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Professora vence dificuldades e cria de pele artificial a cimento

Publicado em 06 outubro 2013

Por Priscilla Sales

É num laboratório de curtimento com problemas de infiltração no teto, equipamentos quebrados ou funcionando de forma improvisada e com produtos químicos armazenados em prateleiras de metal velhas e enferrujadas que ela costuma passar boa parte de seus dias. Professora do curso de curtimento de peles da Escola Técnica Estadual “Carmelino Corrêa Júnior”, o Colégio Agrícola de Franca, Joana D’Arc Félix de Souza decidiu ignorar as dificuldades e investir tempo e energia na realização de seu sonho: criar produtos.

Em dez anos, já desenvolveu 13 novos materiais, todos a partir de resíduos descartados pelas indústrias de diferentes segmentos. Mesmo com recursos escassos, já conseguiu criar uma pele artificial para ser usada em casos de queimaduras, colágeno para o tratamento de osteoporose e osteoartrite, um cimento especial e mais durável a partir do lodo descartado por curtumes e até um novo sistema de filtragem de água a partir das escamas de peixes.

Em todas as pesquisas, Joana faz questão de envolver os alunos com o intuito de despertar nos jovens o gosto pela ciência e pelo conhecimento.

A pesquisadora cresceu vendo o pai encantado com o processo de curtimento de couro. José Félix de Souza durante sua vida inteira trabalhou em curtumes de Franca. “Dizem que filho de curtumeiro, curtumeiro será. Eu fui a escolhida da família”, brincou ela, que resolveu cursar química na Unicamp (Universidade de Campinas), com a intenção de trabalhar em curtumes de Franca como o pai, mas o destino quis diferente.

Durante a faculdade, Joana conheceu um professor que a estimulou a seguir a carreira acadêmica. Fez, então, mestrado e doutorado em Campinas. Seu trabalho rendeu um convite para fazer um curso de PHD (pós-doutoramento) em química, pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Foi quando começaram as pesquisas. Joana é fluente em seis línguas e tinha planos de viver no exterior, mas, mais uma vez, o destino quis diferente. A morte de sua irmã aos 35 anos e de seu pai um mês depois a trouxeram de volta a Franca em 2001.

Ela tentou trabalhar nos curtumes da cidade, mas não conseguiu emprego. Resolveu, então, dar aulas. Hoje, 12 anos depois, ela recebe um salário de R$ 6 mil do Centro Paula Souza como professora e começa a colher os frutos de suas descobertas. “Já negociei a transferência de tecnologia com uma fábrica italiana e com uma indústria do Rio Grande do Sul”.

A senhora é PHD em química pela Universidade de Harvard, uma das mais conceituadas do mundo. É fluente em seis línguas. Tem trabalhos reconhecidos em todo o mundo. Por que trabalhar no Colégio Agrícola, onde a estrutura é tão precária?

Quando estava fazendo meu pós-doutorado nos Estados Unidos, não pensava em voltar para o Brasil. Mas perdi minha irmã que tinha 35 anos. Ela morreu depois de um ataque cardíaco enquanto amamentava meu sobrinho recém-nascido. Isso foi em outubro de 2002. Em 3 de dezembro, foi meu pai que também teve um ataque e morreu em casa enquanto tomava café. Imagina como foi para a minha mãe enfrentar tudo isso. Não tinha como continuar fora do Brasil. Voltei. Tentei trabalhar nos curtumes, até fiquei um tempo no Curtume Orlando, mas não deu certo. Foi quando surgiu a oportunidade no Colégio Agrícola. Gosto de ensinar, gosto de despertar a curiosidade dos alunos e também consigo ter tempo para as minhas pesquisas. Mas o que me prende mesmo a Franca é a minha família.

Mas aqui, no Colégio Agrícola, é tudo muito precário. Tem equipamentos quebrados, infiltrações. Como é possível desenvolver pesquisas nestas condições?

Não é fácil. Mas não acho que isso deva parar nosso trabalho. Temos dificuldade, mas também contamos com alguma ajuda, principalmente da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). É ela que nos dá recursos para o desenvolvimento dos estudos. As dificuldades também nos obrigam a buscar soluções alternativas, a sermos mais criativos. Claro que o ideal seria termos um laboratório moderno, com equipamentos de última geração, mas não estamos em uma universidade. Somos uma escola técnica estadual. O caminho que encontramos para amenizar os obstáculos foram as parcerias. Com elas, conseguimos complementar aquilo que não temos aqui. Uma grande parceira é a USP (Universidade de São Paulo), onde fazemos os testes dos produtos desenvolvidos.

E as empresas de Franca? A senhora tem algum tipo de apoio por parte delas?

