Notícia

GVces - Centro de Estudos em Sustentabilidade

Programa Bioen, da Fapesp, organiza pesquisadores na academia e na indústria para manter liderança do País na produção de etanol

Publicado em 28 julho 2008

Um programa de pesquisa básica e aplicada que pretende manter, e ampliar, a liderança do Brasil na produção de etanol de cana está pronto e foi apresentado na quinta-feira, 3 de julho, ao público que lotou os 200 lugares do auditório da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), na capital paulista.  Quem apostou em atraso teve de assistir ao workshop de lançamento do Programa Bioen — as primeiras letras de "bioenergia" — por um telão instalado três andares abaixo.  Às nove em ponto, o presidente Celso Lafer e o diretor científico Carlos Henrique de Brito Cruz desceram a escada lateral do auditório da fundação e o workshop começou.

Lafer abriu o seminário com poucas palavras.  O ex-ministro das relações exteriores ressaltaria, mais tarde, que apenas a produção de conhecimento poderá dar ao País a condição de "sustentar a articulação diplomática" necessária para assegurar a legitimidade de sua posição de liderança no cenário internacional no assunto biocombustíveis, ao fazer o discurso de recepção à mesa cerimonial do lançamento de chamadas para projetos de pesquisa, em que se sentaram parceiros da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Dedini) e o vice-governador do Estado, Alberto Goldman.

A economia de Lafer com as palavras deu lugar à apresentação de Brito Cruz, em que o diretor científico destacou justamente a liderança do Brasil.  Ele deu o tom do dia (o workshop terminou às quatro e meia da tarde), ao afirmar, em certo momento: "O Brasil não está acostumado a ser um dos melhores do mundo em fazer coisas baseadas em conhecimento.  Mas, nesse assunto da cana, o Brasil é.  A atitude que devemos ter nesse assunto é diferente da atitude que você tem de ter quando está querendo aprender e copiar dos outros o que eles estão fazendo.  Industrias, institutos de pesquisa, cientistas, construíram uma vantagem importante para o Brasil — a liderança tecnológica e a liderança científica.  Quem é líder, tem de continuar avançando para manter a liderança.  É isso que motiva o Bioen".

Em linhas gerais, o programa de pesquisa acadêmica que o Bioen pretende financiar e implementar inclui o seqüenciamento completo do genoma da cana-de-açúcar; a identificação e estudo de genes relacionados à resistência da cana à seca, a insetos, ao aumento da produção de sacarose e de biomassa — para desenvolvimento de transgênicos e para informar os trabalhos de melhoramento clássico da cana —; e o estudo da cana sob o ponto de vista de seu uso para produção de etanol de celulose.  Nesse último tópico, o estudo dos genes associados à construção das paredes da planta merecerá grande atenção.  Muito do programa de pesquisa se apóia sobre resultados do programa de seqüenciamento de trechos de genes da cana, o Sucest (Sugarcane EST Project), iniciado em 1999 como parte do programa Genoma da Fapesp.

Na platéia

Paulo Arruda, o pesquisador da Unicamp que coordenou o programa de seqüenciamento Sucest, assistiu ao workshop.  Hoje, Paulo é da diretoria da empresa Allelyx, de Campinas — cujo principal foco é usar resultados da biologia molecular para desenvolver tecnologias para a agricultura.  O biólogo gostou do que viu e ouviu: "É muito bom, bem-estruturado do ponto de vista macro e excelente do ponto de vista acadêmico.  Vem em boa hora e a idéia tem importância fundamental", disse ele a Inovação.  Paulo afirmou que a empresa tem interesse em participar do seqüenciamento do genoma completo da cana, como se fosse um parceiro acadêmico — ou seja, sem fazer restrições à abertura irrestrita das informações —, pois ele considera que a Allelyx tem contribuições a dar.  "É preciso cuidado, no entanto, para assegurar ao Brasil a primazia nas publicações e na condução do processo, se houver consórcio internacional", acrescentou.

