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Correio Popular (Campinas, SP)

Produção com preservação é meta possível, revela projeto

Publicado em 11 agosto 2021

Por Cibele Vieira

Uma mata rica e farta, de onde saem alimentos, remédios, temperos e até perfumes. Mas se não cuidar, ela acaba. E assim foi durante muitas décadas na Mata Atlântica: entra, tira, vende, devasta. Hoje, essa que é considerada a floresta mais rica em diversidade de espécies do planeta, mantém apenas 12% de sua vegetação original. E foi justamente nesse local que ciência e indústria juntaram suas experiências para colocar em ação um projeto de uso da biodiversidade com conservação ambiental.

 

 

Óleo essencial de pimenta deu origem a fragrância inédita Para entrar na mata e sair com perfumes foram necessários 12 anos de pesquisas e desenvolvimento, numa parceria entre o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e a Natura, multinacional brasileira de cosméticos. Os pesquisadores foram buscar amostras de plantas cheirosas na mata, avaliaram seu óleo essencial, levaram para o laboratório, testaram e catalogaram. Os perfumistas selecionaram e foram produzidas mudas para plantio em larga escala, possibilitando o lançamento de perfumes no período entre 2018 e 2021, com o óleo essencial de uma pimenta da Mata Atlântica.

 

A pesquisadora do Centro de Pesquisa de Recursos Genéticos Vegetais do IAC, Márcia Ortiz Mayo Marques, relata que o maior desafio foi possibilitar o cultivo das espécies em escala comercial sem tirar da mata, mantendo as plantas nativas preservadas. Se a Natura ganhou mercado com fragrâncias inéditas na perfumaria mundial- produzidas pela primeira vez usando o óleo essencial de Piper (uma pimenta da Mata Atlântica)- a Ciência catalogou e montou uma importante coleção de espécies aromáticas que produzem óleos essenciais.

 

Marcia diz que o levantamento detalhado dessas plantas é inédito e lembra que as análises dos óleos essenciais poderão ser utilizadas como base para novas pesquisas nas áreas farmacêutica e agrícola, entre outras possibilidades. `` Temos no Brasil a maior diversidade vegetal do mundo, com possibilidades de fontes de corantes, óleos vegetais, gorduras, fitoterápicos, antioxidantes e óleos essenciais para os setores de produção ”, diz a pesquisadora. Mas sem conhecimento científico, podem ser perdidas oportunidades da adoção sustentável da riqueza natural brasileira, composta por 46.355 mil espécies catalogadas, de um total estimado entre 350 mil e 550 mil espécies.

 

O passo a passo da ciência Uma imersão na biota na Mata Atlântica realizada pela equipe do IAC, iniciada em 2006, buscava espécies nativas com potencial aromático RESPONSABILIDADE AMBIENTAL Produção com preservação é meta possível, revela projeto Parceria entre IAC e Natura explora espécies da Mata Atlântica sem agredir o bioma e, após três anos, foi constituído um banco de espécies com mais de 100 plantas catalogadas. Elas receberam identificação botânica, caracterização genética com marcador molecular, além da análise de composição química dos óleos essenciais. Nos quatro anos seguintes, foram selecionadas 11 de interesse da perfumaria e, destas, quatro passaram por desenvolvimento agronômico, para a produção de mudas, padronização e plantio em grande escala.

 

Sob a liderança da pesquisadora Márcia Ortiz- formada em Química e pós-graduada em Fitoquímica-, o estudo buscou tecnologias sustentáveis para o manejo adequado da flora aromática nacional. As primeiras prospecções foram realizadas em reservas preservadas dentro das áreas do Instituto Agronômico e da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) e acompanhadas por uma equipe multidisciplinar que realizou análises químicas, olfativas, genéticas, taxonômicas e a fisiologia das plantas.

 

A segunda etapa da pesquisa focou na propagação das espécies selecionadas. `` A exploração comercial desses recursos genéticos deve levar em conta, além do fornecimento contínuo dos óleos essenciais, a fundamental conservação dos ecossistemas ”, a A pesquisadora Márcia Ortiz Mayo Marques, do IAC, em seu laboratório: `` Temos no Brasil a maior diversidade vegetal do mundo, com possibilidades de fontes de corantes, óleos vegetais, gorduras, fitoterápicos, antioxidantes e óleos essenciais ” A exploração comercial dos recursos genéticos deve levar em conta a conservação dos ecossistemas, conforme a cientista do IAC afirma Márcia. A equipe avaliou se, além dos fatores genéticos, os ambientais também influenciam a composição química dos óleos essenciais. E descobriu que as características desses óleos podem mudar de acordo com a região de cultivo das plantas. As informações resultantes da pesquisa viabilizam o uso sustentável das espécies, sua domesticação e cultivo, eliminando o impacto do extrativismo predatório.

 

A transformação em produto Até a etapa em que os óleos essenciais foram transformados em produto, vários estudos foram conduzidos, informa a pesquisadora Caroline Stii kel, da área de Ingredientes Naturais da Natura. `` A empresa desenvolveu um jeito único de fazer produtos, que une a prospecção de ingredientes da biodiversidade, o acesso ao conhecimento tradicional das comunidades e a ciência avançada, para chegarmos a fórmulas naturais com tecnologia e ativos potentes para o cuidado com a beleza e o impacto positivo ao meio ambiente. ”

 

Esta parceria resultou na descoberta de espécies nativas com diferencial olfativo e a tecnologia de cultivo foi transferida para a empresa. Duas delas foram desenvolvidas para integrar o portfólio de produtos, explica Stii kel, sendo que uma já foi lançada na Casa de Perfumaria do Brasil, com os perfumes Urbano (2018), Química do Humor (2019) e Essencial Oud Pimenta (2021).

 

Segundo o Time de Ingredientes da Natura, uma das maneiras de alavancar o desenvolvimento do país é o inFotos: Cedoc Para manter as florestas de pé é preciso conhecer as plantas, seus potenciais e saber cultivá-las. Márcia Ortiz vestimento em ciência e tecnologia, pois as empresas necessitam de inovação para se diferenciarem em seus mercados de atuação. Nesse cenário, a empresa encontrou no IAC o conhecimento e a experiência. A pesquisa foi financiada pelo programa Parceria para Inovação Tecnológica, por meio de um edital da Natura em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp).

 

O Instituto Agronômico recebeu duas premiações em reconhecimento por essa pesquisa. Em 2014, no Programa Ql icar- na categoria vilicar Desenvolvimento de Tecnologia- pela bi prospecção de ingredientes. Em 2010, já havia recebido o Prêmio de Inovação Tecnológica Natura Campus, pela pesquisa que resultou em um produto nacional.

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