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Professora de Marília vive em Wuhan e fala sobre coronavírus

Publicado em 18 fevereiro 2020

A doutora Aline Tedeschi da Cunha se formou em Relações Internacionais em Marília e também cursou seu doutorado em Ciências Sociais pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências no mesmo campus da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Desde 2016 ela vive em Wuhan, onde é professora vinculada ao International College da Universidade de Hubei.

A cidade chinesa é considerada o epicentro do surto do novo coronavírus e Aline saiu dali em meados de janeiro, para suas férias, no momento em que a situação local começava a se agravar.

Pouco tempo depois outros brasileiros precisaram de apoio do governo brasileiro para deixar o país e agora estão em período de quarentena. Ela deu uma entrevista exclusiva ao Marília Notícia sobre a situação chinesa. Confira abaixo.

Marília Notícia: Há quanto tempo você vive na China?

Aline Tedeschi: Sou professora na Universidade de Hubei, em Wuhan, desde março de 2016. Estava ainda escrevendo minha tese de doutorado quando fui trabalhar em Wuhan. Ministro aulas de Relações Internacionais (Globalização, História das relações internacionais, Teoria das RI, etc), e português.

MN: Como você acabou indo para a China?

AT: Minha ida para a China foi coerente com a minha linha de pesquisa durante anos no Brasil. Graduei-me em Relações Internacionais pela UNESP de Marília (2008-2011). No ano de 2009, na mesma universidade, foi aberta a primeira turma para as aulas de mandarim do Instituto Confúcio no Brasil, da qual eu fazia parte. Em 2010, estive no primeiro grupo de estudantes que viajaram a Wuhan – através do Instituto Confúcio – por um mês, para uma visita a Universidade de Hubei. Ainda na graduação fiz iniciação científica com o apoio financeiro da Fapesp, e o assunto era política externa da China. Segui com a pesquisa no mestrado, quando após avaliação da banca de qualificação, fui passada diretamente para o doutorado finalizado em 2018. Ainda no período do mestrado morei meio semestre em La Plata, na Argentina, assistindo aulas na Universidad Nacional de La Plata. Ainda em 2015 recebi a proposta de ir a Wuhan para ministrar inicialmente as aulas de português, pois o governo chinês prefere que nativos ensinem línguas estrangeiras. Ainda que não fosse minha área de expertise, aceitei a proposta. Em março de 2016 comecei o semestre na Universidade de Hubei, numa segunda-feira, após apenas um dia de ter chegado em Wuhan (cheguei no domingo a noite) e ainda com os efeitos de jet lag. Desde de setembro de 2016 também fui indicada para ministrar as aulas de relações internacionais na mesma instituição.

MN: Desde quando você está no Brasil e fica até quando?

AT: Saí de Wuhan de trem no dia 15 de janeiro com direção a Pequim. De Pequim fiz escala em Londres e em Madri. Cheguei no Brasil no dia 17 de janeiro, com voo da British Airways. O voo de retorno estaria agendado para o dia 19 de fevereiro, mas a companhia aérea cancelou voos até 1 de abril de e para Shanghai e Pequim.

MN: Qual o clima em Wuhan e na China como um todo em relação ao coronavírus?

AT: O clima em Wuhan é um misto de preocupação com a propagação do vírus e da falta de precisão quanto ao tempo que se levará para que tudo volte ao normal, e o sentimento positivo de que está sendo feito todo o possível para a contenção da propagação do vírus. Esse sentimento motivador foi expresso na frase “Wuhan Jiayou” (lê-se Urran Djiaiou) há algumas semanas: um vídeo lançado nas mídias sociais mostra cidadãos chineses e estrangeiros entoando em voz alta a frase motivacional desde suas casas em Wuhan. A população tem reagido de maneira a seguir as indicações de segurança à saúde, como evitando saídas desnecessárias de suas casas e usando as máscaras cirúrgicas. Os guias de saúde delineados pelo governo são bem completos nesse sentido. Através também de grupos no Wechat (o ‘whatsapp’ chinês), a publicação e a reprodução desses documentos foram facilitadas. Sou membro de grupos diversos que vão de pesquisa acadêmica a troca/venda de artigos, e em todos eles recebia atualizações sobre a situação do vírus, e diretrizes de saúde.

MN: Como foi a reação no início e com o avançar da proliferação?

AT: As reações não foram muito alarmantes no início. Lembro-me que na véspera do ano novo recebemos mensagens nos grupos de Wechat com rumores sobre diversos casos de pneumonia, com diretrizes para evitar lugares com aglomeração. No entanto, recebemos todo ano mensagens com essas diretrizes no início e durante o inverno, período em que usualmente as pessoas contraem mais doenças respiratórias. Com o avançar da situação – nesse momento eu já estava no Brasil – a preocupação com a questão da quarentena e da possível falta de locomoção e suprimentos aumentou. Também a circulação de informação mais paupável e oficial aumentou.

MN: Tem contato com outros brasileiros? O que eles pessam e sentem sobre a situação atual?

