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Produção pecuária já é afetada por mudanças climáticas

Publicado em 16 abril 2019

Por  Caroline Aragaki | Jornal da USP

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O aumento das temperaturas médias esperado para as próximas décadas, de no mínimo 2º C, pode ter um impacto inesperado no bolso dos pecuaristas. Novos estudos sugerem que um dos efeitos da mudança no clima será a redução na qualidade da pastagem, que se tornará menos proteica, mais fibrosa e, portanto, de digestão mais demorada. Como consequência, disseram os pesquisadores, o gado precisará consumir mais alimento para alcançar o peso de abate e passará a produzir mais metano, um potente gás causador do efeito estufa. As conclusões têm como base experimentos feitos por pesquisadores da USP. Para saber mais sobre a descoberta, o Jornal da USP no Ar conversou com o professor Carlos Alberto Martinez Y Huaman, do Departamento de Biologia da USP em Ribeirão Preto.

A pesquisa começou em 2011 como um projeto temático pela Fapesp. A partir dela, descobriu-se que as mudanças climáticas ocasionam redução na qualidade das pastagens. “O problema das mudanças climáticas são os efeitos extremos, que já estão acontecendo com muita frequência e de maneira intensa”, afirma o professor, que exemplifica com o fator de temperatura muito baixa ou alta. Esse indicador pode causar dessincronia na polinização, “algo que causou problemas sérios na agricultura dos Estados Unidos”.

No Brasil, os períodos de seca prolongada e estiagem estão sendo mais frequentes, tendo a consequência de menor consumo de pasto para o animal. “Alguns pecuaristas já perceberam esse problema e estão tomando medidas, por exemplo, de irrigar as pastagens.” Um pré-requisito dessa medida é ter água disponível, material de biomassa suficiente para o gado.

De acordo com Huaman, “as plantas enfrentam situação extrema de clima e tentam sobreviver, acumulam massa e se tornam mais resistentes, fazendo uma alteração no metabolismo, se ajustando para que consigam enfrentar situações difíceis do ambiente. Quando existe água suficiente, o material se torna de maior qualidade e o gado vai poder aproveitar mais”. Além da queda da biomassa, outro problema advindo das mudanças climáticas é a queda da qualidade dessa biomassa, o que pode fazer com o que o gado tenha que consumir mais pasto do que o comum ou ter suplemento alimentar.

O terceiro fator de preocupação consiste na condição de trocas gasosas com as plantas e atmosfera. “O problema advém da ingestão do pasto no intestino do animal. O rúmen, que é o primeiro estômago do boi [que tem quatro estômagos] produz gás na fermentação. Essa fermentação faz com que parte desse material produza metano, trazendo consequências para o meio ambiente”, comenta o especialista. O metano é um dos principais gases que contribuem para o desequilíbrio do efeito estufa.

Para o professor, a sociedade está meio despreparada para essas mudanças climáticas. “A gente achava que isso ia acontecer daqui 20, 30, 50, 100 anos, mas na verdade já está acontecendo. Há evidências em centros florestais.“ Ele comenta sobre a perda de cultivo na Alemanha por conta da seca prolongada e de incêndios florestais no Canadá e Estados Unidos.

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