Notícia

Cruzeiro do Sul

Produzindo e controlando energia

Publicado em 15 agosto 2018

A sustentabilidade é um novo conceito de vida. “Nunca consegui aceitar a forma como tratamos os resíduos no Brasil”, diz a empresária Flávia Lessa. Mineira de Belo Horizonte, ela veio parar em Sorocaba para desenvolver a Gasgrid, a empresa que criou, como conceito, há cinco anos e está incubada no Parque Tecnológico de Sorocaba (PTS) há um ano, usando o laboratório da Faculdade de Engenharia de Sorocaba (Facens).

São duas as propostas; a primeira é a captação de gás metano, produzido pela decomposição do lixo, em aterros sanitários, e sua distribuição. Comumente, o metano é queimado no próprio aterro, um desperdício que aumenta o efeito estufa. “No mundo é superusado, nos Estados Unidos isso é obvio.

A gente não está aqui como professor Pardal, mesmo porque não sou engenheira. O propósito é trazer essas tecnologias já consolidadas para usar um bem que é nosso e é desperdiçado”. A segunda, a produção de metano a partir do uso da vinhaça (resíduo da produção de cana-deaçúcar), o biometano. “Ele não está no ambiente, como o petróleo”. Flávia e sua equipe realizam essa geração em campos de testes no PTS — que em breve serão ampliados para uma área anexa, com 2,8 mil m2. É uma das primeiras iniciativas de geração e comercialização de gás metano do Brasil.

Esse cuidado garantirá vida longa à empresa — que não pode ficar atrelada apenas ao produto gerado pelos aterros — mas, principalmente, dará ao país o know-how de produção de um combustível zero carbono, que não polui o meio ambiente. Sua equipe, hoje com 12 profissionais, já toca um contrato com o Aterro Sanitário de São Paulo — depois de uma luta de dois anos para conseguir a liberação, via licenciamento ambiental, para uso do metano que até então era queimado. “É nossa primeira fonte de biogás. Estamos trabalhando para geração de energia a partir do metano neste segundo semestre, para uma empresa que ainda não podemos divulgar o nome, e de biometano no ano que vem”, conta. A ideia deixou de ser somente dela. “As pessoas que fazem a Gasgrid são de Sorocaba. O negócio não é mais meu. É de todo mundo que está aqui”, diz, referindo-se à sua equipe. Em janeiro deste ano, Flávia mudou-se para a cidade ao lado do marido, que também é engenheiro da empresa, e da filha pequena.

Energia fotovoltaica controlada à distância

Advogada por formação, com especialização em finanças e administração de empresas, Flávia trabalhava como consultora na área de novos negócios, antes de se aventurar pelo universo do gás metano. “Isso nasceu de uma empatia que tenho pelos catadores de resíduos. Fui para aterros, lixões, usinas, entender o mundo deles. Para mim é inaceitável a maneira como eles são tratados.”

Ainda consultora, e em contato com uma equipe multidisciplinar que ela mesma formou entre colegas de várias nacionalidades, a partir do MBA que cursou na Espanha, Flávia passou a pensar como fazer desse conceito uma realidade no Brasil, sem deixar de lado o viés social. “Tinha que ter algum propósito. Não podia ser simplesmente para ganhar dinheiro. temos um projeto guardado para os catadores”, revela. Para corrigir a eletricidade O que começou como curiosidade levou Jefferson Aparecido Dias, 39 anos, a fazer seu doutorado em engenharia elétrica no campus de Sorocaba da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

O elevador quebrado de uma escola municipal de Itu o desafiou a estudar mecatrônica e os últimos dez anos da vida de Dias foram dedicados ao estudo, conciliando as pesquisas para o mestrado e doutorado e os afazeres de professor universitário. Hoje, além de ter aprendido a fazer a manutenção do elevador, ele está à frente de vários projetos de automação e tecnologia. Depois da energia gerada nas hidrelétricas, a solar está em segundo lugar em termos de geração. Ela é o resultado do contato da luz com placas fotovoltaicas. A energia é produzidas na forma de corrente contínua, que precisa ser transformada em corrente alternada, a que usamos em nossas casas e nas indústrias. O que faz essa transformação é um aparelho chamado de conversor de corrente. Do inversor, a corrente elétrica vai para os pontos de consumo (lâmpadas, geladeira, computador, etc). Ganhando créditos O excedente produzido pode ser conduzido para a rede de alimentação, os fios que estão nos postes. Essa sobra é “comprada” pela distribuidora (no caso de Sorocaba, a CPFL), que paga em forma de créditos. Quando chega a noite e a geração de energia é interrompida pela falta de luz solar, utilizamos estes créditos gerados durante o dia para o abatimento da energia consumida no período. Se ainda houver sobra de créditos, eles podem ser usados para pagar a conta em outra casa ou indústria, que esteja em nome do mesmo CPF.

Agora, imaginemos que a companhia elétrica vai fazer manutenção na rede, e desliga a energia de todo um quarteirão. Mas, naquela quadra há um produtor de energia jogando seu excedente na rede - o trabalhador que for mexer nos fios vai tomar um choque. Ou, talvez o produtor da energia queira, à distância, controlar o processo, desligar a saída de energia, saber se está tudo funcionado direito. Com o sistema que Dias está desenvolvendo, ainda de maneira teórica, há quatro anos, tanto a companhia elétrica poderá, à distância, interromper a entrada daquela energia na rede, quanto o produtor poderá saber o que está acontecendo na sua casa. Com conexão sem fio, é claro.

Os inversores atuais não são wireless O professor explica que atualmente os sistemas existentes são fechados, por não possuírem a possibilidade de conexão wireless. “Se você não pode conectar o sistema de qualquer local temos aí um problema, pois foge da realidade futura, que vai exigir conexão rápida e à distância”, conta. Os inversores disponíveis no mercado não possuem conexão por rede sem fio e a proposta do pesquisador são duas maneiras distintas de conseguir essa interação.

Uma delas é o ZigBee, que pode ser utilizado em ambientes industriais, devido ao grande alcance entre dispositivos. A outra opção de conexão apresentada por Dias é por WLAN — uma forma de conexão de internet sem fio que utiliza transmissores em ondas de rádio — com menor alcance (100 metros), e por isso é ideal para residências. Outra questão posta é a qualidade da energia produzida. O excedente tem que ser colocado na rede numa forma senoidal pura (uma senóide é uma curva matemática que descreve uma oscilação repetitiva suave, sendo esta uma onda contínua), igual à que é distribuída pela empresa de fornecimento. Jefferson Dias conta que o sistema também equalizará e equilibrará as ondas de energia gerada em seu formato mais puro.

Alguns dispositivos atuais, aponta Dias, acabam deformando essa onda. Com a aplicação das pesquisas de Dias, será possível, além de obter economia, contribuir com o meio ambiente e assim beneficiar toda a população, tornando a energia elétrica mais acessível. Em breve Dias deve concluir o doutorado e após a publicação, o projeto fica disponível para os interessados em desenvolvê-lo. “É possível buscar auxílio na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) também, mas a minha satisfação é ter, de alguma forma, contribuído com a evolução para o acesso à energia elétrica”, relata.