Notícia

Gazeta do Povo

Produção científica no escuro

Publicado em 18 abril 2011

Por Vinicius Boreki

Embora tenha crescido em cerca de 70% o número de bolsas para mestrado e doutorado no país entre 2007 e 2009, não houve avanço nos filtros para evitar plágios e fraudes nas pesquisas e nos artigos produzidos por cientistas brasileiros. Mesmo com o aumento da produção científica, não há um controle dos trabalhos, o que deixa brechas para a ocorrência de plágios. As punições, nesses casos, são previstas pelas instituições, geralmente variando de advertências a expulsões. Os dados de 2010 não foram consolidados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Em 2011, duas situações mostraram a necessidade de maior controle das universidades e de acompanhamento do governo federal, no caso dos bolsistas. No fim de março, um químico do mais elevado grau de conceituação pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) foi acusado de fraudar onze estudos científicos (leia mais nesta página). Em fevereiro, a Universidade de São Paulo (USP) demitiu um professor da instituição, acusado de copiar imagens de trabalhos da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi a primeira exoneração por esse motivo em 15 anos.

Plágios e fraudes adquirem status de tabu entre as universidades do país e nenhuma das três paranaenses consultadas - Universidade Estadual de Londrina (UEL), Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) - diz conhecer casos de fraude em estudos científicos sob sua responsabilidade. Mesmo que a prática seja mais corriqueira na graduação, os plágios já preocupam em mestrados e doutorados. "Plágio é inadmissível e é ilegal, crime contra a propriedade intelectual. Deve ser coibida", defende Sergio Scheer, pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da UFPR.

Em uma tentativa de auxiliar as instituições, a Capes divulgou um documento com orientações, indicando a criação de comissões internas para averiguar a gravidade dos casos envolvendo plágios e fraudes. O pró-reitor de Pesquisa e Graduação da UTFPR, Luiz Nacamura Júnior, diz que é preciso orientar antes de punir. "Deve haver consciência do que é estudo bibliográfico. Se não é feito no nível inferior, deve ser feito em graus mais elevados da educação", relata. Para Maria Antonia P. C. Celligoi, diretora de pós­­-graduação da UEL, na avaliação dos trabalhos deve constar o controle de plágios. "A banca também é responsável por coibir", afirma.

Há unanimidade nas universidades sobre a maior facilidade em encontrar plágios do que fraudes. Certos softwares conseguem comparar projetos com um banco de dados de pesquisa, indicando a possibilidade de cópia dos textos já existentes. "Forjar resultados é mais complicado quando há o acompanhamento adequado do trabalho", opina Nacamura Júnior. "Mas, quando o assunto é inédito, é difícil descobrir se existe fraude", revela Maria Antonia.

Qualificação

Uma universidade consegue subir na avaliação da Capes caso aumente suas publicações científicas, um dos critérios levados em conta para definir a qualidade da instituição. "Basicamente, há indicadores de produção científica em periódicos de classificação importante. Em geral, olha-se os últimos cinco anos para ter conhecimento da produção", afirma Sergio Scheer, da UFPR. Esse parâmetro é levado em conta pelo Ministério da Educação (MEC), assim como o número de docentes doutores e mestres.

As três instituições, contudo, prometem empenho a fim de não mascarar dados com projetos e pesquisas fraudadas ou plagiadas. Um problema desse porte é prejudicial à imagem da instituição. "Sempre levanta a suspeição se os demais trabalhos foram realizados de forma ética", diz Scheer.

Publicações detectam plágios

Os jornais e revistas responsáveis pelas publicações científicas também abriram os olhos para a possibilidade de plágios e fraudes. O pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Física, entidade que publica o Brazilian Journal of Physics (BJP), Ronald Shellard, revela a necessidade de verificar todos os artigos enviados para a publicação. "Temos essa prática. Já detectamos plágio e as pessoas foram obrigadas a remover a submissão de artigos", diz. De acordo com Shellard, o BJP mudou de editora para ampliar os mecanismos de verificação.

Shellard argumenta que a progressão da ciência é inimiga dos plágios e fraudes. "Se a publicação não tiver dados reais, mais cedo ou mais tarde o pesquisador vai ser apanhado. Mas, no caso de uma fraude, é preciso um expert na área para notar irregularidades", explica. Ou seja, para obter reconhecimento no mundo da pesquisa, os estudos precisam necessariamente de validação de outros cientistas. Caso um pesquisador seja apanhado, ele não terá credibilidade perante a comunidade. "Cientistas não são melhores do que os cidadãos. Mas falsificar resultado é muito pior do que plagiar", diz.

USP melhora posição, mas falta qualidade

Segundo a Revista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a Universidade de São Paulo (USP) atingiu o 38.º lugar em um ranking mundial de universidades conhecido por Webometrics, avaliando critérios como volume, visibilidade e impacto do conteúdo científico existente no site da instituição. Em 2007, a USP ocupava a 97.ª colocação - um salto de 59 posições em quatro anos. O objetivo da pesquisa é medir a quantidade de artigos e produções científicas disponíveis ao público em um site. Outras duas instituições brasileiras são citadas: Unicamp na 115.ª posição e a Universidade Federal de Santa Catarina no 134.º lugar. Quando o critério muda para a qualidade, contudo, as instituições brasileiras garantem posições menos respeitáveis. A USP, por exemplo, obteve o 196.ª no Higher Education Supplement, do jornal britânico The Times e 121.ª pela Universidade de Shangai Jiao Tong.