O programa de pesquisas

Quatro cientistas das Universidades de São Paulo e Estadual de Campinas apresentaram a parte acadêmica do Bioen: Glaucia Souza, do Instituto de Química da USP; Marcos Buckeridge e Marie-Anne Van Sluys, ambos do Instituto de Biociências da USP; e Anete Pereira de Souza, do Instituto de Biologia da Unicamp contaram o que já está sendo feito, e agora se integra ao programa, e que projetos preparam para responder aos desafios científicos relacionados à expansão da produção de cana e etanol.

Uma surpresa: é grande o conhecimento já acumulado a partir do conhecimento sobre genes da cana e da pesquisa sobre suas funções — resultado principalmente de estudos subseqüentes ao programa genoma da cana, e base sobre a qual o programa já vem sendo construído.  O Bioen está estruturado em divisões.  Três delas cobrem temas de pesquisa acadêmica: Divisão de Biomassa para Bioenergia (com foco em cana-de-açúcar), da qual Glaucia é a coordenadora geral; de Processo de Fabricação de Biocombustíveis; e de Pesquisa sobre Impactos Sócio-Econômicos, Ambientais, e Uso da Terra.  Outras duas se referem à pesquisa com empresas: a Divisão de Aplicações do Etanol para Motores Automotivos e a de Biorrefinarias e Alcoolquímica.

O programa, apresentado por Glaucia Souza

Inovação conversou com a cientista do Instituto de Química da USP uma semana depois do workshop, para saber como está delineando o programa.  As idéias apresentadas por ela e os projetos de pesquisa já iniciados mostram o resultado do trabalho de preparação do programa, realizado por Glaucia, Marcos Buckeridge e Marie-Anne Van Sluys — todos da coordenação da área de biologia da Diretoria Científica da Fapesp.  Já existem 50 líderes de grupos de pesquisa trabalhando em temas do Bioen.  O relato a seguir resulta dessa conversa:

Sobre o seqüenciamento completo do genoma da cana: em dois anos, os pesquisadores esperam ter um "rascunho" do genoma da cana —excepcionalmente grande (10 bilhões de pares de bases) e complexo.  O seqüenciamento reunirá cientistas do Brasil, EUA, França e Austrália — os países que têm tecnologia em melhoramento de cana-de-açúcar, ainda que pequena em relação à do Brasil.  O seqüenciamento acontecerá no centro do Instituto de Química e será realizado, principalmente, por um seqüenciador automático de última geração (454), comprado com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o primeiro a ser instalado na América Latina.  O seqüenciador chega em agosto e espera-se que comece a funcionar em setembro.  Será seqüenciado o genoma do cultivar desenvolvido em Viçosa, o SP80-3280.  Também serão seqüenciados mil "BACs" de cana.  BAC é a sigla para bacterial artificial chromosome.  Usando BACs, os cientistas multiplicam trechos de DNA que os interessam.  Preparar BACs (fazer uma biblioteca, no jargão da genômica) é trabalhoso e leva tempo.  Existe uma única biblioteca pronta de BACs de cana, feita para uma variedade da Ilha de Reunião (pesquisa de cientistas franceses).  O programa vai começar seqüenciando esses BACs, que são vendidos, enquanto as bibliotecas de BACs da variedade SP80-3280 e de outras variedades brasileiras são construídas (com a colaboração da França, que tem muita experiência em construção de BACs).  O objetivo é identificar e seqüenciar promotores de genes de interesse.  Os genes de interesse são aqueles relacionados ao teor de sacarose, à resistência a insetos, à resistência à seca, à produção de biomassa.  Promotores são as regiões do genoma que ativam os genes ligados a eles.  O conhecimento dos genes e de seus promotores será útil para a produção de cana transgênica — com mais sacarose, com mais biomassa, resistente a insetos ou resistente à seca.  Um problema técnico a ser vencido é a chamada "estabilidade" dos transgênicos de cana.  O gene de interesse é "insertado" no genoma de uma determinada variedade, a planta começa a crescer, apresenta a característica desejada, mas o pedaço de DNA "insertado" é inativado pela planta por mecanismos ainda largamente desconhecidos.  Mas os cientistas confiam que vão resolver o problema.  Já se sabe que genes da própria cana conferem a ela resistência a insetos (podendo substituir os genes vindos de organismos como o Bacillus thuringiensis, o Bt, muito utilizado na indústria atualmente).  O programa pretende também desenvolver cana transgênica resistente à seca — dado o fato de que 65% da expansão das plantações de cana ocorre, hoje, em áreas de pasto no Centro-Oeste, onde há período mais prolongado de seca.  O conhecimento sobre genes e sua localização no genoma da cana também interessa ao melhoramento clássico, aquele em que plantas são cruzadas e selecionadas a partir das características que apresentam no campo.  O melhoramento clássico transformou a cana brasileira na espécie altamente eficiente que ela é hoje.  No entanto, o trabalho de melhoramento é lento.  O seqüenciamento do genoma e dos BACs tornará o desenvolvimento de novos cultivares mais rápido.  Aumentar a produtividade da cana e a eficiência na produção de etanol usando o conhecimento sobre genes terá grande impacto a médio prazo, esperam os pesquisadores.  Espera-se obter resultados de maior impacto organizando a pesquisa para tornar a planta de cana mais adequada à produção de etanol a partir não só da sacarose (do caldo da cana), mas também da celulose, um dos compostos de carbono que formam o caule da planta.  Ocorre que a celulose, para formar a estrutura do caule (na cana e na maioria das plantas), apresenta-se muito "empacotada"; por isso, os açúcares de que é composta e que podem, depois de degradados, ser fermentados em etanol, são de difícil acesso.  Os cientistas do Bioen querem alterar essa característica da parede das plantas pelo controle de genes ligados à sua formação.  As plantas, em certas situações, degradam suas paredes — por exemplo, durante o amadurecimento de frutos, para liberar as sementes.  O estudo dos genes ativados ou desativados nesses processos, a identificação das enzimas relacionadas a eles, produzidas pela própria planta ou por microorganismos, poderá levar ao controle da degradação das paredes e à criação da chamada "planta energia" — aquela adaptada para maximizar a eficiência da produção de energia.  A articulação e as chamadas de projetos

Como está escrito no press release da Fapesp, o Bioen é um programa "articulado".  Sob a coordenação direta da Fapesp ou de pesquisadores do Estado, já estão reunidos no programa cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e da Unicamp; dos Estados Unidos, da França e da Austrália; especialistas da Ridesa e do Instituto Agronômico (IAC), de grande tradição e impacto na cultura da cana; e das Universidades Federais de Pernambuco (UFPE), Alagoas (UFAL) e Viçosa (UFV).  As empresas Oxiteno, Braskem e Dedini têm convênios prévios com a Fapesp que foram integrados ao programa.

Agora, a Fapemig e o CNPq juntaram recursos para financiar a pesquisa dentro do Bioen.  No dia do lançamento do programa, a Fapesp anunciou quatro chamadas para projetos de pesquisa: uma do convênio com a Dedini e três para pesquisadores acadêmicos.  Para colaboração entre cientistas em Minas e em São Paulo, o valor para financiamento de propostas é de R$ 5 milhões; para pesquisadores em São Paulo que queiram apresentar projetos temáticos no assunto, o Bioen combinou recursos da Fapesp e do CNPq (do Programa Pronex, a serem usados para bolsas de doutorado e mestrado ligadas a projetos aprovados) no valor de R$ 38 milhões; e para jovens pesquisadores, a Fapesp reservou R$ 10 milhões.  A agência vai anunciar a chamada em periódicos científicos estrangeiros, para incentivar jovens cientistas de outros países a se instalar no Brasil e participar do programa.  (M.T.)