Sabe aquele ditado que diz ‘santo de casa não faz milagre’? Aqui em Franca é mais ou menos a mesma coisa. Já visitei várias fábricas para apresentar meus trabalhos, pedir apoio ou parcerias. Mas não houve interessados. O que percebo é que o empresariado francano não consegue pensar adiante. Os donos de fábricas só pensam no que terão de investir de imediato, mas não conseguem ver o lucro que terão no futuro. Não querem investir sem ter o retorno imediato. É incrível, mas sou mais reconhecida fora da cidade e até do país do que aqui em Franca.

E como é ser cientista diante de tantas dificuldades? É possível ganhar dinheiro se dedicando às pesquisas no Brasil?

Estamos melhorando muito em termos de apoio aos pesquisadores do país. Principalmente aqui no Estado de São Paulo. A implantação e o efetivo funcionamento das agências de apoio à pesquisa, como o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) têm sido um importante apoio. Aqui em São Paulo, a Fapesp é fundamental. Sou assessora de pesquisa desde 2003 e não teria conseguido desenvolver novos produtos sem a ajuda da fundação. O governo também tem se preocupado mais com o pesquisador, melhorando o valor dos incentivos. Mas ainda temos um longo caminho a percorrer, não apenas em termos de remuneração, mas de infraestrutura mesmo.

E quanto a ganhar dinheiro?

Não me sinto muito à vontade para falar de valores. Mas é possível sim ganhar dinheiro com pesquisas. Eu mesma comercializei a transferência de tecnologia para a retirada de colágeno dos resíduos de couro bovino com duas empresas, uma no Rio Grande do Sul e outra na Itália. Com isso, recebo uma porcentagem do faturamento dessas indústrias com os produtos desenvolvidos a partir dessa tecnologia. Para conseguir ganhar dinheiro, o pesquisador não pode se acomodar. Não pode desenvolver algo e manter aquilo trancado no armário e restrito às salas de aula. Tem que ir à luta. Procurar as empresas e expor o que conseguiu criar.

Não tem como termos pelo menos uma ideia dos rendimentos?

O que posso dizer é que com a transferência para o Rio Grande do Sul recebo, em média, R$ 10 mil por mês.

Por quase dois anos, a senhora trabalhou nos Estados Unidos como pesquisadora, durante seu pós-doutorado. Comparando a rotina lá com a que a senhora vive aqui, qual a principal diferença?

No Brasil, as pessoas acham que não conseguimos desenvolver novas tecnologias e novos produtos. Mas isso não é verdade. O número de patentes registradas no País hoje coloca o Brasil entre os principais criadores de tecnologias e produtos. Então, em termos de conhecimento, não estamos atrasados. O que ainda não alcançamos é a infraestrutura americana. Lá, os pesquisadores têm facilidades que não existem aqui. Um exemplo é a burocracia para a importação de produtos. Aqui temos uma papelada imensa para preencher, precisamos justificar o uso para a alfândega. O processo pode levar meses até a liberação. Nos EUA, não é assim. O governo americano também concede subsídios e linhas de financiamento para a compra de equipamentos e aparelhos para o uso em experimentos. Ser cientista lá tem bem mais facilidades que aqui.

A senhora tem hoje criados ou em fase de criação 13 produtos, relacionados aos mais diversos fins. Como começa o processo de criação? De onde surgem as ideias?

De tudo. Das coisas mais variadas possíveis. Imagina que você está conversando com alguém sobre alguma bobagem e, de repente, tem um insight, uma ideia. É assim que acontece comigo. A diferença é que a maioria das pessoas nem presta atenção. Paro e anoto. Acontece muito também de ter ideias em sonhos. Estou dormindo e sonho com algo relacionado ao meu trabalho. Quando acordo, corro para anotar e não me esquecer. É uma loucura, eu sei. Mas é como acontece. Já tive experiências em que não estava encontrando a solução para um novo produto e fui dormir preocupada. Acordei na manhã seguinte e tinha sonhado com uma forma de resolver o problema. Testei e não é que deu certo. Não sei explicar o que acontece. É como ver sua mãe dispensando a borra de café e pensar: “será que esse material não poderia ser usado em outra coisa?”. Aí, você resolve pesquisar a estrutura do café e percebe que ele pode ser um bom elemento curtidor de couro e começa a testar, até que funcione.

E qual a sensação quando sua ideia funciona e surge uma nova descoberta?

É incrível. É uma sensação indescritível. Desenvolver algo que poderá ser usado por toda a humanidade de forma proveitosa é um enorme prazer. Poder usar seu conhecimento para ajudar as pessoas, a sociedade é muito bom. É o caso da pele artificial que desenvolvemos a partir da derme do porco. Foi extremamente gratificante saber que ela poderá no futuro ser usada para amenizar a dor de pessoas que sofrem com queimaduras. E isso a um preço acessível. Queria poder fazer mais.

E no que a senhora está trabalhando agora?

Não posso dar muitos detalhes porque ainda não assinamos a parceria, nem temos o projeto finalizado. Mas já tenho uma ideia para auxiliar o tratamento das pessoas com câncer. Tenho muito trabalho pela frente.