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Folha de Boa Vista online

Professor da USP quer incentivar e popularizar estudo de matemática

Publicado em 12 dezembro 2006

Quem gosta de matemática? Se existisse um concurso de popularidade de matérias escolares entre os alunos brasileiros a matemática ficaria em último lugar. Para reverter essa aversão que a população tem pelos cálculos, o professor Orlando Stanley Juriaans, da Universidade de São Paulo (USP), esteve em Boa Vista. Ele tem doutorado em Matemática pela USP e pós-doutorado pela University of Alberta e Memorial University of Newfoundland (Canadá).
A vinda do matemático faz parte do programa de cooperação do Departamento de Matemática da UFRR (Universidade Federal de Roraima). Durante uma semana, Orlando Stanley ministrou minicursos e palestras, além de ter participado de conversas com os colegas de Roraima e acompanhou as pesquisas feitas por eles. "Esta é a segunda vez que venho a Roraima. Viso auxiliar o Departamento de Matemática na formação de jovens e qualificação de professores", disse Orlando.
A popularização da matemática, segundo ele, passa por uma nova postura dos professores do Ensino Básico. "É preciso investir no crescimento do professor do Ensino Básico. Ele é que passa mais tempo com os alunos e tem condições de mostrar que a matemática está presente no dia-a-dia. Não é a universidade que tem que ir até a criança para tentar melhorar o conhecimento da 1ª a 4ª série. É a professora, a 'tia', que tem que fazer isso", explicou.
Quanto ao nível dos cientistas brasileiros, o professor afirmou que existe um paradoxo nesta questão. A dificuldade já constatada dos estudantes pela matéria não faz jus ao reconhecimento que os brasileiros adquirem constantemente nesta área.
"Existem cinco grupos formados por países que têm alto nível científico. O Brasil está no segundo grupo. Só fica atrás de Estados Unidos, China e alguns países que têm muita tradição na ciência. Além do mais, a atuação do Brasil no estudo do genoma humano é referência mundial", comentou.
O conhecimento científico brasileiro também pode ser avaliado pelo desempenho dos alunos brasileiros que participam de Olimpíadas Internacionais de Matemática. "Em todas as Olimpíadas Internacionais temos alunos brasileiros sendo premiados", observou.
A realização de Olimpíadas de Matemática nas escolas públicas, segundo ele, pode elevar o Brasil a outro patamar de estudos da matéria. "Quando a SBM [Sociedade Brasileira de Matemática] apoiou o projeto do professor Lucas Barbosa, da UFC [Universidade Federal do Ceará], de realizar as Olimpíadas de Matemática das escolas públicas no Brasil, deu a oportunidade de se descobrir novos talentos para a ciência brasileira", destacou.
Sobre a falta de capacidade do país em garantir a permanência dos cientistas de ponta brasileiros que encontram melhores condições de trabalho no exterior, o professor acredita ser impossível para o país competir com o poder econômico dos países desenvolvidos. "Não tem como fugir disso. Mas existem muitos órgãos que investem muito em conhecimento, como por exemplo, a Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo]. Esta fundação emprega 1% do ICMS do Estado de São Paulo para financiar pesquisas. Tem dinheiro, o que falta são bons projetos", disse.
A vinda do professor a Roraima faz parte de uma parceria com o Departamento de Matemática para desenvolver a disciplina e promover a discussão de duas matérias de pesquisa: a Álgebra Colombeau e o Código de Correção de Erros.
O professor também desenvolve a Matemática Aplicada e a Moderna Matemática e quer dividir o conhecimento com os professores da UFRR. "Estes estudos são importantes, mas o que quero despertar aqui no Estado é o comprometimento com um projeto que será transformador. A reestruturação do curso de Pedagogia, capacitando o professor de 1ª a 4ª série à aplicação de um estudo mais profundo de matemática e português. O aluno hoje passa por essas séries básicas sem encontrar dificuldades, mas quando entra na 5ª série recebe um choque porque o estudo, de matemática especificamente, sobe de nível e geralmente o estudante não consegue acompanhar essa mudança. A declamada aversão do brasileiro pela matemática começa aí", explicou.
Orlando Stanley discorda de quem prega a revolução na educação apenas pelo acesso à universidade. "Não concordo com a idéia de que só o ensino de profissões tradicionais vai promover uma mudança no Brasil. Formaremos, neste caso, uma legião de burocratas. É preciso que se dê dignidade a todas as profissões. Para você ser um mecânico de carros, por exemplo, tem que acumular muito conhecimento e o importante é que esse conhecimento seja valorizado e permita ao profissional viver dignamente", explicou.
Partilha - Segundo o professor do Departamento de Matemática da UFRR, Severino Cirino de Lima Neto, a vinda do professor Orlando Stanley foi promovida para dar a chance da comunidade acadêmica compartilhar um conhecimento de alto nível.
Cirino destacou ainda o auxílio que Orlando Stanley vem dando aos professores de Roraima. "Os professores Joselito Oliveira e Manoel Fernandes Araújo estão concluindo o doutorado e mestrado na USP e na UFPB, respectivamente, com orientação do professor Orlando", comentou.