela primeira vez fora do laboratório, em um helicóptero Esquilo da Força Aérea. As pesquisas com o giroscópio a fibra óptica começaram em 1990 e, até o momento, o projeto já recebeu investimentos de US$ 5 milhões, envolvendo tanto a parte de infra-estrutura quanto a de formação de pessoal. A meta do CTA, segundo o diretor do IEAv, coronel Paulo Gastão Silva é terminar o desenvolvimento de uma central completa a fibra, incluindo um acelerômetro, antes da qualificação de VLS. Para ser qualificado o VLS precisa de realizar, com sucesso, quatro vôos. Segundo previsão do chefe da Divisão de Fotônica do IEAv, e gerente do projeto do giroscópio a fibra, major Osni Lisboa, a fase de transição do protótipo para produto deve durar de dois anos e meio. O projeto envolve a participação de 15 engenheiros eletrônicos, todos com mestrado e doutorado. O Brasil, no entanto, segundo Lisboa, ainda está sete anos e meio atrasado em relação aos Estados Unidos nessa área, também provocado pela questão de perda de pessoal, por falta de incentivos e baixos salários, e embargo comercial. O giroscópio é também um dispositivo utilizado em larga escala em aviação comercial. Algumas aeronaves de grande porte como os Boeings 767 e o Airbus 310 usam tecnologias mais avançadas de giroscópio a laser, mais precisos. Recentemente, segundo Lisboa, a Boeing incorporou o giroscópio a fibra em sua aeronave 777. O avião de treinamento militar avançado ALX, que a Embraer está desenvolvendo, também irá incorporar um giroscópio a laser. No Japão a tecnologia de giroscópio a fibra já está sendo testada pela indústria automobilística. (V.S.)