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Professores da USP analisam os 100 anos da Bauhaus

Publicado em 11 abril 2019

Por Claudia Costa

Criada em 1919 com um estilo arrojado, escola alemã lançou as bases da arquitetura contemporânea

Fundada pelo arquiteto alemão Walter Gropius em 25 de abril de 1919, a Staatliches-Bauhaus (Casa de Construção) foi uma escola de artes, design e arquitetura de vanguarda na Alemanha. Primeira escola de design do mundo, a Escola Bauhaus lançou as bases da nova arquitetura que marcaria o século 20 e que, ainda hoje, quando completa 100 anos, ecoa pelo mundo. “Diria que é uma referência primordial para entender a ruptura paradigmática do primeiro modernismo com relação ao ecletismo da tradição acadêmica neo-clássica, no final do século 19 e início do século 20”, afirma o professor Bruno Padovano, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Ele acrescenta que, passados 100 anos de sua criação, “a Bauhaus continua a ser objeto de estudos por historiadores interessados naquele período racionalista e funcionalista, hoje identificado como sendo da modernidade sólida”.

Um dos seus principais objetivos era unir engenheiros, arquitetos, pintores, artesãos, designers e artistas, além de produzir artesanato e tecnologia, valorizando a produção em escala industrial. Também procurou estabelecer planos para a construção de casas populares, e havia espaço ainda para publicações e exposições. Para Padovano, os objetivos iniciais da Bauhaus, segundo a conceituação de Gropius, eram de ordem metodológica. Gropius não pretendia criar um estilo moderno, em oposição ao eclético, que ainda dominava a época. “Ele buscava uma ‘atitude sem escrúpulos, original e elástica com relação aos problemas de nossa geração’. Toda a atenção era dada aos processos industriais e à solução dos problemas sociais oriundos da Revolução Industrial, valorizando a função sobre a forma, tópico central das escolas de belas-artes da época”, relata.

O prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, projeto de João Batista Vilanova Artigas, que expandiu os conceitos da Bauhaus, entendendo que a principal função de uma escola de Arquitetura e Urbanismo deveria ser social – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Com um ensino inovador, baseado na experimentação prática, só após três ou quatro anos os alunos tinham aulas de história, para não influenciar suas criações a partir de padrões herdados do passado. O Vorkurs – literalmente, “curso preparatório” – era um curso exigido a todos os alunos e ministrado nos moldes do atual curso de Desenho Básico, fundamental em escolas de Arquitetura por todo o mundo. No semestre seguinte, o aprendiz seguia para uma oficina de sua escolha e os temas eram dos mais diversos, desde pintura, escultura, teatro, fotografia, cerâmica, impressão e tecelagem até arquitetura.

“Na sua concepção inicial, o curso inaugural buscava aproximar artistas e técnicos, incentivando a criatividade e a experimentação dos alunos”, conta Padovano. Segundo ele, isso ocorre ainda em muitas escolas, no exterior e no Brasil, como no curso básico de Arquitetura e Urbanismo da FAU, quando os alunos recebem informações variadas e desenvolvem exercícios básicos de projeto por professores dos cinco grupos de disciplinas do Departamento de Projeto: Desenho Industrial, Paisagem e Ambiente, Planejamento Urbano, Programação Visual e Projeto de Edificações. “O uso de maquetes nesses exercícios é próprio da herança da Bauhaus e sua inovadora metodologia de ensino”, completa.

A sala de Gropius, em Weimar, foi decorada com móveis criados na escola, como a cadeira F51, assinada por ele, e o tapete de Gertrud Arndt – Foto: Samuel Zuder / Thüringer Tourismus GmbH

O corpo docente da Bauhaus também causou grande impacto na arte do século 20. Ele era integrado por nomes como László Moholy-Nagy, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Josef Albers, Herbert Bayer, Marcel Breuer, Lyonel Feininger, Oskar Schlemmer e Gehard Marks. “Influenciados pela euforia da emergente sociedade industrial, esses mestres seguiram a orientação de elaborar uma linguagem própria para a era da industrialização que se alastrava pela Europa e Estados Unidos, gerando movimentos de renovação no campo das artes e do design, além da arquitetura e o urbanismo”, lembra Padovano. “Foi qualificada uma verdadeira fábrica de ideias, cuja repercussão sente-se até hoje”, completa.

