Notícia

Diário do Comércio (MG)

Processo de inovação exige novo modelo de financiamento

Publicado em 02 novembro 2017

As adequações necessárias para que os processos de fomento à inovação atendam a um contexto de mudanças tecnológicas cada vez mais rápidas também foram discutidas no 16º Conferência Anpei de Inovação. Durante o painel “Políticas de Ciência Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento e Instrumento de Financiamento e Fomento Compatíveis: um novo modelo para o País”, o diretor da Anpei, Raimar van den Bylaardt, ponderou que o momento é de turbulência e que muitos dos instrumentos ainda colocados em prática já não fazem sentido atualmente.

Sendo assim, segundo ele, o que a sociedade espera é um novo tipo de fi nanciamento para acompanhar as profundas transformações pelas quais o mundo passa. “Os atuais sistemas de apoio à inovação que temos são jurássicos se comparados com a evolução do empreendedorismo e, portanto, não temos instrumentos de fi nanciamento para atender as novas empresas e os novos modelos de desenvolvimento que têm surgido”, afi rmou o diretor.

Para fazer frente a essa nova realidade, van den Bylaardt avalia que é preciso pensar em maneiras de fechar o ciclo da inovação e, para isso, são necessárias adequação dos fi nanciamentos à dinâmica do empreendedorismo, versatilidade e amplitude na aplicação dos recursos, agilidade na aprovação de projetos e liberação de recursos, além da fl exibilização de regras com ajuste de rubricas à realidade de cada projeto.

“Nós acompanhamos diversos casos nos quais, entre um edital de chamada, a avaliação do edital e o início de liberação de recursos, passam-se meses e, dentro desse novo mundo que estamos vivendo, isso é muito tempo”, comentou o diretor que ressaltou ainda a tendência da sustentabilidade como onda influenciadora para novos processos de inovação. “O processo da inovação como começamos a enxergar há alguns anos está acabando dentro do conceito tradicional. As empresas terão que trabalhar, dentro de seus princípios inovadores, a questão da sustentabilidade, que nem sempre é um produto”, concluiu. Na análise do pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), João Alberto De Negri, o Brasil é um país que tem a característica de financiar bens de capital mas apresenta dificuldades para fomentar a inovação tecnológica.

De acordo com ele, o desenvolvimento do processo produtivo no País passa pelo investimento em pessoas e tecnologia. “Somos um país que tem difi culdade de formar jovens e profssionais que consigam efetivamente atuar na área da inovação. As políticas de ciência e tecnologia são novas no caso brasileiro e todas as avaliações indicam que há falta dessas ações”, afirmou. De Negri considera que é preciso foco em risco tecnológico, além de parcerias entre os setores público e privado para gerar alterações signifi cativas não somente na quantidade de investimentos realizados, mas também na qualidade desses investimentos. “No centro da discussão da produtividade, está a inovação tecnológica. O Brasil precisa apostar mais em atividades que envolvam mais risco tecnológico, maior inovação e de melhor qualidade, isso não signifi ca abandonar o que fizemos no passado recente, mas é necessário acelerar o número de instrumentos e a capacidade que temos de impulsionar o núcleo mais inovador da indústria brasileira”, comentou.

A falta de estratégia no uso dos recursos destinados ao fomento da inovação e tecnologia é o principal desafi o apontado pelo diretor-presidente do conselho técnico-administrativo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Américo Pacheco, que sugeriu uma reforma ampla do sistema de fi nanciamento. “No Brasil, existe um isolamento do governo em relação aos atores que são capazes de tornar os gastos legítimos. Se não há uma agenda econômica para o País que inclua a ciência e tecnologia, não é possível justifi car a necessidade de recursos para alavancar a inovação e a produtividade”, afi rmou. Pacheco destacou ainda que os modelos de fomento devem ser repensados para articular interesses econômicos por meio de parcerias público-privadas que tenham uma governança adequada.

“A política de inovação, ciência e tecnologia deve estar focada na produtividade, em ambições de solução para os problemas e em um projeto de desenvolvimento de país. A questão do fi nanciamento exige uma engenharia institucional adequada e isso não vai acontecer se essa política não se mostrar útil para a sociedade brasileira”, disse.