Notícia

Economia Interativa

Produção de tecnologia, fosso a saltar

Publicado em 27 setembro 2008

Relação frágil entre as universidades e as empresas deixa o País em posição inferior no mundo

Ao mesmo tempo em que comemora o crescimento constante de sua produção científica, que hoje corresponde a 2,02% do índice global, o Brasil ainda responde apenas por 0,06% do número de patentes registrados no mundo, segundo a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). De um lado, o desenvolvimento do conhecimento parece funcionar a todo vapor, ganhando destaque entre os países da América Latina e assemelhando-se a países europeus, como Suíça (1,89%), Suécia (1,81%), Holanda (2,55%) e Rússia (2,66%). Do outro, uma produção tecnológica que ainda parece deixar muito a desejar se comparada à de países como Coréia do Sul (0,79%), Itália (1,31%), França (2,96%) e Japão (22,67%).

Essa disparidade também foi comprovada por um estudo desenvolvido pelo Bird (Banco Mundial) e divulgado no dia 11 de setembro passado. De acordo com o documento, o Brasil está ficando para trás na comparação com outros países em desenvolvimento quando se trata de converter conhecimentos em resultados práticos. Um dos motivos é o baixo investimento do País em pesquisa e desenvolvimento. Enquanto o setor brasileiro recebe apenas 0,98% do PIB (Produto Interno Bruto), a China aplica 1,22% do seu PIB em inovação. Não à toa, o Brasil fica atrás de seus principais concorrentes no mercado internacional: Coréia do Sul, China, Índia e Rússia.

Mas será que há uma conscientização das universidades e das empresas a respeito da situação? Qual é o papel de cada uma delas nesse processo? Existe uma integração entre esses dois mundos que durante anos viveram separados? São essas as respostas que precisam ser encontradas para que se possa traçar um panorama e uma estratégia para estreitar as relações entre o setor produtivo e acadêmico no Brasil. Uma das saídas que, na visão dos especialistas, ajudaria o País é equalizar e impulsionar sua produção científica e tecnológica.

Empresas e academia trocam papéis

Segundo a gerente de comunicação e planejamento estratégico da Inova Unicamp (Agência de Inovação da Universidade de Campinas), Patrícia Magalhães de Toledo, basta analisar o cenário da relação entre universidade e empresa nos países desenvolvidos para justificar a força que essa união pode representar para a criação de tecnologias. “Nos Estados Unidos e na Alemanha, por exemplo, há uma igualdade entre os índices de produção científica e tecnológica, graças a essa interação. E não é à toa, portanto, que eles disparam na frente e ocupam o topo do ranking mundial científico”, cita.

Outro fator que também diferencia a produção tecnológica brasileira desses países é sua dinâmica. “Há uma inversão dos papéis no sistema brasileiro”, acredita Patrícia. De acordo com ela, enquanto as empresas são as maiores detentoras de patentes no mundo, no país quem ganha destaque nesse quesito são as universidades. O presidente da Capes, Jorge Guimarães, também partilha da mesma idéia da gerente da Inova Unicamp. “No mundo desenvolvido, as patentes produzidas no segmento acadêmico não passam de 3%. No Brasil, o setor detém 27% dos registros”, aponta.

No último estudo do INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) sobre o setor, inclusive, quem assume a liderança no registro de patentes é uma universidade. No ranking, a Unicamp ultrapassa empresas de grande potencial tecnológico, entre elas Petrobras, Multibrás e a Embraer, e ocupa a primeira colocação. UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), USP (Universidade de São Paulo), UFRJ (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Unesp (Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho), UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e UFV (Universidade Federal de Viçosa) também aparecem com destaque na lista dos maiores depositantes do Brasil.

O número de pesquisadores de pesquisadores no setor industrial também pode comprovar a baixa participação do setor empresarial no desenvolvimento tecnológico. “Mais de 70% desses profissionais brasileiros estão alocados nas universidades, apenas 10% deles estão na indústria e 15%, no governo. Nos Estados Unidos, por exemplo, 80% dos pesquisadores estão na indústria, 12% nas universidades e 18% no governo. Nos Estados Unidos, por exemplo, 80% dos pesquisadores estão na indústria, 12% nas universidades e 18% no governo. Na Alemanha há uma situação equivalente à americana”, compara Patrícia.