A história da Bauhaus

Constituída pela fusão das Escolas de Artes e Ofício e Belas Artes de Weimar, a Bauhaus teve apenas 14 anos de existência. Depois de seis anos em Weimar, muda-se, em 1925, para Dessau (sob a direção de Hannes Meyer), sendo instalada em um edifício projetado por Gropius, de arquitetura industrial moderna e arrojada – representando os ideais defendidos pela escola, como a estética ligada à funcionalidade e à economia de materiais. Em 1930, com o advento dos ideais nazistas, a Bauhaus – considerada uma frente comunista, especialmente porque muitos artistas russos trabalhavam ou estudavam ali –, ela foi encerrada e seus professores e alunos, perseguidos pelo Estado alemão. Como última tentativa de sobrevivência, a sede da escola ainda mudou, em 1932, para Berlim (dirigida por Mies van der Rohe), mas em 1933 foi definitivamente fechada. Mesmo com o fim da experiência da Bauhaus alemã, seus ideais já estavam difundidos pelo mundo.

A cadeira Wassily, também conhecida como a cadeira Modelo B3, foi projetada por Marcel Breuer entre 1925 e 1926, enquanto ele era o chefe da oficina de fabricação de armários na Bauhaus, em Dessau, Alemanha – Foto: Wikipédia

Nas décadas seguintes, a Bauhaus teve impacto fundamental no desenvolvimento das artes e da arquitetura do Ocidente europeu e também dos Estados Unidos, Israel e Brasil, para onde se encaminharam muitos dos artistas exilados pelo regime nazista. Segundo Padovano, os professores que deixaram a Alemanha levaram adiante a adoção de um novo paradigma, em oposição ao do academicismo e do racionalismo-funcionalismo. “Em 1950, foi criada a escola de Design de Ulm, por Max Bill, seguindo a orientação da Bauhaus, que por sua vez, foi fechada em 1968”, acrescenta.

“De forma festiva, a escola promoveu uma verdadeira revolução no ensino das artes plásticas, desenho industrial e arquitetura, tornando-se uma referência para outras instituições de ensino”, diz Padovano. Ele conta que, na FAU, o célebre professor João Batista Vilanova Artigas (1915-1985) – que projetou o edifício da escola e foi protagonista na sua orientação pedagógica – expandiu, na sua reestruturação curricular ocorrida em 1962, os conceitos da Bauhaus, entendendo que a principal função de uma escola de arquitetura e urbanismo deveria ser social.

Para Padovano, a importância dada por Artigas ao uso de técnicas construtivas próprias da era industrial, associadas a uma espacialidade generosa e uma orientação para a dimensão pública e associativa, além de sua ligação com Lásló Moholy-Nagy, um dos pioneiros da Bauhaus, “foram pontos de partida para a orientação pedagógica da escola, aberta para várias manifestações artísticas e de projeto, das artes plásticas à cenografia, do design de pequenos objetos às grandes escalas do urbanismo contemporâneo”.

A cadeira Wassily, de Marcel Breuer: Bauhaus estava aberta para várias manifestações artísticas e de projeto, das artes plásticas à cenografia, do design de pequenos objetos às grandes escalas do urbanismo contemporâneo – Foto: Wikipédia

Ecos contemporâneos

Segundo a professora da FAU Giselle Bieguelmann – colunista da Rádio USP – o legado que a Bauhaus deixou no campo das artes, especialmente nas artes mediadas pela tecnologia, foram de grande importância. “A Bauhaus foi crucial nesse processo porque foi uma escola que promoveu a ruptura de limites entre a arquitetura, as artes e o design. É central na produção e no currículo da escola como essas disciplinas operavam de forma integrada e transversal”, comenta. Um dos exemplos disso, ela cita, é o Ballet Triádico, de Oskar Schlemmer, obra que combina aspectos cenográficos e elementos coreográficos com um trabalho de iluminação. “Nesse balé experimental, fica clara a relação entre arte, design e arquitetura e, de alguma forma, cria matrizes que são patentes em todo o campo da história da arte e tecnologia contemporâneas”, explica.