AT: Eu tenho contato com os brasileiros que ficaram em Wuhan e com alguns dos que agora estão em período de quarentena no Brasil. Temos em Wuhan alguns grupos com brasileiros que moram lá e em outras regiões da China. A sensação geral é de incertezas. Já no início das notificações sobre a quarentena havia a dúvida sobre como proceder com transporte e suprimento. Em seguida a dúvida sobre como ficaria a sitação dos expatriados em Wuhan. Conforme apareciam nos jornais e nos grupos de wechat as iniciativas de outros países no sentido da repatriação de pessoas que se encontravam em Wuhan, a dúvida era sobre o posicionamento do governo brasileiro com relação ao tema. Agora, a incerteza tanto dos brasileiros que saíram da China antes da quarentena e daqueles em quarentena no Brasil, quanto dos brasileiros que ainda ficaram em Wuhan, guarda relação quanto ao período de retomada das atividades. O semestre relativo a fevereiro-julho é, diferentemente do Brasil, considerado o “segundo semestre” no âmbito escolar, por exemplo. Por esse motivo, muitas pessoas ainda estão com cursos e atividades inconclusas. Além da preocupação em economizar dinheiro para a compra de passagem aérea ou com reagendamentos, há também a ansiedade em saber como lidar com prazos – inclusive do Visto de trabalho ou estudo.

MN: Há quem diga que os números oficiais chineses podem estar subestimados, o que você pensa sobre isso?

AT: Não acredito que os números possam estar subestimados. É comum que cada fonte de informação tenha variações quanto à informação publicada, mas não acredito que seja proposital no sentido de minimizar a seriedade dos fatos. É importante destacar que o caso é permeado por diversas fake news, que prestam um desserviço ao esclarecimento do que de fato está acontecendo em Wuhan. As fake news geram uma sensação de pânico e caos que, não somente preocupa muito pessoas que possuem um ente querido ou amigos ainda morando na China, como também ajuda a construir um estereótipo extremamente negativo sobre os costumes chineses. Alguns aplicativos disponíveis no Wechat possibilitam que vejamos se em vôos ou viagens de trem em que estivemos havia alguma pessoa com caso de corona vírus confirmado, e em outros os números de casos são atualizados dia a dia.

MN: Quais as principais mudanças no cotidiano dos chineses?

AT: As principais mudanças foram trazidas pela diretriz de evitar locais públicos. Guias de higiene foram publicados em diversas plataformas digitais. Alguns mercados continuam abertos e é indicado que somente uma pessoa por família saia em média a cada três dias para comprar o que for necessário. Em algumas universidades, comidas eram entregues na porta dos dormitórios dos estudantes. O uso de aplicativos de compra online de comida (como os famosos “Eleme” ??? e o “Meituan” ??) ajudam bastante. A universidade onde trabalho, por exemplo, enviou mensagens através do Wechat pedindo para que os professores estrangeiros que saíram de férias não voltassem para Wuhan até doravante notificação. O semestre será adiado e estão sendo cogitadas ideias como aulas através de plataformas digitais ou que o semestre letivo avance até julho ou agosto (usualmente o semestre letivo acaba em junho).

MN: Qual a diferença de reação com uma situação de epidemia na China e no Brasil?

AT: O governo chinês, apesar da relativa tardia em reconhecer a seriedade da propagação do vírus, tem agido com rapidez e muita organização. Médicos voluntários de todo o país – inclusive do setor militar – foram acionados para que se concentrassem na cidade de Wuhan. Vídeos têm circulado pela Xinhua News – midia chinesa – mostrando alguns desses médicos e médicas dormindo no chão dos hospitais por exaustão, ou raspando seus cabelos para que a vestimenta fique mais apropriada à sua proteção. Como é de conhecimento público, hospitais foram erguidos em apenas 10 dias. A propagação do vírus e a medida de quarentena inegavelmente impactam a dinâmica social e econômica da China. Dado o seu peso no cenário mundial – como importador de commodities e produtos primários e exportador de peças e produtos industrializados -, é esperada do governo chinês uma rápida resposta frente à propagação do vírus. Diversas viagens a negócios foram canceladas, bem como foram canceladas feiras internacionais nas quais os chineses fariam parte. A comparação entre a China e o Brasil no sentido de contenção de vírus corre o risco de ser prematura e incabível, entretanto é possível dizer que a situação tomou níveis alarmantes na China pela densidade populacional e pela dinâmica urbana e econômica de uma cidade como Wuhan, um hub de transporte público. A reação da população no Brasil foi diferente pela falta de informação palpável. Quando surgiram as informações de conteúdo, muitas fake news sobre a situação na China já tinham tomado conta de plataformas digitais, o que tornou mais difícil o entendimento concreto sobre a procedência da doença e sobre as medidas que seriam tomadas pelo governo chinês. Acredito que a situação não se normalize para a maior parte das atividades em Wuhan pelo menos até finais de março. As diretrizes que recebi da instituição onde trabalho é de que esperemos para reagendar os vôos de volta para Wuhan até prévia notificação. A data do início do semestre letivo ainda é incerta. Devemos ter paciência e esperar que a situação seja estabilizada.