Para o diretor científico da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Henrique de Brito Cruz, os dados apontados só comprovam que os grandes responsáveis pela produção de patentes investem pouco em pesquisas. “É um erro acreditar que as patentes devam ser geradas pelas universidades. As instituições de ensino produzem artigos e formam estudantes. Já as empresas produzem riqueza e patentes. Isso, porém, não quer dizer que universidades não possam registrar inovações e que uma não possa colaborar com a outra. Pelo contrário, suas funções se complementam”, explica.

No entanto, a coordenado ra da academia de Propriedade Intelectual e Inovação do INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), Rita Pinheiro Machado, acredita que não é só a tímida participação das empresas, principalmente das privadas, na produção tecnológica que justifica a baixa colocação brasileira nas pesquisas mundiais.

“Falta também disseminar no país a cultura da propriedade intelectual. Não há, por parte da grande maioria das empresas e principalmente dos pesquisadores, a preocupação em registrar e proteger suas idéias e projetos”, enfatiza. “É preciso, portanto, mudar o comportamento dos agentes que estão envolvidos na produção do conhecimento e da tecnologia”.

Na opinião do diretor do CDT/UnB (Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Universidade de Brasília), Luis Afonso Bermúdez, é fundamental que as mudanças ultrapassem os limites comportamentais. “Para mudar o cenário brasileiro atual, precisa-se também que haja uma transformação nos paradigmas, tanto da academia quanto do setor empresarial”, afirma. Ao mesmo tempo em que falta por parte de algumas empresas o reconhecimento de que a universidade pode ser uma parceira no incremento da sua competitividade, há também uma deficiência em certas instituições de ensino em abrir suas portas e tornar seus conhecimentos em inovações para a sociedade.

Mas apontar o culpado para a situação brasileira não é o caminho. “O ideal é que as universidades e as empresas reconheçam o poder que podem ganhar se trabalharem juntas, ao invés de isoladas”, recomenda Bermúdez. Enquanto as universidades devem colaborar com a formação de Recursos Humanos altamente capacitados e ainda com a produção do conhecimento, as empresas precisam transformar tais conhecimentos em produtos e, conseqüentemente, em inovação.

Apesar de o Brasil estar longe do cenário ideal e de alcançar os países em desenvolvimento, não se pode ignorar sua evolução em direção ao desenvolvimento da relação universidade e empresa. Uma interação que, segundo o secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do MCT (Ministério de Ciência e Tecnologia), Guilherme Henrique Pereira, começou a dar seus primeiros passos com a criação da Lei de Inovação, em 2004. “A iniciativa, além de levar a discussão à tona em todo território nacional, fornece diretrizes tanto para as empresas quanto para as universidades, principalmente para as públicas, no que diz respeito à produção científica e tecnológica do país”, afirma.

Patrícia, da Inova Unicamp, concorda com o secretário e acredita que a lei tenha sido uma mola propulsora para a promoção desse relacionamento entre setor acadêmico e produtivo e, conseqüentemente, para a impulsão do desenvolvimento científico e econômico brasileiro.

 “Essas normas aproximaram os dois mundos. As iniciativas de interação entre eles, antes de 2004, eram isoladas. Mas o tabu que impedia esse relacionamento aos poucos está sendo quebrado, principalmente por conta da conscientização e do estimulo que a lei vem proporcionando aos dois lados”.

A mesma ação foi toma da pelo governo americano na década de 1980. “Esta mos vivendo o mesmo momento que os EUA viveram há 20 anos. A nossa Lei de Inovação foi, inclusive, inspirada pela legislação norte-americana. As mudanças que geraram lá no decorrer desse tempo, iniciam-se agora aqui”, afirma Patrícia, que aponta esse atraso como uma das justificativas para as desigualdades científicas dos dois países. “Não se pode esquecer ainda que as universidades brasileiras são muito novas se comparadas às estrangeiras. Nossas instituições completam cinqüenta anos, enquanto outras já comemoram o centenário”, completa Guimarães.