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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Professor desenvolve equipamento inédito

Publicado em 04 julho 2011

 

Tisa Moraes

 

Uma máquina de alta tecnologia capaz de produzir as superfícies mais lisas do mundo e que nunca foi desenvolvida no Brasil. Este foi o desafio concluído recentemente pelo bauruense Arthur Alves Fiocchi, professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

Batizado de lapidoretificadora - por lapidar e retificar ao mesmo tempo -, este tipo de equipamento é indispensável à produção de objetos que precisam ser extremamente planos e polidos, tais como lentes para óculos, microscópios e telescópios, algumas peças de motores automotivos e aeronáuticos. Outros exemplos são componentes de disco rígido de computadores ou tampões usados no bombeamento de água ou de combustíveis como petróleo, por exemplo.

Porém, até agora, nenhum pesquisador havia tentado desenvolvê-lo no País e todas as máquinas utilizadas pela indústria nacional tinham de ser importadas. ?Esses equipamentos são capazes de produzir superfícies tão lisas que a diferença entre o ponto mais alto e o ponto mais baixo (ondulação) deste plano chega a ser 50 mil vezes mais estreita do que um fio de cabelo?, comenta Fiocchi.

O pesquisador explica que a tecnologia das máquinas de usinagem de ultraprecisão foram desenvolvidas inicialmente no Japão, mas o protótipo criado por ele nos laboratórios da Unesp não são uma mera cópia. ?Usamos tecnologia totalmente nacional, com um custo muito menor e com capacidade de produzir peças metálicas num tempo de três a dez minutos, muito mais rápido do que qualquer outro processo existente hoje em dia?, salienta.

Ultraprecisão

No protótipo, foram investidos R$ 60 mil, valor bem inferior ao custo de aproximadamente R$ 230 mil de um modelo similar importado. Se a lapidoretificadora começar a ser produzida comercialmente no Brasil, a ideia é que possa ser vendida ao menos pela metade do preço dos exemplares existentes no mercado.

?Para isso, espero que fabricantes de equipamentos de usinagem se interessem pelo projeto. A ideia é que a gente possa, inclusive, exportar este tipo de produto, que possui um valor agregado muito grande?, adianta.

Fiocchi destaca que a demanda por este tipo de equipamento é crescente, justamente pelo bom momento vivido pelo País e por possuir aplicações em setores diversificados da indústria. Somente o segmento que produz bombas d?água, por exemplo, movimenta milhões na economia todos os anos, impulsionado principalmente pelo aquecimento do setor imobiliário. ?Todo prédio precisa de bomba para levar água até as caixas d?água. E toda bomba possui um retentor, que precisa ser extremamente plano e liso, para impedir qualquer vazamento?, argumenta.

Inicialmente, a lapidoretificadora idealizada pelo professor funciona apenas para a produção de componentes metálicos. Mas, nos próximos dois anos, a intenção é que ela seja adaptada também para usinar cerâmica.


Pesquisa

Nascido em Bauru e com apenas 30 anos de idade, Arthur Alves Fiocchi começou a idealizar a lapidoretificadora em 2008, quando iniciou seu mestrado na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru. Os estudos foram supervisionados pelo professor Luiz Eduardo de Ângelo Sanchez. Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o protótipo já está patenteado e a intenção é começar a produzi-lo comercialmente assim que um fabricante de equipamentos de usinagem de ultraprecisão se interessar pelo projeto.

Atualmente, Fiocchi trabalha em sua tese de doutorado, que está sendo desenvolvida na Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos, com o objetivo de adaptar a lapidoretificadora para produzir peças de cerâmica. A pesquisa, orientada pelo professor Carlos Alberto Fortulan, deve ser concluída em 2013.


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"Papa" da usinagem firma parceria com Bauru

Um dos nomes mais respeitados do ramo de usinagem de ultraprecisão no mundo, o empresário americano Ioan Marinescu, professor da Universidade de Toledo (Ohio, EUA), esteve em Bauru nas duas últimas semanas para ministrar um curso aos alunos de pós-graduação da faculdade de engenharia mecânica da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e ainda firmar novas parcerias com a instituição de ensino.

Com nove livros publicados e 35 anos de carreira, Marinescu pretende voltar a Bauru nos próximos anos para um curso de maior duração, direcionado aos estudantes de doutorado da Unesp. Além da troca de conhecimento, o objetivo é que esta parceria permita que as duas universidades iniciem um intercâmbio de alunos entre os dois países.

?Foi graças ao desenvolvimento da lapidoretificadora que conseguimos esta aproximação com o professor Marinescu, que é um "papa" em acabamento de ultraprecisão. Em parceira com um grupo japonês, ele desenvolveu a melhor tecnologia existente no mundo nesse ramo?, comenta o professor Arthur Alves Fiocchi, que estabeleceu os primeiros contatos com o americano em 2008.

Além da parceria acadêmica, a amizade renderá ainda a publicação de um texto de Fiocchi e dos professores Luiz Eduardo de Ângelo Sanchez (Unesp-Bauru) e Carlos Alberto Fortulan (USP-São Carlos) na segunda edição do livro ?Retificação e Polimento de Cerâmica?, organizado por Marinescu, que deverá ser editado em 2013.

Conforme revela Marinescu, além de escrever livros, ele permanece dedicado ao ensino, pesquisa e prestação de serviços à indústria de todo o mundo. "Minha principal ênfase está na pesquisa e em como transferir esta tecnologia desenvolvida em laboratório para a indústria nacional e internacional, para que ela se progrida cada vez mais e se mantenha competitiva", resume. Segundo ele, os segmentos mais beneficiados são o automotivo, de semicondutores e eletrônicos, ótico e aeroespacial.