Croquis de poltronas desenhadas pelo arquiteto João Batista Vilanova Artigas, em 1948, e poltronas em compensado recortado e couro, criada por Artigas (sem data), presentes no livro Móvel Moderno no Brasil, de Maria Cecilia Loschiavo dos Santos – Fotos: Reprodução

A professora dá outros exemplos da proximidade da Bauhaus com a arte. Um deles, “quase que recorrente e autoexplicativo”, é uma das cadeiras mais famosas da Bauhaus, a Wassily, de Marcel Breuer, que, segundo ela, tem esse nome em homenagem ao artista Wassily Kandinsky, mestre da Bauhaus e considerado um dos maiores artistas do século 20. “Pouco associada ao artista, um dos ícones da produção dessa escola não por acaso é uma homenagem a ele”, ressalta a professora. “Marcel Breuer fez parte da primeira geração formada na Bauhaus e depois se tornou professor da escola. A cadeira é uma referência a um dos professores”, informa. E continua: “Há quem diga que essa cadeira tenha sido feita para a sala de estar do próprio Kandinsky. É uma peça inovadora, com tubos de aço e desenho radical, e uma das peças mais conhecidas da escola”.

“A Bauhaus foi desde o princípio uma escola na qual o design não poderia ser pensado sem a referência da arte”, diz Giselle. A professora ainda lembra a exposição de Paul Klee, atualmente em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, também um dos grandes mestres da Bauhaus, e reitera a importância de outros nomes, ainda que pouco conhecidos do público, como Oskar Schlemmer, segundo ela uma referência incontestável dessa articulação entre arte, tecnologia e design, além da composição arquitetônica. “Nesse centenário, é importante destacar características que não são muito lembradas, como essa relação com a arte, mas que são de fundamental importância para se compreender o legado da Bauhaus.”

A professora Maria Cecilia Loschiavo dos Santos, também da FAU, lembra que a Bauhaus “teve uma segunda vida nos Estados Unidos, ainda em torno de Walter Gropius, durante sua estada em Harvard, e também em torno do Black Mountain College e das atividades de Richard Buckminster Fuller”. No Brasil, o que poucas pessoas sabem – diz a professora – é que o arquiteto João Batista Vilanova Artigas, que estava diretamente ligado aos conceitos da Bauhaus, também criava móveis. Maria Cecilia apresenta croquis e poltronas desenhadas por Artigas em seu livro Móvel Moderno no Brasil (Editora Olhares), que está em sua segunda edição e se tornou uma obra de referência para o estudo do design do mobiliário brasileiro.

Marta Erps-Breuer, ex-aluna da Bauhaus que trabalhou na USP e é tema de tese de doutorado em andamento na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP – Foto: Acervo do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP

Além disso, a Bauhaus está presente em pesquisas, como demonstra a tese de doutorado em andamento de Ana Julia Melo Almeida, “Artefatos Têxteis: Mulheres e Design no Brasil”, sob a orientação de Maria Cecilia. Com apoio da Fapesp, o trabalho investiga a participação das mulheres no design moderno brasileiro, entre elas Marta Erps-Breuer, designer alemã que foi aluna da oficina de tecelagem da Bauhaus entre os anos 1920 e 1924 e mulher de Marcel Breuer. Maria Cecilia comenta que, no final da década de 20, Marta decide se estabelecer no Brasil, sendo contratada em 1935 pela então recém-fundada Universidade de São Paulo. Como docente da USP, participou de pesquisas pioneiras no campo das ciências biológicas. Seu percurso ficou restrito ao Departamento de Genética, mas seu trabalho é de grande importância, dado o detalhamento dos estudos em formato de desenhos, esquemas, esculturas e fotografias. “O legado pedagógico da Bauhaus, a ênfase no ensino de projeto, a conexão com o trabalho manual e o sentido do fazer são temas extraordinariamente importantes para a formação dos designers e arquitetos dos dias de hoje”, afirma Maria Cecilia.

Também da FAU, a professora Ewely Branco Sandrin destaca a “inovadora metodologia de ensino da Bauhaus e suas derivações, baseadas na busca do desenvolvimento de uma percepção crítica do mundo”. Ela afirma que a transdisciplinaridade e os procedimentos na execução do projeto são questões fundamentais no processo de ensino-aprendizagem da forma. “Nas diferentes fases desse movimento cultural e artístico, podemos observar que, sob a filosofia do ‘aprender fazendo’ e sob as teorias da forma, estava sempre presente a interação entre artes, técnicas, materiais e processos de produção industrial”, acrescenta Ewely. “Apesar das divergências internas e da repressão e perseguição externas às suas ideias, o processo de trabalho híbrido, assim como o trânsito entre linguagens, aliado à ciência e à tecnologia para o alcance de soluções inovadoras do design contemporâneo, tem origem nos ensinamentos dessa fascinante escola, ainda hoje objeto de pesquisas acadêmicas. A forma venceu o autoritarismo.”

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