Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Procuram-se técnicos

Publicado em 04 março 2018

Falar em emprego no atual momento econômico é, por si só, tratar de dificuldades. No entanto, escolher uma carreira e ingressar no mercado de trabalho no Brasil pode exigir esforços para enfrentar até o que parece um paradoxo.

Em meio ao desemprego, o mercado tem vagas de sobra para um tipo de profissional: o de nível técnico. A pesquisa de Escassez de Talentos 2016/2017 da ManpowerGroup, multinacional de seleção e recrutamento, dá uma ideia do cenário. Segundo os dados, 43% dos recrutadores entrevistados tiveram dificuldades para preencher cargos, o principal deles, técnicos de nível médio. "A gente vê essa realidade desde 2010, principalmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro- Oeste.

O Ensino Superior ficou mais acessível e, evidentemente, menos pessoas fazem o curso técnico. E, agora, com o crescimento da EaD (Educação a Distância), a tendência é que isso se intensifique", afirma Danielli Alfieri, gerente executiva do ManpowerGroup. Ela conta, por exemplo, que atende uma empresa na Baixada Santista que tem dificuldades em contratar técnicos mecânicos. E a saída encontradae que é uma solução adotada por muitas outras - foi realizar parcerias, como com o Senai, para qualificar a mão de obra.

PARADOXO

Cada vez mais o estudante ouve que o Ensino Superior é o básico atualmente. Por outro lado, a pesquisa aponta que pelo segundo ano consecutivo os técnicos de produção, operações e manutenção são os cargos mais dificeis de preencher, seguidos por profissionais de apoio ao serviço de escritório e operadores de produção e máquinas. Eles estão bem à frente dos profissionais de Tecnologia da Informação e analistas financeiros, por exemplo, que aparecem na lista, mas longe do topo.

Para o presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapesp), José Goldemberg, no Brasil valorizamos muito os cursos de quatro ou cinco anos, no que ele chama de "síndrome de doutor". Para ele, é necessário pensar em fortalecer o nível intermediário, até mesmo para garantir em pregabilidade.

Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) mostram que ainda andamos na contramão. Mesmo com a abertura do mercado para os técnicos, as matriculas para este nível chegaram, na Baixada Santista, por exemplo, a 28,3 mil. Já no Ensino Superior, o número já gira em tomo de 52 mil. "Temos que pensar em resolver algumas questões. Os salários, às vezes, são baixos e muitas vezes, o profissional não quer seguir uma carreira técnica que ele imagina que será substituída pela tecnologia. De fato, em alguns casos, isso vai acontecer. Mas não tão logo. Hoje, ainda precisamos muito do olhar humano nas atividades técnicas", garante Danielli.