Notícia

Revista Globo Rural

Produtos e mercados

Publicado em 01 fevereiro 2012

Empreendedorismo

A paixão pela terra Roberto Caracas herdou do pai, também agrônomo. Dedicado aos estudos, o jovem passou da graduação ao mestrado e tinha tudo para prosseguir como pesquisador bem-sucedido - não tivesse ele sido picado pelo bichinho do empreendedorismo, O primeiro estalo" veio quando tocava a área de fitossanidade e mudas da Secretaria de Agricultura do Ceará, em 2000. "Os produtores se queixavam muito da qualidade das mudas, sem padrão e cheias de doenças", lembra. Três anos depois, foi contratado pela multinacional Del Monte e teve a certeza de ter topado com um nicho que Vasconcelos carecia de exploração. "Vi a empresa instalar 1,300 hectares só com mudas de abacaxi vindas da Costa Rica e pensei: 'Como e que pode?'". A resposta ele acabou obtendo com o auxílio de uma incubadora de empresas.

Em 2008, ao saber de um edital aberto pela Embrapa para a transferência de tecnologia de clonagem de mudas, o empreendedor ingressou na incubadora do Instituto Centro de Ensino Tecnológico (Centec), em Fortaleza (CE). Nascia assim a Bioclone, que hoje multiplica cana-de-açúcar, banana, abacaxi e flores tropicais, ofertando materiais de altíssima qualidade. "A Embrapa me deu a tecnologia e o Centec as orientações de gestão", diz,

Foi há seis anos que a Embrapa decidiu criar o Programa de Apoio ao Desenvolvimento de Novas Empresas de Base Tecnológica Agropecuária e à Transferência de Tecnologia (Proeta), a fim de aproximar empreendedores da instituição. O caminho escolhido para que o conhecimento gerado por pesquisadores chegasse ao mercado foram as incubadoras - e, hoje, 42 são associadas à Embrapa no Brasil, "Temos aperfeiçoado o Proeta, na tentativa de enxugar ao máximo o processo, por vezes burocrático, de uma empresa pública como a nossa, porque sabemos que o mercado tem urgência", explica Genésio Vasconcelos, coordenador do programa no Nordeste, Até mesmo o modo com que os estudiosos conduzem seus trabalhos mudou. "Ás vezes, não levávamos em conta o custo de produção na elaboração de um projeto, mas com o empresário é diferente, ele quer alta qualidade e eficiência com o menor custo possível", afirma Ana Cristina Portugal, pesquisadora da Embrapa Agroindústria Tropical, que ajudou a Bioclone a adaptar variedades.

O sucesso meteórico da recém-nascida produtora de mudas inspira o setor de incubação de empresas, que acolhe jovens empreendimentos inovadores até que possam fazer voos solos, Segundo a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), há quase 400 incubadoras no país (40 delas dedicadas exclusivamente ao agronegócio) e 6,300 empresas entre incubadas e graduadas. A Bioclone já captou R$1 milhão em projetos de subvenção, o que permitiu a exploração de plantas que não eram o foco da Embrapa - como cana e abacaxi ornamental - e o uso de um biorreator, que potencializa o ganho de escala, "Na cultura de tecido convencional, um rizoma de banana rende de 150 a 200 mudas em seis meses. Com o biorreator, esse número salta para 1,000 mudas", compara o empresário, Também um laboratório de 900 metros quadrados está sendo construído em Eusébio (CE), com o investimento de R$ 800 mil do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), A inauguração está prevista para fevereiro e a capacidade de produção será de 7 milhões de mudas ao ano.

A biomédica paulista Débora Colombi também deixou os bancos da academia, onde obteve seu pós-doutorado em genética, para constituir o próprio negócio. Em 2007, enquanto prestava consultoria a uma usina sucroalcooleira, descobriu que é comum haver uma seleção ao longos dos anos das cepas de leveduras que são boas produtoras de álcool, mas outros tipos desse micro-organismo podem invadir a reação, Uma técnica chamada cariotipagem costuma ser usada para identificar qual levedura domina a fermentação - a mais eficiente ou a indesejada, "O problema é que os resultados da análise levam 20 dias, inviabilizando uma intervenção rápida", diz, Foi então que ela atinou com a possibilidade de usar modernas técnicas de biologia molecular para fazer essa identificação em prazo menor,

Após consultar diversas usinas, Débora concluiu que sua ideia era rentável e procurou a Prospecta, incubadora de Botucatu (SP), para criar a Genotyping. Com uma técnica de análise de DNA, a empresa identifica qual levedura está no tanque de fermentação em três dias úteis. Os recursos iniciais para a Genotyping vieram da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). "As agências de fomento nos veem com outros olhos por estarmos em uma incubadora. Já passamos por um crivo, provamos que o que fazemos é inovador", afirma a biomédica.

Fundada há seis anos, a Prospecta reflete a pujança de Botucatu, onde estão quatro unidades da Universidade Estadual Paulista (Unesp). "O conhecimento gerado em dissertações e teses aqui é imenso. Então decidimos dar vazão a esse potencial", afirma Antônio Vicente da Silva, gerente da incubadora. Por isso, a Prospecta transformou em hábito a verificação periódica de quantas dessas produções científicas têm apelo de mercado, com potencial para originar novos negócios. Até o momento, já foram captados R$ 4,375 milhões em recursos, com 19 empresas graduadas e 18 sob tutela. Esse trabalho acabou por estimular o surgimento de um parque tecnológico na cidade, e a Prospecta terá uma área de 800 metros quadrados para a pós-incubação,

As incubadoras estão em crescimento no país desde 1980, tendo alcançado o ápice no começo da década de 2000. De início, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) injetou pesados investimentos. Mas, segundo Francilene Garcia, presidente da Anprotec, muitas incubadoras tiveram de passar por revisões depois do boom. "Em 2003, havia na Paraíba, por exemplo, 12 incubadoras. Hoje, são seis", afirma ela, que também dirige a Fundação Parque Tecnológico daquele Estado. "O setor está mais maduro, o cenário hoje é mais realista", conta.

Para equacionar problemas do passado, a Anprotec e o Sebrae criaram, em 2008, um novo modelo para profissionalizar a gestão das incubadoras: o Centro de Referência para Apoio a Novos Empreendimentos (Cerne), "Muitas empresas tinham bom desempenho na incubação, mas não conseguiam permanecer no mercado com sucesso, apesar de altos investimentos", diz Maria de Lourdes da Silva, analista de inovação e tecnologia do Sebrae.

Com a ampliação da capacitação trazida pelo Cerne, a entidade marcou a volta ao segmento com um novo edital, em novembro de 2011. E que mais celeiros de boas ideias prosperem, para o bem do setor rural no país.